República dos Camarões. Padre alega que bispo foi morto por sua oposição a sacerdotes homossexuais

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07 Agosto 2017

Na missa de falecimento de um bispo dos Camarões, morto sob circunstâncias misteriosas em junho de 2017, ocorrida na última semana, um clérigo que assumiu como líder da diocese afirmou que os autores do assassinato estavam na igreja, "fingindo se importar", e que o bispo morreu por posicionar-se contra a presença de homossexuais no sacerdócio.

A reportagem é de Ngala Killian Chimtom, publicada por Crux, 05-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Desde que o corpo do bispo Jean Marie Benoit Bala, de Bafia, Camarões, foi encontrado em um rio da região, a cerca de 6,5km de onde seu carro havia sido abandonado, surgiram muitas questões a respeito de sua morte - foi suicídio, como alega a polícia, ou um "assassinato brutal", como insistem os bispos do país?

Se foi mesmo um assassinato, quem matou o prelado de 58 anos?

Em resposta, o atual líder apostólico da diocese de Bala, Monsenhor Joseph Akonga Essomba, respondeu de forma contundente na quinta-feira, durante uma homilia na missa de falecimento: o bispo foi morto, afirmou, porque se opôs à presença de homossexuais na Igreja e no sacerdócio.

Apontando para as primeiras fileiras da Igreja, onde estava a maioria dos ministros do governo e outras personalidades importantes, e percorrendo cada um dos demais sacerdotes e bispos com o olhar, Essomba acusou:

"Que vergonha de todas essas pessoas de roupa e óculos pretos, que se sentam sempre nas primeiras fileiras da Igreja", disse ele.
"Que vergonha de todos os sacerdotes que vieram aqui, fingindo se importar. São essas pessoas que mataram nosso bispo, porque ele disse "não" à homossexualidade perpetrada por esses sacerdotes", disse Akonga.

Ele disse que quem realmente matou o bispo foram os poderosos, mas que os sacerdotes homossexuais o traíram.

Akonga destacou o que os bispos do país têm dito o tempo todo - que, apesar de os relatórios forenses alegarem que a causa da morte foi afogamento, ele foi "brutalmente assassinado". Segundo ele, Bala era um exímio nadador e não teria morrido afogado. A "Igreja Católica foi atacada", afirmou.

Relembrou a linha de padres já assassinados no país, pelo menos 14, sem que ninguém tenha fornecido relatos satisfatórios sobre os casos.

Os católicos parecem concordar

"Eles [que assassinaram o bispo] estão na igreja e sabem que essa mensagem é para eles", disse Jean Pierre Fouman, leigo católico que mora em Bafia, em resposta à homilia de Akonga.

"São assassinos à espreita no escuro", acrescentou.

Enquanto o bispo Andrew Nkea, da diocese de Mamfé, na região sudoeste dos Camarões, disse que os verdadeiros motivos do assassinato só podem ser explicados pelos assassinos, o bispo George Nkuo, seu colega de Kumbo, na região noroeste, explicou de forma mais espiritual.

"Os mesmos motivos pelos quais Cristo foi crucificado aplicam-se ao assassinato do bispo", revelou ao Crux. "Ele foi morto porque defendia a verdade. Qualquer pastor, qualquer bispo, qualquer padre que defenda a verdade deve estar pronto para enfrentar a espada. É uma maneira linda de morrer.”

O bispo de Obala, Sosthéne Léopold Bayemi, disse que a morte de Bala fortaleceu sua fé em Cristo e trouxe a "certeza de que a rocha sobre a qual Cristo fundou sua Igreja sempre resistirá às forças do mal", disse ele ao Crux.

O sobrinho de Bala, Alexis Bala, contou ao Crux que o tio era o "pilar" da família e sua partida destruiu completamente seus sonhos.

"Rezamos para que Deus nos dê forças para passar pela dor", disse ele, e insistiu que "a justiça deve ser feita com os assassinos" de Bala.

O arcebispo de Douala e o presidente da Conferência Episcopal Nacional, arcebispo Samuel Kleda, fizeram um apelo fervoroso às autoridades para que "contem a verdade sobre a morte". É só o que pedimos. Precisamos saber quem o assassinou.

Kleda levantou a questão de haver obstrução da justiça, mas não explicou quem estaria fazendo isso.

"Denunciamos todas as forças obscuras que estão obstruindo a investigação", afirmou, afirmando que os juízes, peritos e advogados estão sob "grande pressão".

Tristeza que transborda

O país todo e as várias linhas confessionais transbordam em seu sentimento de luto pelo falecido bispo.

"Perdemos um grande pastor, que se doou para servir aos outros", disse Jean Paul Ahanda, residente da Bafia.

O Imã da Mesquita Central da Bafia, El Hadj Dang Amadou, disse ao Crux que "a comunidade religiosa perdeu um grande prelado e a comunidade muçulmana da Bafia perdeu um grande amigo".

Ele recordou de várias vezes em que o bispo reuniu todas as denominações para transmitir a mensagem de que os males da sociedade podem ser melhor resolvidos se todas as religiões entenderem que há mais unindo-as do que separando.

Bala desapareceu de sua residência na noite de 31 de maio. Seu carro foi encontrado estacionado na Ponte Sanaga, a poucos quilômetros de sua residência. Dentro do carro, juntamente com seus documentos, foi encontrada um bilhete supostamente escrito pelo bispo, dizendo: "Estou na água".

O corpo foi encontrado flutuando no rio por um pescador maliense perto de Monatele no dia 2 de junho, a cerca de 19,3 km da ponte.

O governo dos Camarões determinou que fossem realizadas investigações para determinar a causa da morte. Duas autópsias foram realizadas por médicos camaronenses, mas os resultados nunca foram divulgados.

Pelo contrário, recorreu-se a especialistas estrangeiros. Um diagnóstico forense encomendado pela Interpol e realizado pelo Professor Michael Tsokos, Diretor do Instituto de Medicina Forense de Berlim, na Alemanha, e pelo Doutor Mark Mulder, Coordenador da Unidade de Identificação de Vítimas de Desastres da Interpol, que chegou ao país em 29 de junho de 2017, concluiu que o bispo se afogou.

Os bispos, no entanto, vêm rejeitando o relatório, insistindo que têm evidências de que Bala foi "brutalmente assassinado".

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