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06 Outubro 2017

Com um breve apólogo que responde a esta pergunta se resume a liderança de Mandela: um treinamento virtuoso e paciente contra as tentações da raiva e da vingança.

O comentário é de  Martha C. Nussbaum, filósofa, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, de 24-09-2017. A tradução é de Luísa Rabolini

Nos escritos de Mandela não encontramos uma teoria sistemática da não-raiva, mas uma autoconsciência humana de considerável profundidade. (...) A raiva leva a dois caminhos, cada um dos quais encerra um erro pouco atraente. O desejo da raiva de que o mal seja revertido para o réu é inútil, porque a retaliação não retorna nada para o que de bom foi danificado; ou, a raiva permanece centrada sobre o status relativo, caso em que até pode alcançar o seu objetivo (relativa humilhação), mas a própria finalidade é inteiramente indigna. Vou demonstrar que Mandela chega instintivamente à mesma conclusão, de uma forma condicionada por seu longo período de introspecção, que previa o exame de consciência cotidiano, durante vinte e sete anos de prisão, um tempo que ele define como extremamente produtivo para meditar sobre a raiva.

O que conclui Mandela, nas longas horas do que ele chama de "conversas comigo mesmo", aludindo às Meditações de Marco Aurélio, um texto que foi levado para a Robben Island quase certamente por Ahmed Kathrada, e lido também por outros prisioneiros? Primeiro, ele reconhece que a obsessão com o status é indigna, e assim se recusa a seguir esse caminho (talvez suas origens nobres o tenham ajudado, aliviando a angústia). Ele nunca se importou se uma função ou atividade específica fossem "indignas" dele. Através da introspecção, podou das suas reações qualquer aceno à ansiedade pelo status, como se fosse a coisa mais natural e justificável. Como no caso em que, a um recém-chegado à Robben Island foi solicitado esvaziar o balde de outro prisioneiro que tinha ido para a Cidade do Cabo às 5h da manhã, antes da hora da limpeza dos baldes e o homem se recusou, dizendo que nunca iria esvaziar o balde de outro. Mandela interveio: "Então, eu limparei por ele, porque para mim não importava; eu esvaziava o meu balde todos os dias, e eu não tinha problema em esvaziar também o de outro" (a transcrição relata que Mandela dava risadas ao contar essa história). (...)

Escrevendo a Winnie [Mandela] da prisão, em 1975, conta que a maioria das pessoas está, infelizmente, interessada na "posição social": ao contrário, deveria estar interessada ao próprio desenvolvimento interior.

Mandela bem sabia que a maioria das pessoas está muito preocupada com o status. A liderança, para ele, significava treinamento paciente das capacidades, assim como se prepara um atleta, e uma capacidade que ele treinava constantemente foi justamente a de entender como pensavam os outros. Portanto, entendia que para desarmar a resistência era preciso desarmar primeiro a ansiedade, e que isso nunca seria conseguido com manifestações de raiva ou ressentimento, mas apenas com a gentileza e o respeito pela dignidade alheia. O segredo de um bom relacionamento com os guardas - muitas vezes contaminado pelos atritos de classe - era "o respeito, o simples respeito". Quando o seu advogado chegou a Robben Island, durante o primeiro ano de reclusão, Mandela fez questão de apresentá-lo aos guardas: "George, me desculpe, eu não te apresentei a minha guarda de honra". Então apresentou cada agente pelo nome. O advogado lembra que "os guardas ficaram tão surpresos que realmente se comportaram como guardas de honra, e cada um deles apertou-me respeitosamente a mão". Um dos guardas contou-lhe que os guardas nem sequer falavam entre si, porque "detestavam o que eram".

A reação de Mandela foi de perguntar ao homem a sua história: ele tinha sido criado em um orfanato, nunca conhecera seus pais. Mandela conclui: "O fato de não ter os pais, não ter nenhum afeto, era dali que vinha a amargura no meu confronto. Eu o respeitava muito, porque ele era um homem que se fez por si só. Era independente e estudava".

Portanto, não apenas o caminho da raiva motivada pela condição social era cuidadosamente evitado por Mandela, mas ele a entendia nos outros com empatia e, assim, conseguia habilmente desmontá-la.

Quanto ao desejo de retaliação, este também era muito bem compreendido por Mandela e ele o provou várias vezes na sua vida. Ele relembra diversos incidentes que o deixaram furioso. "Aquela injustiça me inflamava", relata sobre um caso na escola de Fort Hare. Além disso, a raiva não só estava sempre à espreita, mas também foi até certo ponto o impulso crucial para que se dedicasse à política: "Eu não tive uma epifania, uma revelação súbita, um momento da verdade; foi a lenta acumulação de uma miríade de ofensas, uma miríade de indignidades, uma miríade de momentos esquecidos que fez brotar em mim a raiva, a revolta, o desejo de lutar contra o sistema que aprisionava o meu povo. Não houve um momento específico em que eu tenha dito: de agora em diante, vou me consagrar à libertação do meu povo; em vez disso, eu simplesmente me dei conta que estava fazendo isso, e não poderia fazer diversamente".

Mas ele reconheceu que a vingança simplesmente não leva a lugar algum. A raiva é humana, e podemos entender porque a injustiça produz tanta raiva, mas ao refletirmos sobre a mera futilidade do desejo de retaliação, e se realmente quisermos o bem para nós mesmos e para os outros, logo percebemos que a não-raiva e uma disposição generosa são mais úteis. (...)

Mandela não era um santo, e a sua tendência à raiva foi um problema constante contra o qual precisou lutar. Segundo seu próprio testemunho, grande parte de sua meditação introspectiva na prisão era a respeito de sua tendência para a raiva sob a forma de desejo de retaliação. Assim, em uma ocasião, ele concluiu que havia respondido muito bruscamente para um dos guardas, e ele se desculpou. A escolha para organizar suas conversas de forma análoga às Meditações de Marco Aurélio mostra um desejo de autocontrole que pode derivar diretamente de fontes estoicas, embora suas ideias tenham uma estreita relação também com o conceito africano de ubuntu. (...) Ele repetidamente chama a atenção para a importância de introspecção sistemática. Em uma carta da prisão para Winnie, que também estava na prisão, em 1975, ele escreve, encorajando-a a adotar a mesma disciplina de meditação: "A cela é o lugar ideal para aprender a conhecer a si mesmo, explorar de forma realista e regularmente os próprios processos mentais e emocionais".

Note-se que mesmo nas primeiras experiências de raiva, que Mandela identifica como formativas, predomina a orientação para o futuro. (...) Em geral Mandela não parece ter jamais pensado que fazer sofrer sul-africanos brancos ou infligir a eles algum tipo de vingança fosse minimamente útil. O seu objetivo era mudar o sistema: um objetivo que exigiria a cooperação dos brancos, sem cujo apoio teria resultado altamente instável e constantemente ameaçado. (...)

As atitudes não retributivas, de acordo com Mandela, são decisivas principalmente para quem tem a responsabilidade de uma nação. Um líder responsável deve ser pragmático, e a raiva é incompatível com um pragmatismo orientado para o futuro. Dificulta e nada mais. Um bom líder deve ir para a transição o mais rápido possível, e talvez pela maior parte de sua vida deva fazer isso, expressando e também sentindo raiva de transição e delusão, mas deixando para trás a verdadeira raiva.

Um bom resumo do método de Mandela pode ser encontrado em uma pequena parábola, que ele contou para Richard Stengel, e que anteriormente já havia usado com seus seguidores: "Eu contei a história de uma discussão entre o sol e o vento, de quando o sol disse o vento: "Eu sou mais forte do que você", e juntos eles decidiram testar-se com um viajante, uma pessoa enrolada em um cobertor. O mais forte teria sido aquele que entre eles seria capaz de tirar o tal cobertor. Assim, o vento começou a soprar e quanto mais soprava, mais o homem segurava com firmeza o cobertor junto a si. Então o vento continuou a soprar e soprar, mas o homem não queria saber de largar o cobertor, aliás, como eu dizia, mais o vento soprava e mais ele o segurava em volta do corpo. Por fim o vento desistiu. Então chegou a vez do sol, que começou a brilhar, lentamente no começo e, depois, enviando raios cada vez mais quentes, até que o homem começou a pensar que, de fato, o cobertor não lhe servia mais, porque já estava bastante quente. Assim, ele o afrouxou um pouco, mas os raios do sol foram se tornando mais intensos, tanto que em determinado ponto o viajante se livrou do cobertor. Pois bem, esta é a parábola: com a paz é possível fazer mudar de ideia até mesmo as pessoas mais determinadas, mais votadas à violência, e essa é a abordagem que precisaremos adotar".

É significativo que Mandela oriente toda a questão em termos pragmáticos, como um problema de fazer com que o outro faça o que você gostaria. Em seguida, ele demonstra que essa tarefa é muito mais fácil quando se consegue convencer o outro a trabalhar com você, em vez de ficar contra você. Os progressos são dificultados pela desconfiança do outro, por sua paranoia defensiva. A raiva nada pode fazer para melhorar as coisas: apenas pode aumentar a ansiedade e a paranoia do outro. Um método afável e gentil, ao contrário, consegue gradualmente enfraquecer as desconfianças até superar completamente a ideia de ficar na defensiva.

Mandela, é claro, não era nem ingênuo nem tão ideológico a ponto de ignorar a realidade: por isso nunca encontraremos nele propostas como a de renunciar à resistência armada contra Hitler ou tentar conquistá-lo com o charme e a discrição. A parábola é proposta em um contexto específico, aquele do final de uma luta de emancipação às vezes violenta, com muitos do outro lado que eram de qualquer forma patriotas genuínos, desejosos do bem futuro da nação. Desde o início de sua carreira, ele havia insistido em que a não-violência fosse usada apenas estrategicamente. Mas, mesmo por trás do recurso estratégico à violência, sempre havia uma visão de transição do povo, centrada não na vingança, mas na construção de um futuro compartilhado.

Portanto, Mandela tem uma resposta pronta a um opositor imaginário favorável à mentalidade da retaliação, como alternativa apropriada à não-raiva. O fato é que a retaliação não traz nada de bom. Tal forma de se relacionar com os adversários teria atrasado a causa pela qual ele estava lutando. Ele aceita a crítica de que seu modo de ver os adversários seja apenas uma opção, não ditada pela moralidade: assim dizendo, expressa uma motivação mais fraca do que a minha. A sua réplica é que o seu método funciona. (...)

Para Mandela, raiva e ressentimento simplesmente não são consoantes com um líder, porque a função do líder é de fazer as coisas, e a abordagem generosa e colaborativa permite alcançar tal objetivo. Ele sugeria fazer o mesmo também para os seus aliados e seguidores. Quando um grupo de prisioneiros do Movimento Black Consciousness chegou a Robben Island determinado a continuar a resistência com ataques contra os guardas, ele convenceu-os paciente e gradualmente, de que a militância pode ser manifestada também, e de forma mais profícua, com estratégias livres de raiva. Muito mais tarde, nos primeiros tempos da nação, depois do assassinato do líder negro Chris Hani por um branco, realmente houve o perigo de que o desejo de vingança comprometesse a unidade. Mandela apareceu na televisão expressando um profundo pesar, mas exortando à calma em tom paternal, para que o povo percebesse: "Se nem mesmo ‘o pai’ clamava por vingança, quem mais tinha o direito de reclamá-la?". Ele então tentou de direcionar os sentimentos, observando que o assassino era um estrangeiro e que uma mulher africana havia se comportado heroicamente, anotando a placa do assassino e permitindo assim que a polícia o localizasse. Ele disse: "Este é um momento decisivo para todos nós [...] Devemos usar a dor, o luto e a indignação para prosseguir o caminho em direção àquela que é a única solução duradoura para o País, ou seja, um governo eleito pelo povo [...] permanecendo uma força disciplinada para a paz". Não seria fácil encontrar um exemplo mais pungente da transição, considerando que Mandela tinha amado Hani como um filho e, evidentemente, estava sentindo uma profunda dor pela sua morte.

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