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13 Junho 2017

"De que verdade e de que poder aqui se trata? A verdade diz respeito à produção que num dado percurso histórico se instaura na adoção de saber como verdadeiro. E o poder se refere ao modo de poder que impera socialmente, politicamente e governamentalmente. Para entender melhor, basta que se exemplifique que a verdade, de algumas décadas atrás, tanto no que diz respeito a regime governamental quanto ao que se pratica na vida cotidiana não é a mesma de hoje. Isso significa uma mudança de concepção e de mentalidade ao menos de forma geral que indica para onde apontam esses dois elementos", escreve Felipe Augusto Ferreira Feijão, estudante de Filosofia na Universidade Federal do Ceará - UFC. 

Eis o artigo.

O jovem francês estudante de direito Étienne de La Boétie (1530-1563) provavelmente antes de completar 18 anos, escreveu seu Discurso da servidão voluntária, obra publicada postumamente. Importa saber que o pensamento de La Boétie emerge num contexto de reinados e de súditos, de poderio absurdo e de obediência cega e que seu discurso vai de encontro direito ao questionamento do poder soberano.

É na cena da Europa do século XVI que desbravava os mares nas navegações e aportava em novos territórios, terras sem rei nem lei, que desponta a ideia de que uma outra situação é possível. Que outra situação é essa? Quando os europeus entram em contato com os povos ameríndios, habitantes originais das Américas devem ter observado dentre as mais diversas diferenças possíveis, que não eram governados e dominados por um ou por um grupo detentor de poder.

Nesse sentido, La Boétie que vive em realidade distinta, concebe que é possível algo diferente do que é estabelecido e tido como verdade, ou seja, o sistema monárquico no qual tantas nações e povos viviam. Séculos mais tarde, o filósofo também francês Michel Foucault, irá refletir que a prática social é o que constitui com sua institucionalização legal a verdade. Com efeito, verdade e poder caminham juntos e de mãos dadas, uma vez que é o poder de legitima a verdade e é a verdade que torna próspero o terreno para o cultivo do poder.

De que verdade e de que poder aqui se trata? A verdade diz respeito à produção que num dado percurso histórico se instaura na adoção de saber como verdadeiro. E o poder se refere ao modo de poder que impera socialmente, politicamente e governamentalmente. Para entender melhor, basta que se exemplifique que a verdade, de algumas décadas atrás, tanto no que diz respeito a regime governamental quanto ao que se pratica na vida cotidiana não é a mesma de hoje. Isso significa uma mudança de concepção e de mentalidade ao menos de forma geral que indica para onde apontam esses dois elementos.

Uma inquietação fundamental que abre o Discurso de La Boétie é a seguinte: “Como é possível que tantos homens, tantas cidades, tantas nações às vezes suportem tudo de um Tirano só, que tem apenas o poder que lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto aceitam suportá-lo”. Em seguida ele se admira do fato de “ver milhões e milhões de homens miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jugo deplorável; não que a ele sejam obrigados por força maior, mas porque são fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados apenas pelo nome de um que não deveriam temer, pois ele é só, nem amar, pois é desumano e cruel para com todos eles”.

Atualizando essa afirmação: como é possível um povo entregue a um ou a uns grupos de poder que possuem próprios interesses, continuar numa passividade gritante? Felizmente, La Boétie propõe uma pretensa emancipação que se dá na atitude de não se curvar diante do poder, não estar a serviço, não bajular, pois a justificativa cerne se encontra na colocação de que o homem é um ser para a liberdade.

Infelizmente, tais inquietudes parecem que não foram escritas somente para o mundo de mais de quinhentos anos atrás. Também é bastante aplicável para as realidades que se apresentam hoje. Atemporal e atual, o vigor explícito do jovem La Boétie precisa continuar a ecoar e consequentemente a suscitar em outros a indignação necessária que entende e questiona o que se põe como soberano e como poderoso, afinal parece que é os que são submergidos pelo poder e pela verdade que depositam nas mãos dos que reinam e imperam força para tal.

O caráter clandestino e até mesmo subversivo do Discurso, às vezes se torna imprescindível para que estrategicamente uma palavra sobreviva à circulação que ocorre na margem do poder.

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