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17 Dezembro 2017

Uma frase pronunciada por um Papa tem mais repercussão internacional que mil frases pronunciadas por outros chefes de Estado. Por isso, afirmam os especialistas vaticanistas que, em 2017, Francisco insistiu em falar dos pobres, dos migrantes, da paz, e também da América Latina – como na recente mensagem à Fundação Populorum Progressio, na qual criticou o “flagelo da dívida externa” nos países latino-americanos e pediu um “compromisso mais firme” para “melhorar as condições de vida de todos” –, para ver se os políticos decidem mudar as coisas.

A reportagem é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 15-12-2017. A tradução é do Cepat

Assim como em 2016 foi a Amoris Laetitia - a Exortação Apostólica de Francisco, criticada porque falava da possibilidade de dar a comunhão aos divorciados em segunda união -, este ano os canhões dos críticos apontaram, entre outras coisas, contra a “obstinação terapêutica” e acusaram o Papa de permitir a eutanásia. Francisco fez referência a este tema em uma carta enviada aos participantes do Encontro da Associação Médica Mundial que ocorreu no Vaticano. Nessa carta, afirmou que a eutanásia “é sempre ilícita”, mas admitiu que “é moralmente lícito renunciar à aplicação de meios terapêuticos ou suspendê-los” quando resultam eticamente desproporcionais. Desta maneira, “Não se quer procurar a morte”, mas, ao contrário, “aceita-se não poder impedi-la”.

Enquanto entre os católicos italianos e latino-americanos segue gozando de muita popularidade, neste ano, os setores mais conservadores da Igreja o seguiram boicotando e criticando, pois com suas mudanças poderia colocá-los em perigo. Uma das manifestações deste descontentamento foram alguns cartazes que surgiram pelas ruas de Roma, há alguns meses. Nos cartazes, aparecia uma foto do Papa e frases escritas em dialeto romano que davam a entender que ele não era misericordioso como, ao contrário, gostaria que todos os católicos fossem.

Foi acusado de ter “decapitado” a Ordem de Malta e a Ordem dos Franciscanos. Com efeito, Francisco removeu alguns de seus dirigentes por supostos comportamentos pouco transparentes. Foi a primeira vez, em muitas décadas, que apareceram cartazes tão agressivos contra um Papa. “Parece-me que esses cartazes são a manifestação daqueles que, hoje, têm muitas dificuldades”, comentou ao Página/12 o vaticanista Francesco Peloso. “E não me parece que seja uma operação inteligente, mas, ao contrário, muito mais de desespero, de nível muito baixo. O elemento importante que possa influenciar no enfrentamento entre os tradicionalistas e o Papa é a presidência Trump. Esta mudança nos Estados Unidos foi recebida positivamente pelos setores mais reacionários do catolicismo”.

A audiência que o Papa Francisco concedeu, em maio, ao presidente Donald Trump e sua esposa, no Vaticano, foi uma pequena mostra das diferenças entre os dois mandatários. O Papa o recebeu muito sério, como costuma fazer quando se encontra em situações por obrigação e não por gosto pessoal. Não foram divulgados os conteúdos do encontro, mas, sim, alguns aspectos secundários, como os presentes que trocaram e que, em si, foram uma espécie de mensagem subliminar muito significativa. O Papa presenteou ao presidente estadunidense com um medalhão, com um ramo de oliveira, símbolo da paz. “Dou-lhe para que você seja instrumento de paz”, disse-lhe, em uma implícita alusão às guerras e eventuais conflitos que os Estados Unidos alimentam. Trump lhe presentou alguns livros do líder negro Martin Luther King, convicto de que o Papa gostaria e esperando talvez, por outro lado, uma maior simpatia por parte dos eleitores estadunidenses que pertencem à Igreja católica.

As diferenças entre o Papa e Trump também foram vistas em outros âmbitos, como em relação à mudança climática e ao desarmamento nuclear. A cúpula internacional sobre a mudança climática começou ontem, em Paris, sem a presença do presidente estadunidense, que renunciou aos acordos internacionais. Os acordos de Paris de 2015 estabeleceram uma agenda de trabalho para conter o aquecimento terrestre, colocando limites ao uso, entre outros, do carvão. Vale a pena recordar que a China e os Estados Unidos são os dois primeiros países na lista dos que mais poluem o mundo por causa do uso do carvão na indústria.

“Desejo vivamente que esta Cúpula, assim como outras iniciativas que vão na mesma direção, favoreçam uma clara tomada de consciência sobre a necessidade de se adotar decisões realmente eficazes para enfrentar as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, combater a pobreza e promover o desenvolvimento humano integral”, disse o Papa, sempre atento a temas ecológicos. Francisco foi o primeiro Papa que publicou uma encíclica ambientalista (Laudato Si’) em 2015.

As diferenças com Trump e todos os países produtores de armamentos se tornaram ainda mais evidentes nas palavras dirigidas por Francisco aos participantes de uma conferência realizada em novembro, no Vaticano, sobre “um mundo livre de armas nucleares”, da qual participaram numerosos especialistas e onze Prêmios Nobel. “É um fato que a corrida armamentista não se detém e que os custos de modernização representam um grande gasto para as nações que, desse modo, fazem passar a segundo plano as prioridades reais da humanidade que sofre: a luta contra a pobreza, a promoção da paz, os projetos educacionais e de saúde e o desenvolvimento dos direitos humanos”.

E quando Trump decidiu reconhecer Jerusalém oficialmente como a capital de Israel, desatando novos conflitos armados entre israelenses e palestinos, o Papa recordou mais uma vez que Jerusalém é uma cidade santa para judeus, cristãos e muçulmanos e pediu “sabedoria e prudência a todos” para evitar “uma nova espiral de violência” nessa “terra maltratada”, segundo um comunicado da Santa Sé. A União Europeia disse que não reconhecerá Jerusalém como capital de Israel.

Francisco não é um entusiasta das viagens, assim como era João Paulo II, mas, neste ano, realizou quatro: ao Egito, em abril, a Portugal, para visitar o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em maio, a Colômbia, em setembro, e a Mianmar (Birmânia) e Bangladesh, em novembro. Talvez a viagem mais polêmica foi a de Mianmar, país budista acusado de perseguição e matança da etnia muçulmana rohingya. Porém, talvez por razões diplomáticas ou porque poderia colocar em perigo a maioria católica da Birmânia, o Papa não fez uma aberta referência ao caso da etnia perseguida, ao menos oficialmente, o que chamou um pouco a atenção, pois ele próprio havia condenado essas perseguições, estando em Roma. No entanto, em ambientes eclesiásticos de Mianmar reiterou a disposição da Igreja em atuar como mediadora, caso as partes considerarem conveniente.

Na viagem à Colômbia, em um momento especial pelo fim de 50 anos de conflito com a guerrilha das FARC, o Papa foi acolhido com grande afeto e aproveitou para pedir que rezassem pela paz na Venezuela. Entre muitas coisas, recebeu do presidente Manuel Santos o broche com o desenho de uma pomba que este carregou em sua lapela, durante todas as negociações com as FARC. “Já posso lhe presentear – disse ao Papa – porque a paz já voa com asas próprias”.

Outra viagem que passará para a história foi a que fez ao Egito, onde manteve um longo e cordial encontro com o máximo expoente dos muçulmanos sunitas e falou na Conferência Internacional pela Paz, que ocorreu na Universidade de Al-Azhar do Cairo, máxima expressão do Islã sunita. “Nenhuma violência pode ser cometida em nome de Deus”, reiterou o Papa, em alusão ao Estado Islâmico e seus atentados, também rejeitados pelos sunitas egípcios.

“Todos os papas tiveram opositores, sobretudo os papas reformadores”, disse em uma conversa com o jornal Pagina|12 o vaticanista Luigi Accatoli. “Um exemplo é Paulo VI, que foi muito criticado quando fez a reforma da liturgia. Francisco tem mais opositores porque está tentando avançar em mais reformas que outros pontífices. Mas, também porque ele não procura atenuar os contrastes. Bergoglio é o reformador mais audaz entre todos os papas contemporâneos”. Desde 2013, quando foi eleito Papa, Francisco lançou numerosas reformas, entre elas a da Cúria Romana, ou seja, no interior do Vaticano. Criou duas novas secretarias, uma para a economia e outra para a comunicação. Também criou uma comissão especial contra a pedofilia na Igreja e um conselho de nove cardeais de todo o mundo, que o assessoram nestas e em outras mudanças.

Um dos atuais grandes escritores italianos, Andrea Camilleri, autor dos livros que deram origem à mítica série televisiva internacional Il Commissario Montalbano, considera que Francisco é um “dos melhores papas que houve em muito tempo e por isso o atacam”. “Uma parte da Igreja acredita que está mais atento aos problemas sociais que aos espirituais, mas nos últimos dois a três anos, as coisas mais sensatas foram ditas por ele. Muito mais que qualquer político. E continua as dizendo a respeito dos refugiados, dos pobres, das desigualdades e, agora, também sobre a obstinação terapêutica”, disse Camilleri ao jornal espanhol El País.

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