Teologia e arte pop. Entrevista com Maupal

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25 Janeiro 2018

Desde que se tornou pontífice em março de 2013, Francisco foi rebatizado por muitos como o “papa pop”. Uma espécie de ícone popular apreciado por muitas pessoas na opinião pública, graças à sua capacidade de entrar em contato com as pessoas e de “fazer notícia” na mídia pelo seu estilo de pároco que sabe estar nas ruas.

A reportagem é de Giuliano Martino, publicada por Il Regno, 24-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Justamente a rua e as periferias são duas imagens que acompanharam Francisco nesses quase cinco anos de pontificado. Na rua, encontrou a sua fama a obra do artista romano Mauro Pallotta, nome artístico Maupal, que retratou o papa argentino como um super-herói.

Um dos grafites mais icônicos de Maupal nas ruas de Roma

Uma imagem que deu a volta ao mundo como mistura feliz de um papa próximo das pessoas e, ao mesmo tempo, fora do comum. Sobre as muitas mensagens contidas nessas imagens, Maupal nos fala nesta conversa.

Eis a entrevista.

Mauro, você nasceu e cresceu em Borgo Pio, a poucos passos do Vaticano. Conte-nos sobre o seu bairro.

Borgo Pio é um porto marítimo, uma espécie de passagem de fronteira: a 20 metros da minha casa, está a porta do Vaticano e, consequentemente, um vai-e-vem de pessoas das mais diferentes. Você pode ir ao bar e tomar café perto de um cardeal e depois sair e se deparar com o pobre da rua ou com a pessoa comum. Hoje, muitos turistas continuam vindo aqui para procurar as minhas obras [todas apagadas pelos funcionários do decoro urbano da Prefeitura de Roma]. Isso me dá continuamente novos estímulos e ideias para o meu trabalho.

Qual é a sua relação com a fé?

Tendo nascido e crescido aos pés do Vaticano, sempre tive uma educação católica, embora admita que não sou um praticante fervoroso. Certamente, porém, acredito em Deus e, com o advento de Francisco, vi o papel do papa em outra luz: não só como um líder religioso, mas também como algo mais. Um modo de ser e de fazer diferente, do qual transparecem uma humildade e uma humanidade raras.

O que chamou a sua atenção em Francisco?

Ele é um papa que tem uma forte empatia com todos, mesmo permanecendo como um homem de “poder” pelo papel que desempenha. Mas, nesse sentido, eu gosto de considerá-lo como um homem “iluminado para o bem”. Por isso, considero-o um exemplo a se seguir e quis retratá-lo como um “super-herói”. Mas muito humano: ele tem um pouco de barriga, óculos e o cachecol do San Lorenzo [seu time do coração], que, de algum modo, representa sua fé terrena em relação a coisas muito simples e comuns, como o futebol. Então, eu quis aproximá-lo fortemente das pessoas normais, até porque, na minha opinião, ele é levado por natureza a entrar em contato com qualquer um. Um retrato que muitos, especialmente na mídia, reconheceram como fiel àquilo que ele transmite às pessoas.

É um “papa pop”. De acordo com você, após a primeira fase de surpresa e novidade, sua popularidade corre o risco de diminuir, tornando-se algo óbvio?

Em Francisco, há um forte caráter pop, no sentido de popular, que faz parte dele, e eu acho que dificilmente mudará. A interpretação que o mundo dá dele já é essa, deixando claro que dificilmente poderemos nos acostumar completamente com um “papa pop”, o que, por si só, já é um oxímoro. Eu acho que seu pontificado continuará navegando nesses mares, e a opinião pública continuará considerando-o como um papa diferente do habitual, muito próximo do povo e das pessoas comuns. Por isso, muitas pessoas se aproximaram da Igreja, considerando-o uma espécie de “expoente político do bem”. E nisso ele se tornou um líder de referência para muitos.

Sua arte fala de temáticas sociais, também em sentido crítico. Nas suas obras sobre o Super-Papa, Francisco encarna esse senso do bem que você também procura muito.

Aos meus olhos, Francisco é o avô ideal e o guia a se seguir. É uma imagem que se tornou quase imprescindível. Especialmente quando se fala de problemáticas sociais, eu acho que é necessário ouvir suas palavras. Na minha segunda obra, a do papa que joga o jogo-da-velha com o guarda suíço que lhe dá cobertura, eu me inspirei nas suas palavras de paz proferidas por ocasião das tensões entre a Ucrânia e a Rússia alguns anos atrás. Lembro-me de ter pensado: “Se eu fosse papa, me comportaria exatamente como ele”. Mas, obviamente, não podendo me colocar no lugar dele, achei mais simples colocá-lo nos meus sapatos, os do artista de rua: assim, coloquei-o em uma escada desenhando em um muro, com a intenção de enviar uma mensagem clara, a da paz. Hoje, porém, se você fala sobre o bem, parece chato e fora de moda, como se estivesse dizendo algo proibitivo: o guarda suíço que lhe dá cobertura representa justamente esse modo de pensar fora de moda que, de algum modo, deve ser protegido.

O desenho mais recente de Maupal sobre Francisco, utilizado em uma torta da confeitaria romana Hedere, presenteada ao papa por ocasião dos seus 81 anos de idade, completados no dia 17 de dezembro passado

Qual dos murais mais representa você?

Obviamente, sou apegado a todos, mesmo que o primeiro tenha mudado a minha vida, do ponto de vista profissional, mas sobretudo humano. É a imagem que eu mais levo no coração, embora aquele que mais me represente é o mural do papa na escada, pelos motivos que eu disse. O último, o do papa com o mundo sobre os ombros, por sua vez, é um aviso para todos os poderosos, porque Francisco é o único que realmente está colocando o mundo sobre as costas, tentando reparar todas as fraturas sociais que o caracterizam. É o único que professa o único caminho possível, o da equidade e da ajuda àqueles que estão na pior: Francisco vai às periferias não só urbanas, mas sobretudo às sociais e humanas.

Não só Francisco: você também retratou João Paulo II.

A representação de João Paulo II foi por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia. Eu o representei nos esquis, descendo montanha abaixo, tendo sido um grande apaixonado por esse esporte. Em uma das bandeirinhas, inseri a frase “Não tenham medo”, que retoma uma das suas frases muito famosas dirigidas aos jovens: “Não tenham medo de escancarar as portas a Cristo”.

O fato de ter retrato Francisco, inevitavelmente, deu muita visibilidade e notoriedade a você: como sua vida mudou?

Digamos que agora eu sou considerado “o artista que representa os papas”, mesmo que eu também aborde muitas outras temáticas relacionados à minha forte extração popular. Eu até considerei a imagem do Super-Papa como uma das mais simples que eu podia fazer, mas, depois, foi a que me abriu as portas. Foi a minha primeira obra de arte na rua e, a partir de então, fui raptado pelo mundo da arte de rua, que foi se somando às outras formas de expressão que sempre caracterizaram o meu modo de entender a arte.

O Super-Papa, com sua maleta cheia de “valores”, também se tornou uma fonte de inspiração para o projeto “Eroi Ordinari” [Heróis Ordinários ou Comuns].

Sim, graças àquela imagem, nasceu o projeto “Eroi Ordinari", aceito pela Santa Sé: são impressas camisetas que podem ser adquiridas no site www.superpope.it, e parte da renda das vendas vai diretamente ao Óbolo de São Pedro. O meu objetivo é expandir esse projeto, fazendo pequenos retratos para as pessoas do bairro de Borgo Pio: além disso, qualquer pessoa no site pode inserir uma história de heróis comuns, isto é, histórias de pessoas que se depararam com o bem cotidiano, na esperança de que possa nascer um movimento de exemplos positivos capazes de transmitir um senso de comunhão e de bem.

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