A dignidade da criança no mundo digital. Entrevista com Hans Zollner

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02 Junho 2017

As crianças representam um quarto dos 3,2 bilhões de usuários da internet em todo o mundo. Essa geração de mais de 800 milhões de jovens usuários é vulnerável a formas inteiramente novas de prejuízo e abuso como trolling, cyberbullying, sextortion e a exploração sexual.

Por isso, de 3 a 6 de outubro deste ano, o Centro para a Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana vai realizar o congresso internacional “A dignidade da criança no mundo digital”. A ideia é discutir os riscos e os desafios da era digital e o seu impacto sobre a dignidade das crianças.

Sobre isso, conversamos com o diretor do centro, o padre jesuíta Hans Zollner.

A reportagem foi publicada por Rome Reports, 31-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Como nasceu a ideia desse congresso internacional?

A ideia desse congresso nasceu de uma iniciativa da Pontifícia Universidade Gregoriana e do seu Centro para a Proteção dos Menores, o Centre for Child Protection, porque nos perguntamos sobre como podemos abordar o tema do abuso dos jovens neste mundo digital, através da internet, e do abuso por parte dos jovens desse instrumento, que pode ser muito precioso, mas também traz muitos riscos: por exemplo, tudo o que está ligado com a difusão da pornografia infantil, das imagens e vídeos que mostram atos sexuais ou imagens de jovens que se expõem ou são até mesmo constrangidos a se expor e a ser violentados.

Como é possível enfrentar e combater esse lado obscuro do mundo da internet?

Atualmente, estamos realmente em uma situação de discussão e de pesquisa para encontrar um ponto de convergência das iniciativas. Esse congresso é algo novo, de algum modo: há muitos outros congressos que tratam desse tema, mas o nosso congresso é a tentativa de falar juntos, discutir juntos e também planejar juntos o que pode ser feito entre diversos setores da sociedade que se interessam por esse campo. Dentre outras coisas, as forças da ordem, a polícia dos vários países, as empresas, ou seja, as companhias que oferecem serviços online e as mídias sociais, através das quais, muitas vezes, são difundidas coisas muito ruins.

Depois, o mundo governamental, o mundo político, as organizações não governamentais, ou seja, aqueles que, há muito tempo, se empenham na luta pela justiça e pelos direitos das crianças. Além disso, o mundo da ciência, isto é, pessoas que, há muito tempo, trabalham tanto sobre os perfis dos abusadores, quanto sobre as possibilidades de proteger melhor as crianças e os adolescentes. E depois, por fim, a Igreja, que quer se envolver, que quer dar um sinal de que está real e seriamente comprometida com a proteção dos menores.

Ao trabalharem todas juntas, o que as pessoas desses diversos campos podem fazer para frear essas dinâmicas negativas? Vocês já pensaram em soluções?

A questão é que nenhum desses setores tem uma resposta para esse grave problema que incumbe cada vez mais. Por exemplo, em um único país como a Índia, nos próximos dois anos, mais de 500 milhões de pessoas estarão online, das quais a metade tem menos de 18 anos. Portanto, o problema da proteção, da educação ao uso apropriado desses instrumentos cresce cada vez mais. Nenhum desses setores tem uma resposta, e, por isso, na segunda parte dos dias do congresso, depois das conferências dos especialistas, queremos fazer grupos de trabalho em que se possa falar e se possa desenvolver ideias. Porque, neste momento, ninguém tem uma resposta, por exemplo, ninguém tem uma ideia precisa de como os governos podem trabalhar juntos.

E, além dos governos, é preciso encontrar estruturas supranacionais, porque, atualmente, é muito fácil escapar das leis nacionais. Se alguém quer se esconder no uso de imagens ou de vídeos pornográficos, pode fazer isso facilmente, ou através de servidores que estão em uma parte do mundo onde as leis não são tão restritas, ou naquela que é chamada de dark net, que é o nível “subterrâneo” da internet “normal” que todos usamos, onde existem outras regras, onde não há nenhuma influência – ou muito pouca – do controle da polícia ou mesmo dos governos.

Mas a situação é realmente tão grave e difícil de tratar?

Nas minhas conversas com representantes dos governos, dos ministérios, até mesmo da polícia – por exemplo, na Itália, na Austrália e em outras partes do mundo onde eu pude falar com os agentes da ciberpolícia, isto é, aqueles que tentam identificar as pessoas que disseminam imagens nocivas – eu vi que eles estão sobrecarregados pela própria quantidade de material e por fenômenos cada vez mais horríveis. Por exemplo, sabemos que o sexting, ou seja, enviar imagens de si mesmos ou de outras pessoas por parte de jovens – nuas ou em atos sexuais – está em contínuo crescimento; cada vez mais, milhões e milhões de jovens enviam imagens via mídias sociais, e, depois, aqueles que enviam esse tipo de imagens são de idade cada vez mais jovem.

Outro fato muito perigoso é aquele que se chama de sextortion, isto é, quando um ex-namorado ou uma ex-namorada enviam posts, imagens da outra pessoa por vingança, por exemplo, ou para atingir, para ferir. Fenômenos ainda mais graves são aqueles da violência sexual comprada em uma parte do mundo e executada em outro país, como, por exemplo, nas Filipinas ou na África, onde meninas são compradas, e se vê um estupro online de uma dessas meninas, enquanto aquele que pagou está em uma parte totalmente diferente do mundo. Aqui, é evidente que é necessária uma colaboração dos governos e das forças da ordem, porque uma única nação não pode vigiar tudo isso.

Quais são os parceiros que estão envolvidos na organização desse congresso?

O primeiro parceiro com quem trabalhamos é a organização WeProtect, que é uma iniciativa do governo britânico, e a fundadora dessa iniciativa, a baronesa Joanna Shields, faz parte da comissão organizadora do nosso congresso: ela é a vice-ministra responsável pela internet no governo britânico. Depois, temos uma organização muito conhecida na Itália, o “Telefono Azzuro”, com o seu fundador-presidente, o Prof. Caffo, de Modena, membro também ele da comissão organizadora. E conseguimos envolver também outras instituições e organizações que querem trabalhar conosco.

Mas que experiência e competência a Universidade Gregoriana amadureceu para sediar um congresso desse tipo?

A nossa universidade, a Gregoriana, com o seu Centre for Child Protection, está empenhada há mais de cinco anos para tentar fazer o que devemos fazer como Igreja nesse campo. De fato, na Igreja, vivemos e estamos vivendo em muitas partes do mundo aquela que o Papa Bento chamou de “uma chaga no corpo da Igreja”, ou seja, os abusos sexuais de menores por parte dos sacerdotes. Por isso, empenhamo-nos para desenvolver sistematicamente programas de formação e de estudo contra os abusos, colaborando, dentre outras coisas, também com alguns governos e muitos interlocutores no mundo científico e no mundo eclesiástico.

Hoje, atuamos em cerca de 30 países, com cerca de 50 parceiros, que são universidades, católicas ou não, seminários, faculdades de diversos tipos, centros de formação continuada aos quais oferecemos um programa de aprendizagem sobre o que é o abuso, como se pode reconhecer quando uma criança é abusada, como se deve, depois, dialogar com essa vítima, o que se deve fazer com um abusador, quais são as leis da Igreja e do Estado em que se vive… E justamente isso nos deu a oportunidade de lançar uma iniciativa mundial que, agora, deve enfrentar também esse novo campo, isto é, o do abuso que ocorre através da internet.

Queremos dar um sinal de que a Igreja se compromete no que diz respeito ao seu âmbito, mas também além dele, e quer oferecer uma possibilidade de discutir, de dialogar, de criar uma plataforma com esse congresso, mas também com tudo o que se seguirá a partir dele. De fato, queremos também envolver mais o mundo científico com um “call for papers”, isto é, um convite que dirigiremos aos cientistas – os mais qualificados e competentes possíveis – para que contribuam com as suas pesquisas, com os seus instrumentos, para fazer o que é possível para evitar o abuso.

Há países e instituições que apoiam efetivamente a iniciativa do congresso como parceiros?

Temos contatos com autoridades do governo britânico, alemão e italiano, e também de outros países. Estamos em contato com o mundo europeu e com organizações como a Interpol, que operam praticamente em nível mundial. Os participantes serão cerca de 100, além de conferencistas que estão entre os melhores especialistas em cada uma das áreas que mencionei – em torno de 150 pessoas no total – que poderão expressar, no fim, um texto, uma declaração “sobre a dignidade do menor no mundo digital”, que será apresentada ao papa: o Papa Francisco aceitou conceder uma audiência no dia 6 de outubro ao meio-dia, em que lhe será apresentada, precisamente, essa declaração em nome dos participantes do congresso, que se comprometerão a fazer o possível pela proteção dos menores.

Como foi transmitida a ideia do congresso ao Papa Francisco?

Fomos ao encontro do papa, pouco antes do Natal, com uma representação da comissão organizadora para apresentar o plano e pedimos essa audiência para o congresso. Ele ouviu bem a motivação e imediatamente disse que estava disponível, porque isso se insere coerentemente na sua luta contra o abuso dos mais vulneráveis, dos menores, das pessoas que estão mais em risco. É uma luta que engloba tudo aquilo que foi feito nos últimos quatro anos com a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, com todas as medidas que ele quis implementar nesse tempo do seu pontificado e também com aquilo que nós, do Centro para a Proteção dos Menores da Gregoriana, pudemos fazer com o seu apoio pessoal.

Você acha que esse congresso poderá dar respostas rápidas?

Certamente haverá, e agora já há, respostas, no sentido de que apenas o fato de falar desse tema, apenas o fato de refletir já leva a ações concretas. Por exemplo, com alguns dos nossos parceiros, também tecnológicos – ou seja, os provedores de internet ou aqueles que oferecem as plataformas de mídia social conhecidas, como Facebook, Twitter e outros –, já agora, apresentamos as nossas questões no que diz respeito a essa temática, para que eles sejam corresponsáveis por monitorar o material que é transmitido, para que reflitam sobre como garantir que os jovens estejam mais seguros e como eles podem – e também devem – contribuir para a educação desses jovens com os instrumentos oferecidos online, e de uma forma mais interativa com os agentes principais dessa educação, isto é, as famílias, as escolas, as atividades dos jovens e, finalmente, também os governos.

Depois, certamente haverá também um trabalho de longo prazo, porque não são problemas que serão resolvidos em pouco tempo, simplesmente com um congresso. Em vez disso, como se observou antes, é impressionante e muito urgente a necessidade de oferecer também ao setor público, também aos governos, algum tipo de orientação. A declaração final do congresso, que será apresentada ao Papa Francisco, significará justamente o empenho comum nessa direção.

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