Fazendo o bem e indo bem: investimentos religiosos convertem os céticos

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06 Junho 2017

O investimento ético não precisa ser fantasia, de acordo com o Fórum de Faith Consistent Investing, que discutiu investimentos alinhados com a crença religiosa na sede do Bank of America. O fórum reuniu profissionais da área de finanças em busca de aprendizado e membros de organizações religiosas encarregadas de implementar uma carteira de investimentos que reflita a religião ou os valores da organização.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Crux, 02-06-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A Irmã Patricia Daly é uma freira dominicana que vem pressionando as empresas a serem socialmente responsáveis há tanto tempo que ela tem uma série de grandes histórias com executivos resistentes e de insistência em resoluções religiosas em reuniões com investidores.

Mas uma de suas histórias favoritas aconteceu há apenas alguns anos, quando ela estava em uma conferência sobre tráfico de pessoas e um dos diretores da empresa General Electric discursou na reunião:

"Por muitos anos, se alguém da General Electric visse a Irmã Pat nas ruas de Nova York, cruzaria a rua para não passar por ela", lembrou o executivo da GE. "Hoje, eu sabia que ela estaria aqui e a procurei no café da manhã".

Essa história, disse Daly - agora diretora emérita da Coligação Tri-Estadual pelo Investimento Responsável do estado de Nova Jersey -, indica a mudança nas relações entre o mundo corporativo e grupos religiosos como o dela, que na década de 1970 liderou o movimento em prol de investimentos socialmente responsáveis.

"Hoje, temos uma excelente relação de trabalho e acho que podemos dizer isso sobre a maioria das empresas", disse Daly. "Somos confiáveis."

O fato de que as empresas não estão simplesmente tolerando ativistas como Daly é de fundamental importância para o sucesso do movimento.

Em vez disso, eles veem as pautas de responsabilidade social cada vez mais como um bom negócio; e, talvez ainda mais importante, o mesmo vem acontecendo com as empresas de investimentos, que estão respondendo à crescente demanda por carteiras que reflitam os valores do cliente sem deixar de ganhar dinheiro de forma tão eficaz quanto em qualquer outro investimento.

É por isso que Daly relatou sua história em uma sala de conferência na sede do Bank of America, no centro de Manhattan, em uma reunião de dois dias organizada recentemente pelo setor de gestão de patrimônio do gigantesco banco Merrill Lynch.

O objetivo do Fórum era reunir "profissionais" da área - membros de organizações religiosas encarregadas de implementar um portfólio de investimentos que refletisse a fé ou valores de uma organização - assim como profissionais do setor de finanças que quisessem aprender mais sobre o setor de investimentos socialmente responsáveis, que cresce cada vez mais.

Dentre os 60 participantes estavam a Coligação Tri-Estadual de Daly, a maior organização católica de orientação para investimentos em fabricantes de certos produtos e não de outros, bem como o Centro Inter-religioso de Responsabilidade Corporativa (ICCR, do inglês Interfaith Center on Corporate Responsibility).

O ICCR é considerado por muitos como a pedra fundamental de um movimento que começou na década de 60 em resposta à crescente revolta contra empresas que lucravam muito em cima de tabaco, fórmulas para bebês comercializadas para mães pobres dos países em desenvolvimento ou o desfolhante Agent Orange, muito utilizado no Vietnã.

O apartheid era uma causa central de mobilização naquela época, e uma resolução de investimento em nome da Igreja Episcopal, em 1971, pedindo à General Motors para abandonar a África do Sul devido ao sistema de segregação racial é considerada o nascimento do ICCR e do movimento de investimentos religiosos ou socialmente responsáveis.

Hoje, o movimento ampliou-se significativamente e as questões mudaram: agora as mudanças climáticas, o tráfico de mão de obra, a sustentabilidade, as armas, a igualdade de gênero e a diversidade racial são as principais questões e esta geração tem ainda mais consciência de como o mundo funciona.

"Os jovens hoje entendem as cadeias produtivas", disse Daly ao RNS.

E também entendem que por mais que os pedidos de boicote e desinvestimentos possam gerar manchetes e agitar as emoções públicas, o "jogo interno" de colocar o dinheiro do investimento em lugares que reflitam os valores de uma organização pode dar mais impulso à mudança do que os hábitos de consumo - onde e quais produtos comprar ou não.

"O público está buscando alavancagem em algum lugar", disse o Reverendo Seamus Finn, padre católico presidente do ICCR, durante um painel sobre controle de investimentos. "Eu acho que eles desistiram da classe política no momento".

O mundo dos negócios, porém, continua respondendo às marés baixas e altas de capital.

É por isso que os grupos e as organizações religiosas são cuidadosos quanto a onde e como investir bilhões de dólares em fundos de pensão e outras reservas disponíveis e usam esses fundos para tentar influenciar os negócios.

Na verdade, muitas grandes empresas de investimento têm escritórios que podem atender aos desejos de clientes comprometidos com questões religiosas. Ao mesmo tempo, investidores seculares estão cada vez mais preocupados em combinar suas carteiras com seus valores - valores que muitas vezes se sobrepõem aos de investidores religiosos, dando maior importância ao movimento de investimento socialmente responsável.

Na verdade, essa dinâmica mantém o destaque de questões como a mudança climática e o tráfico de pessoas na pauta da indústria corporativa e financeira, "mesmo que Washington pareça estar adormecido por um tempo", como disse Finn, referindo-se ao recuo esperado para essas questões no governo Trump.

"Ao fazermos as coisas direito, é possível mudar as políticas mais do que a própria política", concordou Steve Samuels, diretor do Merrill Lynch, que dividiu o palco com Finn.

James Ryan, consultor de investimentos de longa data do Merrill Lynch, que vem há anos oferecendo opções de investimento religioso para instituições e clientes católicos, organizou o Fórum e delineou as três principais abordagens à questão:

1. Triagem de "ações do pecado": Esta abordagem identifica as empresas que produzem bens e serviços - como tabaco ou abortivos - considerados questionáveis por um investidor. A triagem continua sendo uma maneira simples e popular de investir com uma consciência limpa e é a principal abordagem para muitas casas de investimento religioso que começaram a permitir que protestantes evangélicos, luteranos, católicos romanos e outros crentes colocassem seu dinheiro onde estão seus valores nas últimas décadas. Alguns também chamam de "investimento biblicamente responsável".

2. Apoio dos acionistas: Esta é a estratégia que originou o movimento - usar a alavancagem como acionista para tentar mudar as políticas de uma determinada empresa a partir de dentro.

3. Investimento de impacto: Esta é a abordagem mais recente e constitui basicamente em investir em empresas ou vínculos cujas ações estejam de acordo com os valores dos grupos - como a produção de energia solar ou concessão de benefícios de saúde de qualidade para funcionários - para que essas empresas floresçam e tenham um efeito cascata na sociedade e no mundo dos negócios atento aos modelos de sucesso.

Muitas vezes é associado ao protocolo ESG (da sigla em inglês environmental, social, governance), que significa "ambiental, social e de governança", as três principais áreas para investidores socialmente conscientes.

"Eliminam-se os bandidos, tenta-se influenciar positivamente as suas empresas e depois buscam-se oportunidades de investimento", explicou Ryan.

Esta é uma nova dinâmica e um modelo em desenvolvimento, que tanto as empresas quanto os grupos religiosos ainda estão tentando entender. Os relatórios dizem que o investimento de impacto atraiu mais de US$ 40 bilhões em investimentos de fundos de pensão, doações e carteiras privadas, embora ainda esteja bem abaixo das projeções iniciais, que eram muito mais otimistas para esse setor alguns anos atrás.

Mas as linhas de tendência parecem claras: "O mundo está correndo para lá", disse Andrew Sieg, diretor da Gestão de Fortunas do Merrill Lynch para o Bank of America, na reunião. "Não é loucura dizer que este é um momento transformador para o intermédio do capital", acrescentou.

Sieg – destacado pelo colunista David Brooks, do New York Times, em 2015, pela questão do investimento de impacto - observou que a mudança foi impulsionada não por investidores institucionais, mas pela mudança de costumes.

"A geração dos baby boomers vê o mundo de uma maneira muito diferente da geração da Segunda Guerra Mundial, e mais ainda dos Millennials", disse ele. A geração mais jovem de investidores e consumidores "não vê mais suas carteiras no vácuo, separadas de seus valores e do mundo em que vivem", disse ele.

Um exemplo disso é o neto do guru do investimento, Warren Buffett, que há dois anos lançou uma empresa para "investir em empresas em fase inicial e subvalorizadas que estejam trabalhando em questões como energia limpa, agricultura sustentável e falta de água", publicou o jornal The New York Times.

"Estou procurando esse ponto ideal", disse Howard Buffett. "Como melhoramos a sociedade através desses investimentos? Como podemos ser criativos com o capital para abordar algumas das maiores necessidades humanas? "

Mas muitos desafios permanecem. Enquanto algumas organizações que se dedicam a investimentos socialmente responsáveis têm atraído cada vez mais clientes, as instituições financeiras tradicionais ainda estão atrasadas.

"A sabedoria convencional é que o investimento de impacto não é um investimento real", disse Sieg. Quando muitos consultores de investimentos recebem de seus clientes pedidos de alternativas de investimento socialmente responsável, "seu primeiro instinto - sendo muito sincero - é tapar os ouvidos e fingir que nada aconteceu, porque é totalmente diferente de como eles se acostumaram a pensar em toda a sua carreira. Isso não é mais possível para nós."

Como Sieg e outros observaram, o investimento de impacto e os investimentos socialmente responsáveis estão provando serem tão lucrativos quanto outros tipos de investimento.

"A ideia de que a carteira seria afetada se fosse socialmente responsável já morreu há 20 anos", disse Daly. "Todas as faculdades de administração nos mostraram através de evidências que as empresas que operaram com algum foco em sustentabilidade superaram as outras."

Mas ainda é difícil convencer a todos - mesmo dentro das comunidades religiosas - de que seja possível se dar bem enquanto faz o bem.

Meredith Jenkins foi contratada há dois anos como diretora de investimentos da Trinity Wall Street, uma paróquia episcopal no centro de Manhattan, com cerca de US$ 5 bilhões em propriedades imobiliárias e ações.

Mas ela disse que até mesmo o comitê de sacristia que supervisiona as finanças da paróquia tem "sérias questões sobre se a forma como se investe deve ser dominada pelos valores religiosos ou pelo retorno financeiro".

Jenkins afirmou, durante o fórum no Bank of America, que estava tentando convencer o comitê da sacristia a ter uma "visão mais holística" de como investir e ver a "integridade" em seus investimentos como um valor fundamental.

Do mesmo modo, as dioceses católicas e as universidades tendem a fazer o mínimo em termos de investimentos, geralmente optando pela triagem de empresas ofensora ao invés de tomar um papel ativo na tentativa de usar os bilhões de dólares em pensões e outros fundos de investimento para tentar afetar as empresas ou pressionar o mercado em uma determinada direção.

Finn disse que também há esforços para tentar tornar esse movimento mais amplo e profundo, integrando outras comunidades religiosas.

O movimento de investimentos religiosos continua sendo liderado por Igrejas e grupos cristãos, embora haja alguns grupos judeus e até uma organização budista. Uma conferência internacional na Suíça neste outono, patrocinada pela Aliança de Religiões e Conservação, buscará trazer uma gama maior de religiões para trabalhar em conjunto pela causa.

Mas, como observou Finn, tradições religiosas como o Islã muitas vezes não têm uma única autoridade ou conjunto de diretrizes para guiar essas questões.

Então qual é o papel dos ativistas e das empresas de investimentos religiosos? Como disse Daly, "abrimos as portas para muitas vozes diferentes".

Mas mesmo que as empresas de investimento privadas com fins lucrativos se esforcem para investir com responsabilidade social e o investimento ético torne-se uma prioridade para as gerações mais jovens e menos ligadas à vida religiosa, os grupos religiosos podem continuar orientando e prestando serviços aos investidores, identificando suas preocupações.

Finn afirmou que eles também podem ser muito importantes na conexão das indústrias financeiras do Ocidente com os países em desenvolvimento que têm um pé atrás com gigantes econômicos como os EUA, mesmo deparando-se com os cortes inestimáveis do país às contribuições com o desenvolvimento de suas regiões.

Alguém precisa fazê-los entender que as finanças privadas podem investir com sucesso em lugares que precisam de infraestrutura básica, agora mais do que nunca, disse Finn- e esse investimento continua sendo uma boa jogada mesmo que os retornos não sejam tão óbvios e imediatos.

"De onde virá o capital que vai construir estradas ou escolas e dar acesso a necessidades básicas?" disse Finn na conferência. "Acredito que é um lugar em que os grupos religiosos podem continuar pressionando para encontrar novas abordagens."

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