A atenção, condição necessária para a oração, segundo Simone Weil

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09 Junho 2017

Estamos em 1940, a França está parcialmente ocupada pelos nazistas e a intelectual judia francesa Simone Weil, uma das vozes mais originais do século XX, depois de muita hesitação deixa Paris e, junto com seus pais, muda-se primeiro para Vichy, depois para Toulouse, e, finalmente, em setembro, para Marselha, onde espera seja mais fácil embarcar em um navio para alcançar os homens da France libre, o movimento de resistência organizado por Charles de Gaulle na Inglaterra. O seu projeto logo se revela de difícil realização e, forçada a permanecer por mais tempo na cidade mediterrânea, tece novas relações culturais e de amizade, reata laços com velhos conhecidos e emprega-se como trabalhadora no campo. Essa parada forçada, embora a impeça de realizar prontamente seu projeto político, não é infrutífera. Em Marselha, entre 1940 e 1941, a jovem filósofa irá viver um dos períodos espiritualmente mais fecundos de sua vida.

O comentário é de Isabella Adinolfi, publicado por L'Osservatore Romano, 01-06-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Remonta a esse período, além da elaboração dos Cahiers de Marselha e textos sobre a tradição grega que contribuirão para A Fonte Grega, a composição de alguns ensaios sobre o amor de Deus que representam autênticas jóias de meditação cristã. Entre esses, dois fazem uma reflexão sobre o sentido da oração: Sobre o Pater e Reflexões sobre o bom uso dos textos escolares, como meio de cultivar o amor de Deus (em Espera de Deus).

Antes de sua chegada a Marselha, Simone Weil nunca havia rezado. Claro, já havia acontecido a experiência de Assis, em 1937, em que pela primeira vez em sua vida algo mais forte do que ela a havia forçado a se ajoelhar enquanto se encontrava em Santa Maria degli Angeli, na capela Porciúncula, e depois, aquela de Solesmes, durante a Páscoa de 1938, com um inesperado encontro com o Cristo, de pessoa para pessoa, enquanto recitava a poesia de George Herbert, Love. Mas nunca antes de então - confidencia a Joseph-Marie Perrin, o jovem padre dominicano que conheceu em Marselha e com quem mantém uma intensa troca de cartas durante esse período - tinha lhe acontecido de rezar, no sentido literal do termo. E nunca havia dirigido palavras a Deus, nunca havia rezado uma oração litúrgica. O que teria acontecido, então? O que a levara a orar?

Enquanto trabalhava na fazenda de Gustave Thibon, o filósofo-fazendeiro que a tinha contratado a conselho de Perrin para ensinar-lhe um pouco de grego, Simone decide usar o texto do Pater. Foi então que a doçura infinita daquele texto grego conquistou-a, de tal forma que durante alguns dias não pode deixar de repeti-lo ininterruptamente para si mesma, e quando mais tarde começou a colheita da uva, todos os dias antes de começar o trabalho, recitava o Pater em grego, e o repetia muitas vezes na vinha. A partir de então, ela decidiu recitá-lo todas as manhãs com atenção absoluta. "Se, enquanto recito - confidencia ao padre dominicano de quem se tornou amiga – a minha atenção vagueia ou entorpece, mesmo que minimamente, recomeço tudo de novo, até alcançar pelo menos uma vez a pura atenção absoluta”.

É fácil intuir a partir dessa citação o quanto o conceito de "atenção" seja importante para compreender a concepção weiliana da oração. De fato, rezar para a pensadora judia francesa significa exatamente direcionar a Deus toda a atenção de que a alma é capaz, como podemos ler no belo ensaio escrito para os estudantes católicos de Montpellier, Reflexões sobre o bom uso dos textos escolares, como meio de cultivar o amor de Deus. Nesse sentido, a atenção aplicada aos estudos escolares é uma preparação e uma educação para aquela atenção mais elevada e intensa que a prática da oração exige.

Mas, se para Weil oração é feita de atenção, se tal é sua substância, então rezar mecanicamente, sem prestar atenção às palavras pronunciadas mentalmente ou em voz alta, significa não orar, ou pelo menos não orar de verdade. O que é então a atenção e como se desenvolve? Como é possível tornar-se atento? Como podemos nos educar à atenção e à concentração?

Para Simone Weil a atenção não é um ato de vontade, não é um esforço muscular. Em sua experiência de ensino, percebeu que quando pedia aos alunos para prestarem atenção, via-os franzir a testa, segurar a respiração, contrair os músculos, mas logo em seguida lhes perguntava no que estavam prestando atenção e eles não conseguiam responder. Na verdade, não haviam prestado atenção, haviam apenas contraído os músculos.

No entanto, a atenção para Weil não é nem mesmo uma qualidade inata ou algo que acontece sem o nosso consentimento: ela pressupõe um trabalho, envolve um esforço, talvez maior do que qualquer outro, mas se trata de um esforço negativo. Para observar com atenção uma bela pintura, escutar um trecho musical ou, com mais razão, rezar a Deus, é necessário liberar a mente das preocupações, pensamentos, desejos pessoais, deixar um vazio dentro de si mesmo. A atenção é espera e, como a espera, pressupõe a supressão de qualquer outra ocupação e qualquer outra finalidade, para que a pessoa como um todo permaneça focada no que acontece. Para prestar atenção, portanto, é preciso o trabalho e o esforço com o qual se silenciam a vontade e o eu, para que possam estar à disposição para o acolhimento e o preenchimento por outras coisas.

Como a espera, a atenção é, portanto, uma ação não agente, uma atividade passiva. É o ato com o qual o eu afasta-se de si e volta para si, como um ciclo: "A atenção - lemos no ensaio acima mencionado - é o afastar-se de si e voltar para si mesmo, da mesma forma que o inspirar e expirar".

Mas, se para conhecer a verdade é preciso prestar atenção, para estar atento é preciso desejar a verdade. Apenas um desejo bem orientado faz com que sejamos capazes de atenção nos estudos, apenas um autêntico amor pela verdade e por Deus nos torna capazes de acolhê-los na reflexão e na oração. Simone Weil, aluna do filósofo kantiano Émile-Auguste Chartier (conhecido como Alain), está convencida de que o desejo bem orientado é aquele que deseja a verdade apenas pela verdade, o bem apenas pelo bem. Qualquer outra motivação que perturbe a atenção da nossa disposição para a verdade e para Deus vai degradá-la, contaminá-la e despotencializá-la.

Um estudante que se aplicar com empenho nos estudos a fim de obter boas notas nos exames, talvez até tenha sucesso, mas jamais conhecerá a pura verdade. Seu desejo não é suficientemente íntegro porque não é movido por um pensamento desinteressado, por aquela "probidade intelectual" que sozinha, purificando-o, direcioná-lo-ia à verdade. Da mesma forma, não se deve orar a Deus, o Pai nosso que está nos céus, para pedir-lhe algo - mesmo que seja algo nobre e elevado - que a nossa vontade assuma como propósito. Como afirma a oração que Jesus nos ensinou, comentada linha por linha pela filósofa em A propósito do Pater, é preciso orar a Deus para que seja feita a sua vontade, seja qual for.

Para Simone Weil, a oração implica, portanto, uma disposição interior preventiva, uma preparação para o contato com Deus. A atitude desinteressada, que Simone Weil prefere chamar de "impessoal", é a única que traz a disposição para a atenção e abre-se para o conhecimento da verdade. Melhor, nos permite estarmos prontos para recebê-la.

Em Weil sempre há uma profunda desconfiança em relação ao eu e tudo o que concerne a esfera pessoal, que ela considera sempre maculada pelo egoísmo. Rezar, em última análise, significa para ela arrancar o próprio desejo e o próprio pensamento da gaiola do eu para orientá-los a Deus. O êxito da oração assim concebida é que nos assimilemos a Deus, nos tornemos perfeitos como o nosso Pai que está nos céus, para amar o mundo como ele o ama, de forma imparcial. Os versículos do Evangelho que Weil comenta repetidamente em sua obra e parece ter sempre presentes em sua reflexão religiosa são aqueles que dizem: "Sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mt, 5, 45).

Mas se nos tornarmos seus filhos em oração, similares a ele no amor, na imitação da indiscriminada distribuição das chuvas e da luz do sol, tal filiação e assimilação não são, no entanto, uma conquista do homem. Para Simone Weil é Deus que nos eleva e torna seus filhos. Se, portanto, o desejo voltado para Deus é a única força capaz de elevar a alma, a esse desejo responde a ação de Deus que vem para tomar a alma e elevá-la. "Ele vem - anota a escritora - apenas para aqueles que lhe pedem para vir; para aqueles que lhe pedem isso muitas vezes, por muito tempo, com ardor". E insiste: "Deus não pode se eximir do descer sobre eles".

Deus, para Simone Weil, não é, dessa forma, só o destino impessoal dos estóicos, não é necessidade, embora seja um dos seus rostos, mas um Deus que ama, que ouve as orações sinceras dos homens, que aguarda na porta de suas almas, pronto para entrar assim que receber o consentimento.

É o Deus amor do Evangelho, dos místicos que se faz presente para aqueles que o amam e invocam na oração, pura e desinteressada, como aconteceu com Simone durante a oração do Pater. "Às vezes – conta a Perrin - já as primeiras palavras arrancam o meu pensamento do meu corpo para transportá-lo para um lugar fora do espaço, onde não há nem perspectiva nem pontos de vista. O espaço é aberto. À infinidade do espaço ordinário da percepção substitui-se outra infinidade, elevada à segunda ou, até mesmo, à terceira potência. Ao mesmo tempo, esta infinidade de infinidade preenche-se de lado a lado de silêncio, um silêncio que não é a ausência de som, mas o objeto de uma sensação positiva, mais positiva do que a de um som. Os ruídos, caso tenha algum, só chegam a mim depois de atravessar esse silêncio. E, às vezes, durante essas recitações ou em outros momentos, Cristo está presente em pessoa, mas com uma presença infinitamente mais real, mais tocante, mais nítida e repleta de amor do que aquela que vivenciei da primeira vez que ele me tomou”.

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