Freira comboniana responde ao "grito de dor" de vítimas do tráfico de pessoas

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31 Agosto 2017

"Você sabe de onde veio o ouro em seu crucifixo?", perguntou Simone Blanchard, especialista em comércio ético do Catholic Relief Services. Em vários casos, explica, quem conseguiu o ouro foram crianças no Peru, forçadas a trabalhar nas minas. Isso ilustra o alcance global do tráfico de pessoas, cujo lucro é estimado em US$ 150 bilhões por ano, sendo a terceira indústria ilegal mais lucrativa do mundo.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 30 -08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A Irmã Gabriella Bottani dedicou a maior parte do seu ministério à luta contra o tráfico de pessoas, problema com que se deparou pela primeira vez em meados da década de 90. Quando ainda estava em formação, contou, e era voluntária em um centro Caritas, em Roma, conheceu uma mulher chamada Lina.

Lina não era como qualquer outra jovem. Era uma albanesa que tinha sido traficada para a Itália e explorada através de prostituição. Seu "salário"? Menos de US$ 1,50 por cliente - e, como bônus perverso, também contraiu HIV.

Uma noite, Lina chegou ao centro para as mulheres sem-teto em que ela estava ajudando, e até hoje a freira comboniana não consegue esquecer os grandes olhos castanhos que pediam ajuda: queria sair da vida em que estava presa.

"Estávamos com tudo pronto para ela ir para um local seguro, mas quando chegou o dia, não apareceu", disse Bottani ao Crux.

Duas semanas depois, Lina retornou à casa coordenada pela Caritas Italia, uma rede afiliada ao Vaticano de grupos de caridade católicos em todo o mundo.

"Disse que queria sair da rua, mas quem estava a explorando - não usou essa palavra, mas era o que queria dizer – conhecia sua família", disse Gabriella Bottani, lembrando suas palavras ao contar que tinha um filho pequeno: "Tive que escolher entre a minha vida e a vida do meu filho. Escolhi a do meu filho."

Esse encontro com "Lina" - nome fictício - mudou o pensamento de Bottani, que na época, em 1994, estava no início da formação que levaria à sua consagração a Deus na Ordem das Irmãs Missionárias Combonianas, uma congregação internacional de mulheres consagradas que optam por viver na pobreza, castidade e obediência, em meio aos mais pobres e excluídos da sociedade.

Ela acredita que o encontro com Lina teve um impacto significativo em sua formação como religiosa, "mas também foi um momento de encontro com Deus que me abriu os olhos para o drama, o sofrimento de muitas pessoas como ela. É como se Ele tivesse direcionado minha sensibilidade."

Logo após o encontro, Gabriella Bottani mudou-se para a Alemanha, onde estudou Pedagogia Social e, por fim, foi para Fortaleza, no norte do Brasil, onde morou durante anos em uma favela e, mais uma vez, se deparou com a realidade de crianças e adolescentes forçados a entrar na prostituição.

Hoje, ela mora em Roma, de onde lidera a "Thalita Kum", uma organização guarda-chuva que coordena esforços de 22 redes em 70 países que trabalham contra o tráfico de pessoas. A "rede das redes" também pode ser caracterizada como um esforço global das mulheres consagradas contra essa indústria ilegal. Foi criada em 2009 pela União Internacional dos Superiores Gerais.

"Nasceu de um esforço de fazer a vida religiosa colaborar com essa questão complexa e difícil de abordar", declarou. "A partir da liderança feminina, a organização se abriu para outras realidades e hoje não é composta apenas por mulheres e irmãs religiosas, mas também por sacerdotes e leigos, pessoas de diferentes religiões e também pessoas que não têm crença".

Para explicar o que faz que ela se dedique ao combate à exploração de outras pessoas, Bottani usa a imagem bíblica de Moisés, enviado por Deus para resgatar Israel das mãos do faraó.

"É Deus que chama, porque Ele ouve o grito desesperado de dor", afirmou. "O pedido de nossos irmãos e irmãs que vivem essa dor, vítimas de violência física e psicológica... E quando Deus ouve seu chamado, Ele também chama, nos torna sensíveis [a essas súplicas]."

Antecedentes do tráfico de pessoas

"As estatísticas mostram que 21 milhões de pessoas no mundo todo são traficadas a cada ano. É o dobro da população da cidade de Nova York", disse Simone Blanchard, líder do Programa de Justiça Econômica, do Catholic Relief Services (CRS), o braço de desenvolvimento dos bispos dos EUA no exterior.

Mais da metade dessas pessoas são mulheres e crianças.

O tráfico, que há muito foi considerado pelo papa Francisco como crime contra a humanidade e equivalente moderno da escravidão, é também uma indústria muito lucrativa. Gerando cerca de US$ 150 bilhões por ano, é a maior indústria do crime, seguida da indústria das drogas e do comércio ilícito de armas.

O CRS vem trabalhando nessa questão desde 2000 e realizou 145 projetos de combate ao tráfico nos cinco continentes. No entanto, o foco de grande parte de seus esforços foi a Índia, pois é nesse gigante asiático que ocorrem quase metade dos casos de tráfico de pessoas.

Isso não significa que essa indústria ilegal esteja presente apenas nos países em desenvolvimento. Em toda a Europa, e também nos Estados Unidos, homens e mulheres são traficados.

Algo que as pessoas não percebem, segundo ela, é que as vítimas do tráfico de pessoas estão "escondidas nas sombras". Estão em restaurantes, postos de gasolina, fazendas e hotéis.

Ela explicou que a diferença histórica entre "tráfico de pessoas" e "escravidão" mudou com o tempo. No início, era comum se referir a mulheres e meninas brancas que eram sequestradas para fazer parte de haréns no Oriente Médio, enquanto a escravidão era principalmente associada à compra e venda de homens e mulheres como propriedade, explorados e forçados a trabalhar em condições desumanas.

Em 2000, as Nações Unidas adotaram o Protocolo de Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, um dos três protocolos adicionais à Convenção contra o Crime Organizado Transnacional daquele ano, assinado em Palermo.

O documento define o tráfico humano como o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas" que tenham sido ameaçadas, forçadas, coagidas ou sequestradas "para fins de exploração".

A exploração, de acordo com o Protocolo de Palermo, inclui, "no mínimo", a prostituição forçada ou outras formas de exploração sexual, trabalho forçado, escravidão, servidão e remoção de órgãos.

Bottani quase lembrava essa definição técnica na íntegra. Para simplificar, ela diz o seguinte: "O que todos têm em comum é que estamos falando da exploração de outra pessoa para ganhos econômicos".

Comércio ético, papa Francisco e o que os católicos podem fazer

O comércio ético é a área em que Simone Blanchard é especialista, e ela acredita que há uma forma de os católicos nos Estados Unidos agirem para colocar sua fé em prática. Em conversa com o Crux, citou a exortação apostólica do papa Francisco Evangelii Gaudium, "Alegria do Evangelho".

Apesar de não usar o termo "comércio ético", o papa faz ressalvas contra levar um estilo de vida que exclui os outros, algo que afirma que levou ao desenvolvimento de uma "globalização da indiferença".

O trecho citado por ela diz: "A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que não nos incomoda de forma alguma."

E deveria nos comover, acredita.

Afinal, "você sabe de onde veio o ouro em seu crucifixo?" Em vários casos, explica, quem conseguiu o ouro foram crianças no Peru, forçadas a trabalhar nas minas.

Ela trabalha com paróquias, escolas, universidades e indivíduos, buscando incentivar os católicos a se juntarem para "pensar sobre essas questões de forma profunda, orar pelas pessoas que fazem o que consumimos e defender políticas que impeçam o tráfico de pessoas, como a Supply Chain Transparency Act, [a lei de transparência na cadeia de suprimentos,] que apoia as empresas que pagam um salário justo em um contexto local".

Ela reconhece que pesquisar para saber se as empresas estão comprometidas com o comércio justo é demorado, mas tem convicção de que é responsabilidade dos católicos. Há muitas empresas, argumentou, que apoiam os trabalhadores e o meio ambiente, se comprometem com a prevenção do tráfico de pessoas e investem nas comunidades em que estão localizadas. Não existe um sistema de certificação de comércio ético, mencionou, e nem um "movimento" nessa direção.

"É a ideia de que as empresas podem e devem contribuir para o bem comum com transparência e devem ser responsáveis por isso".

O CRS já fez parcerias com 20 empresas de todo o mundo, que sabe que estão tratando bem os trabalhadores, agindo para reduzir sua pegada de carbono e investindo nas comunidades de onde vêm seus produtos e materiais. Atualmente, estão trabalhando no "Holiday Ethical Gift Guide", que será lançado no final do ano.

O Papa Francisco falou abertamente sobre a luta contra o tráfico de pessoas.

Ele reuniu líderes religiosos de todas as principais religiões no Vaticano para assinar uma declaração conjunta de combate ao tráfico. Além disso, convocou prefeitos de algumas das cidades mais importantes do mundo, como Nova York, Paris, Roma e Madri, para fazer o mesmo e, no início do ano, organizou uma oficina com mais de 100 juízes do mundo todo para esclarecer o problema do tráfico de pessoas.

"O Papa Francisco nos dá força e abre caminhos para aqueles que trabalham nessa luta em favor da vida dentro e fora da Igreja", disse Bottani.

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