Papa Francisco ecoa Bento XVI e diz que Cristo derramou seu sangue “por muitos”

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06 Novembro 2017

Durante uma missa na sexta-feira para os cardeais e bispos falecidos este ano, o Papa Francisco tocou diretamente num dos pontos mais debatidos nas “guerras litúrgicas” dentro da Igreja Católica, ecoando o seu antecessor o Papa Bento XVI ao insistir que “por muitos”, e não “por todos”, é a melhor maneira de expressar aqueles para quem Cristo derramou o seu sangue, dado que a expressão captura a ideia de que, nesta vida, os seres humanos precisam fazer uma escolha.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 03-11-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na sexta-feira, 3 de novembro, o Papa Francisco tocou em um dos debates litúrgicos mais contenciosos no catolicismo durante os últimos anos, ecoando o seu antecessor o Papa Emérito Bento XVI ao insistir que Cristo morreu “por muitos”, em lugar de empregar a frase “por todos”.

“Os ‘muitos’ que acordarão para a vida eterna devem ser entendidos como os ‘muitos’ pelos quais é derramado o sangue de Cristo”, disse Francisco. “São a multidão que, graças à bondade misericordiosa de Deus, pode experimentar a realidade da vida que não passa, a vitória completa sobre a morte por meio da ressurreição”.

As aspas em “muitos” foram usadas pelo Vaticano na versão escrita do texto.

Francisco sustentou que “por muitos” captura melhor o sentido de que os seres humanos têm uma escolha nesta vida, seja a favor ou contra Deus.

“O despertar da morte não significa necessariamente um retorno à vida”, disse. “Com efeito, alguns despertarão para a vida eterna, outros para a ignomínia eterna”.

“A morte torna definitiva a ‘encruzilhada’ que já aqui, neste mundo, está diante de nós: o caminho da vida, isto é, com Deus, ou o caminho da morte, isto é, longe d’Ele”, falou o pontífice.

Estas palavras foram ditas durante a homilia numa missa em sufrágio dos cardeais e bispos falecidos em 2017. A lista de cardeais inclui o americano William H. Keeler, o indiano Ivan Dias, o alemão Joachim Meisner, Cormac Murphy-O’Connor, da Inglaterra, e o italiano Carlo Caffarra.

A frase “por muitos”, usada no Evangelho de Marcos (14,24) e no Evangelho de Mateus (26,28), tem sido motivo de debates nas últimas duas décadas por liturgistas, teólogos e outros. Empregada na missa romana durante a oração eucarística com referência ao sangue de Cristo, o original latino é “pro multis”.

A tradução mais recente do trecho completo é: “Which will be poured out for you, and for many, for the forgiveness of sins” [Que será derramado por vós, e por muitos, para remissão dos pecados].

Quando se traduziu o Missal Romano para o vernáculo, ao verter “pro multis” muitas traduções iniciais usaram “por todos” ao invés de “por muitos”. Daí que os católicos que rezam a missa em italiano, espanhol, português ou alemão digam que Cristo “veio por todos”, onde os poloneses, holandeses ou franceses diriam que ele veio por “muitos”.

Em 2006, o Vaticano decretou que, nas traduções da edição revisada do Missal Romano publicadas em 2002, a frase deveria ser traduzida literalmente, “por muitos”. A versão oficial em inglês foi publicada, usando a tradução literal. No entanto, esta alteração ainda está a caminho em muitos outros idiomas.

As traduções de 2002 deviam seguir as instruções presentes no documento Liturgiam Authenticam emitido em março de 2001 pela Congregação para o Culto Divino.

Os prelados italianos e alemães, que ainda trabalham em suas traduções, optaram por manter o emprego de “por todos”. Em 2012, o então Papa Bento XVI enviou uma carta aos bispos da Alemanha urgindo-os a adotar a forma “por muitos”, explicando que “por todos” era o resultado de um consenso entre os bispos após o Concílio Vaticano II, mas que era uma “interpretação”, mais do que uma tradução propriamente.

Bento XVI não chegou a defender a correção daquilo que via como uma interpretação, escrevendo que esta “tinha seguramente fundamento, e continua a tê-lo”. Contudo, insistiu, é mais que uma tradução; é interpretação.

Na carta, o papa emérito é favorável a uma certa flexibilidade na tradução, dizendo que um dos princípios que levaram a ela foi tornar os livros litúrgicos mais acessíveis aos fiéis, e “foi assim que se sentiram não só autorizados mas até na obrigação de fundir já com a tradução a interpretação e, deste modo, encurtar a estrada para chegar aos homens, cujo coração e inteligência se queria que fossem alcançados precisamente por estas palavras”.

No entanto, continuou o papa, visto que ele muitas vezes precisava recitar as orações litúrgicas em diversas línguas, “dou-me conta de que, às vezes, não é possível encontrar quase nada de comum entre as diversas traduções e que, frequentemente, só de longe se consegue reconhecer o texto único que lhes serviu de base”.

Em setembro, Francisco emitiu um motu proprio – documento legal emitido sob a autoridade pessoa do papa – chamado Magnum Principium, que promoveu uma descentralização das traduções litúrgicas e que foi visto, por muitos, como uma reversão, no mínimo, parcial do documento Liturgiam Authenticam.

Alguns analistas salientaram que isto poderá dar aos prelados alemães a liberdade para permanecerem firmes na posição adotada até então, porém a escolha das palavras por Francisco na sexta-feira pode dar a entender que, neste ponto em particular, eles não necessariamente terão o apoio papal.

Vale notar que a tradução argentina do Missal foi aprovada em 2007 e promulgada em 01-01-2009, quando o então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Francisco, era presidente da Conferência Episcopal do país. Esta versão emprega a expressão “por muitos”. A tradução é válida para a Argentina, o Chile, Paraguai e Uruguai, embora a versão argentina tenha as suas próprias mudanças não relacionadas com o “pro multis”.

Na homilia de sexta-feira, Francisco refletiu sobre a vida e a morte, dizendo que “uma característica fundamental do cristão é o sentido duma ansiosa expectativa do encontro final com Deus”.

Cristo, disse ele, “aceitou a morte para salvar os homens que o Pai Lhe deu e que estavam mortos na escravidão do pecado”.

“A fé que professamos na ressurreição leva-nos a ser homens de esperança e não de desespero, homens da vida e não da morte, porque nos consola a promessa da vida eterna, radicada na união a Cristo ressuscitado”, concluiu.

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