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21 Setembro 2017

A atenção imediata se concentra na ameaça de “destruição total” da Coreia do Norte e nos outros duros ataques contra o Irã e a Venezuela. Mas o primeiro discurso de Donald Trump na ONU é muito mais do que isso. É um verdadeiro manifesto ideológico, que o presidente estadunidense propõe a todos os nacional-populismos do nosso tempo.

O comentário é de Federico Rampini, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 20-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No Palácio de Vidro, ressoou pela primeira vez uma Doutrina Trump orgânica, em grande parte confeccionada pelo único ideólogo de extrema direita (Stephen Miller), que os generais quiseram deixar ao seu lado da Casa Branca.

O apelo de Trump aos líderes mundiais invoca um “redespertar das nações”, usando aquele termo (“reawakening”) que, nos Estados Unidos, foi historicamente associado a fenômenos de redescoberta em massa de um intenso fervor religioso. A salvação do mundo, na sua visão, depende de um reavivamento do patriotismo, “não de burocracias distantes”. É um mundo de “nações orgulhosas”, convencidas de defender os seus cidadãos, que pode nos restituir segurança.

Como presidente dos Estados Unidos, ele reivindica o direito de “colocar a América em primeiro lugar” (America First), justamente como os outros líderes fazem e sempre deverão fazer pelos seus próprios países”.

O relançamento do nacionalismo é em 360 graus. Há o ataque à globalização, aos “tratados de livre comércio com as suas promessas fracassadas, milhões de empregos destruídos, enquanto outros violavam as regras”. À classe média e aos trabalhadores estadunidenses, ele reitera a promessa fundamental da sua campanha eleitoral: “Vocês nunca mais serão esquecidos”.

Há também uma linha Trump sobre os refugiados, que ressoará em muitos países europeus que estão lidando com essa questão: “Com o custo da acolhida a um refugiado aqui nos Estados Unidos, podemos salvar dez na casa deles. Isso, sim, é humanitário”.

A redescoberta de um culto da nação se estende até abraçar o ato fundador da ONU. No seu discurso, Trump se apropria da invenção de Franklin Roosevelt e dá a sua versão a ela: nas origens das Nações Unidas, está a vitória contra os nazifascismos em 1945, mas os heróis que ofereceram o sacrifício da vida na Segunda Guerra Mundial “lutavam para defender as nações que amavam”.

Nessa visão, só há lugar para a ONU se ela “finalmente realizar o seu enorme potencial”. Ou seja, se for eficaz para combater e neutralizar os “Estados canalhas” como a Coreia do Norte e o Irã.

Trump está disposto a conceder um papel às instituições multilaterais se o resultado valer o investimento, se o retorno para os países membros individuais em termos de segurança for proporcional ao gasto.

As contradições abundam entre essa Doutrina Trump nos seus princípios gerais e a sua aplicação aos casos concretos. A sua condenação ao acordo nuclear com o Irã, assinado por Barack Obama, é inexplicável, à luz da crise norte-coreana: quanto os estadunidenses dariam hoje para assinar um acordo semelhante com Kim Jong-un, que parasse por pelo menos dez anos o seu programa nuclear?

Chamar às suas responsabilidades aqueles países que apoiam o terrorismo islamista, sem uma referência de crítica à Arábia Saudita, reproduz as eternas contradições da realpolitik estadunidense, sempre indulgente quando se trata de um aliado estratégico que pisoteia os direitos humanos ou abastece madraças fundamentalistas.

Apesar das muitas incoerências, resta a mensagem de fundo. Que não é banal, na sua transparência extrema. A Doutrina Trump explicita aquilo que pensam muitos cidadãos das democracias liberais decepcionados com a globalização, assustados com os fluxos migratórios: não serão as tecnocracias supranacionais que irão protegê-los, já que “esse mundo” foi desenhado por elas próprias.

A Doutrina Trump também é surpreendentemente próxima da teoria e da prática seguidas desde sempre por tantos líderes das potências emergentes. A China, a Rússia, a Turquia e agora até mesmo a Índia do ultranacionalista Narendra Modi nunca acreditaram realmente na adesão às Nações Unidas para defender a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A ideia de que existem valores sagrados em todas as latitudes, direitos dignos de proteção, independentemente dos regimes políticos ou das crenças religiosas, foi muitas vezes denunciada pelas classes dominantes desses países como uma nova forma de imperialismo ocidental.

Nesse sentido, Trump é muito “contemporâneo” e é mais semelhante aos líderes das potências emergentes do que Obama, os seus inspiradores Franklin Roosevelt e Woodrow Wilson. Entre os pais fundadores da ONU, alguns sonhavam com um mundo onde fosse possível a superação dos nacionalismos, apontados como as causas dos dois conflitos mundiais.

Trump, idêntico, nesse sentido, a Xi Jinping e a Putin, considera a legalidade internacional e as suas instituições como um instrumento a ser usado e contornado, de acordo com as conveniências e os benefícios que podem ser obtidos.

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