Dia de Oração pelo Cuidado da Criação. Mensagem do Patriarca Bartolomeu

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02 Setembro 2017

“A destruição da natureza e da sociedade sempre é precedida por uma “inversão de valores” interna, por danos espirituais e éticos. Quando as possessões materiais dominam nosso coração e nossa mente, então nossa atitude para com nossos semelhantes e para com a criação se torna inevitavelmente possessiva e abusiva”, escreve o Patriarca Bartolomeu, por ocasião do Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, 01-09-2017.

Eis a mensagem.

Bartolomeu

Pela Misericórdia de Deus, Arcebispo de Constantinopla-Nova Roma e Patriarca Ecumênico

À Plenitude da Igreja: Graça, paz e misericórdia

Do Criador de Tudo, nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo

(1º de setembro de 2017)

Amados irmãos e irmãs no Senhor,

com a graça de Deus, hoje, entramos no novo ano eclesiástico, enquanto seguimos dando testemunho “por meio daquele que nos amou” (Romanos 8, 38) e “prestando conta da esperança que há em nós” (1 Pedro 3, 15), na Igreja, em Cristo e segundo Cristo, que prometeu estar conosco “todos os dias de nossa vida, até o fim do mundo” (Mateus 28, 20).

Vinte e oito anos se passaram desde o decreto sinodal do Patriarcado Ecumênico para estabelecer a festa da Indicção como o “Dia da Proteção do Meio Ambiente”, quando oferecemos orações e súplicas no sagrado Centro de Ortodoxia “para toda a criação”. A encíclica patriarcal relevante (1º de setembro de 1989) convidou a todos os fiéis ortodoxos e outros cristãos, neste dia, a oferecer orações de ação de graças ao Criador de tudo pelo “grande dom da Criação”, junto com pedidos pela sua preservação.

Expressamos nossa alegria e satisfação pela ampla recepção e influência frutífera desta iniciativa por parte da Igreja de Constantinopla. Demonstramos as raízes espirituais da crise ecológica, assim como a necessidade de se arrepender e priorizar os valores da humanidade contemporânea. Afirmamos que a exploração e destruição da criação constituem uma perversão e distorção do ethos cristão, mais que a consequência inevitável do mandamento bíblico de “frutificar e multiplicar” (Gênesis, 1,22). Nossa conduta antiecológica é uma ofensa ao Criador e uma transgressão de seus mandamentos, trabalhando em última instância contra o autêntico destino da pessoa humana. Não pode haver desenvolvimento sustentável à custa dos valores espirituais e do ambiente natural.

A Santa e Grande Igreja de Cristo defendeu e segue defendendo a dinâmica ecológica de nossa fé ortodoxa, sublinhando o propósito eucarístico da criação, a resposta dos fiéis como “sacerdote” da criação, em um esforço por oferecê-la sem cessar ao Criador de tudo, assim como o princípio do ascetismo como resposta ao sentido moderno de gratificação. De fato, o respeito pela criação pertence ao próprio núcleo de nossa tradição ortodoxa.

Estamos especialmente perturbados pelo fato de que, embora esteja claro que a crise ecológica está aumentando constantemente, em nome do crescimento financeiro e o desenvolvimento tecnológico, a humanidade esqueceu os apelos mundiais para uma mudança radical em nossa atitude para com a criação. É óbvio que a deformação e a devastação resultante do ambiente natural são uma consequência direta de um modelo específico de progresso econômico, que, no entanto, é indiferente a suas repercussões ecológicas. Os benefícios a curto prazo ditados pelo aumento do nível de vida em algumas partes do mundo simplesmente camuflam a irracionalidade do abuso e a conquista da criação.

Os negócios corporativos que não respeitam o planeta como nosso lar comum não podem ser ratificados como negócios em absoluto. O comércio contemporâneo sem restrições da globalização segue de mãos dadas com o desenvolvimento espetacular da ciência e a tecnologia, que apesar das múltiplas vantagens, também é acompanhada de uma arrogância e abuso da natureza. O homem moderno sabe muito bem disso, mas atua como se não soubesse. Sabemos que a natureza não é restaurada e renovada sem cessar. No entanto, ignoramos as implicações negativas do “comércio” no meio ambiente. Esta explosiva combinação de comércio e ciência sem limites, ou seja, a confiança ilimitada no poder da ciência e da tecnologia, simplesmente aumenta os riscos que ameaçam a integridade da criação e a humanidade.

O Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa explicou com sabedoria e clareza os perigos de “autonomizar a economia” ou separar a economia das necessidades vitais da humanidade, que só se servem dentro de um ambiente sustentável. Ao contrário, propôs uma economia “fundada nos princípios do Evangelho” (1) para abordar o desafio ecológico moderno, “sobre a base dos princípios da tradição cristã” (2). Em relação às ameaças de nossa época, a tradição da Igreja exige “uma mudança radical de atitude e conduta”. Em resposta à crise ecológica, propõe um espírito de ascetismo, “sobriedade e abstinência” (3). Em resposta à nossa “cobiça” (4), pede “a deificação de nossas necessidades e atitude de aquisição” (5). O Santo e Grande Concílio também se referiu enfaticamente às “dimensões sociais e consequências trágicas da destruição do meio ambiente natural (6).

Portanto, fazendo eco das decisões deste Concílio, também destacamos através desta encíclica a estreita relação entre as questões ecológicas e sociais, bem como suas raízes comuns que residem no “coração imprudente” que é decadente e pecaminoso, assim como no uso inadequado de nossa liberdade dada por Deus. A destruição da natureza e da sociedade sempre é precedida por uma “inversão de valores” interna, por danos espirituais e éticos. Quando as possessões materiais dominam nosso coração e nossa mente, então nossa atitude para com nossos semelhantes e para com a criação se torna inevitavelmente possessiva e abusiva. Em termos bíblicos, a “árvore mau” sempre produz “frutos maus”. (Mateus 7, 17). Além disso, por extensão, destacamos o respeito à criação e outras pessoas que compartilham a mesma fonte e origem espiritual, a saber, nossa renovação em Cristo e a liberdade espiritual. Assim como a destruição ambiental está relacionada com a injustiça social, também uma atitude ecológica é inseparável da solidariedade social.

O que também se evidencia é que a solução à crise humana contemporânea multifacetada – ou seja, a crise enfrentada pela cultura humana e o meio natural – exige uma mobilização e um esforço conjunto multidimensional. Assim como para qualquer outro problema vital, a crise ecológica e social subjacente e interconectada não pode ser abordada sem a colaboração entre cristãos e inter-religiosos. Por tanto, o diálogo se torna o terreno fértil para promover as tradições sociais e ecológicas existentes para estimular a discussão ambiental e comunitária, ao mesmo tempo em que se inicia uma crítica construtiva do progresso entendido exclusivamente em termos tecnológicos e econômicos à custa da criação e da civilização.

Para concluir, reiteramos mais uma vez o caráter inseparável do respeito à criação e à humanidade, e fazemos um chamado a todos os homens de boa vontade para que empreendam a boa luta pela proteção do meio ambiente natural e o estabelecimento da solidariedade. Que o Senhor e doador de todas as coisas boas, pelas intercessões da Santíssima Mãe de Deus, conceda a todos vocês “um ardor em seus corações por toda a criação” (7) e um estímulo de amor e boas obras”. (Hebreus 10,24)

Bartolomeu de Constantinopla
Seu fervoroso suplicante diante de Deus

Notas

1. Encíclica do Santo e Grande Concílio, parágrafo 15.
2. Encíclica, parágrafo 10.
3. “A missão da Igreja ortodoxa no mundo contemporâneo”, parágrafo 10.
4. “A Missão”, parágrafo 10.
5. Encíclica, parágrafo 14.
6. Encíclica, parágrafo 14.
7. Isaac o sírio, tratados ascéticos, Homilia 81.

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