A superlativa importância estratégica da Amazônia. Entrevista com o historiador militar Manoel Soriano Neto

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09 Novembro 2017

Na Tríplice Fronteira, na que une Brasil, Colômbia e Peru, nesta semana, começou um exercício militar inédito para a América do Sul. Chama-se Amazonlog 17 e não tem antecedentes pela presença de tropas estadunidenses em Tabatinga, o coração da Amazônia. Para conhecer mais detalhadamente do que se trata esta operação que é divulgada como de logística humanitária, mas que desperta suspeitas de ingerência norte-americana em uma zona sensível da região, o jornal Página/12 entrevistou um especialista brasileiro. Trata-se do coronel de infantaria e estado maior aposentado, e também historiador militar, Manoel Soriano Neto.

A entrevista é de Gustavo Veiga, publicada por Página/12, 08-11-2017. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Qual a sua opinião a respeito da operação militar conjunta em Tabatinga?

Parece-me muito positiva a iniciativa brasileira. Amazonlog é um exercício logístico multinacional interativo, inspirado no que foi realizado pela OTAN, em 2015, na Hungria. A experiência de vários países será compartilhada e todos se beneficiarão com valiosos aprendizados, especialmente em operações de paz e ajuda humanitária. A cidade de Tabatinga, vizinha de Leticia, na Colômbia, região conhecida como das Três Fronteiras e que inclui o Peru, foi eleita por ser um local em plena selva, com as dificuldades inerentes à área de três países amazônicos. Não vislumbro nenhuma agressão à soberania nacional de qualquer um dos países citados.

Acredita que as forças armadas do Brasil estão divididas sobre a conveniência destas manobras, como publicou o jornal Zero Hora de Porto Alegre, em maio deste ano?

Não tenho conhecimento destas divergências. Mas, que fique muito claro que podem ter existido antes de que se decidisse pela realização do exercício, na fase das discussões. No entanto, os militares e como manda a disciplina, farão tudo para que Amazonlog obtenha pleno êxito.

Qual é a importância estratégica da Amazônia para o Brasil, no plano militar?

A Amazônia tem uma superlativa importância estratégica, em todas as expressões do poder nacional, principalmente militar. A Amazônia brasileira possui seis grandes riquezas:

  • a população regional, bastante mista, com muitos indígenas.
  • A abundância de água doce de seus rios, com águas subterrâneas, com as do Aquífero Alter do Chão, nos estados do Amazonas, Pará e Amapá.
  • Sua imensa bacia, considerados os rios Ucaiali (Peru), Solimões e Amazonas, um conjunto que simplesmente pode ser chamado Amazonas, o mais extenso e volumoso do planeta.
  • A biodiversidade da região, onde se encontra o maior banco genético do planeta.
  • A incomensurável riqueza mineral, com urânio, titânio e, em especial, o nióbio, do qual o Brasil possui 98% das reservas mundiais.
  • Por último, sua privilegiada posição geográfica, pois é cortada pela linha do Equador, o que propicia, em relação aos demais países, o lançamento, nas melhores condições - frente à gravidade da terra -, de artefatos aeroespaciais, como sondas, satélites, foguetes, mísseis e, inclusive, naves espaciais. Daí a cobiça internacional pelo Campo de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, localizado na Amazônia Brasileira.

Qual a influência desses recursos naturais da Amazônia no interesse dos Estados Unidos e outras potências em intervir na região?

As nações hegemônicas precisam de terras férteis e habitáveis, matérias-primas e recursos naturais como a água, o petróleo e a biodiversidade. Isto é histórico e inexorável. Tudo é feito para que esses insumos sejam obtidos. Inicialmente, pelo uso de ações econômicas e político-diplomáticas (softpower) e, se for o caso, manu militari (hardpower). Os países centrais anseiam, além disso, lugares para a instalação de bases militares e de lançamento de artefatos aeroespaciais, para a projeção internacional de seu poderio bélico.

Quais são as principais hipóteses de conflito para o Brasil na Amazônia?

O Brasil na Amazônia, conforme o caso, caso sofra a invasão de uma nação ou coalizão de nações hegemônicas, também fará uso de uma estratégia de dissuasão, a chamada estratégia da resistência. O tema é vastíssimo e complexo, mas se baseia em um imemorial conceito de Sun Tzu, em A Arte da Guerra: “Se não pode vencer a guerra contra um inimigo muito mais forte, que ao menos saiba não perdê-la”. Seria a prolongação da guerra com o desgaste do inimigo por meio de ações de guerra irregular, basicamente, até que ele constate que não vale a pena prosseguir no conflito, como ocorreu no Vietnã. Desde 1995, o exército brasileiro vem, em conjunto com as outras duas forças, aperfeiçoando essa estratégia.

Seu país está preparado para enfrentar os desafios da defesa em um imenso território como a Amazônia?

O Brasil tem plena consciência de que a defesa da Amazônia própria (sem que se considere a Pan-Amazônia), é um problema exclusivo dos brasileiros. As forças armadas vêm fazendo todos os esforços para a defesa militar da região. Para isso, estão sendo utilizadas tropas, como as Brigadas de Infantaria da Selva e cujos efetivos são treinados para o combate na zona tropical. O Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus, capital do Amazonas, é uma referência militar para essa missão. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil cedeu temporalmente bases no Nordeste aos Estados Unidos, que as devolveram assim que terminou o conflito. Em minha opinião, não se pode concordar com as teses de soberania restringida, limitada ou compartilhada, abrindo margem para que instalações militares estrangeiras se alojem, em tempos de paz, no território nacional, como ocorre em países limítrofes ao Brasil, que podem se tornar alvos em tempo de guerra.

Qual a sua opinião a respeito dos argumentos de cooperação dos Estados Unidos para justificar a instalação de bases provisórias ou definitivas na Amazônia, como já fez no Peru, onde possuem ao menos três, em Iquitos, Nanay e Santa Lucía?

Em minha opinião patriótico-nacionalista, isto não pode ocorrer em hipótese alguma. A soberania não tem preço ou ideologia. Sim, é certo que no arco amazônico do oeste, não só no Peru e nas Antilhas Holandesas – Aruba e Curaçao –, existem mais de 20 bases áreas ou de radar dos Estados Unidos, as denominadas forward bases.

Percebe mudanças notáveis na política de defesa de seu país, desde que Michel Temer assumiu a presidência?

Não houve mudanças significativas na política de defesa do país no governo de Temer. O que houve foi, politicamente, um distanciamento da anterior postura de apoio a uma frente de esquerda bolivariana na América do Sul, sob a égide do Foro de São Paulo, encabeçada pela Venezuela.

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