República Centro Africana. “Estou na igreja com os muçulmanos. Ajudem-me a protegê-los”, apela bispo

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01 Junho 2017

"Há 800 homens armados do lado de fora. A qualquer momento eles podem entrar na catedral e no seminário. Eu não sei por quanto tempo poderemos proteger os 2 mil refugiados que estão alojados aqui conosco. Pedimos que o governo nos ajude. Se este não tiver condições, apelamos para a comunidade internacional e para as organizações humanitárias. Não nos deixem sozinhos. Não virem o rosto para o outro lado".

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 31-05- 2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A voz de D. Juan José Aguirre Muñoz é tensa. Como a situação que está vivendo há mais de duas semanas. No dia 13 de maio - "o dia de Nossa Senhora de Fátima, por isso não tenho como esquecer" - Tokoyo, o bairro islâmico de Bangassou, no sudeste da República Centro Africana, foi atacado e destruído pelas milícias anti-Balaka. "Eles eram originalmente grupos de autodefesa, surgidos para responder à violência dos bandos islâmicos Seleka, que chegaram ao país do Chade e do Sudão em 2013. Logo, porém, o anti-Balaka se transformaram em facções criminosas. Não fazem diferença entre Seleka e civis muçulmanos, como as pessoas de Tokoyo: são comerciantes pacíficos, e não fundamentalistas", conta a Avvenire o bispo e missionário colombiano, há mais de 35 anos na África Central e responsável pela diocese de Bangassou há 17 anos.

Os moradores da região refugiaram-se na mesquita, imediatamente tomada de assalto pelos milicianos. Lá, na linha de frente, dirigiu-se rapidamente também o D. Aguirre, apesar de três ataques cardíacos e problemas cardíacos. "Durante três dias, os civis ficaram sitiados, sem comida nem água. Se tentavam sair, atiravam neles como em coelhos. Havia atiradores em toda parte. Quando cheguei, junto com dois padres e o cardeal Dieudonné Nzapalainga, vi cadáveres por toda parte. Servimos de escudos humanos para os islâmicos: eu ouvi as balas zunir ao meu redor, mas não me atingiram. No final, chegaram os boinas-azuis portugueses da Minusca (missão da ONU na África Central, ndr) e conseguiram tirar os reféns. A emergência, no entanto, ainda não terminou".

De fato, as casas dos muçulmanos haviam sido saqueadas e incendiadas. "Retornar para lá, também teria sido muito perigoso", continua Dom Aguirre. Ele, então, decidiu abrir, no sentido literal, as portas da paróquia. Os dois mil desabrigados foram se alojando no seminário menor, na igreja, e dezenas de pessoas estão dormindo na casa do bispo.

"Tivemos que decidir em cinco minutos. Não estávamos preparados para acomodar tal quantidade de pessoas. Mas o que mais poderíamos fazer? O que mais me preocupa, porém, é a segurança dessas pessoas. Nem sequer temos grades nas janelas, como podemos defendê-las?". Os anti-Balaka não estão dispostos a "soltar a presa". Pequenos grupos armados ameaçam a paróquia.

"Sofremos agressões verbais contínuas. Um dos padres foi espancado, danificaram os nossos carros. No domingo, não muito longe da paróquia, eles massacraram uma mulher muçulmana com seus cinco filhos. Muitos moradores estão irritados porque concedemos asilo aos islâmicos. Somos insultados e considerados ‘traidores’. E pensar que, até 2013, a coexistência entre as duas comunidades era pacífica e harmoniosa".

Na República Centro Africana, os islâmicos são minoria: cerca de 10 por cento da população. Uma comunidade, no entanto, bem integrada. Pelo menos até esse último conflito civil. O "rasgo" no tecido social foi causado pela entrada em jogo dos muçulmanos da Seleka. "Trata-se de grupos originários e financiados pelos países vizinhos que têm interesse em desestabilizar a República Centro-Africana", ressalta o bispo. A sua ferocidade causou um forte ressentimento entre a população cristã, abrindo o caminho para a formação de milícias anti-islâmicas.

A situação parecia ter retornado ao normal no início de 2016, com a eleição do presidente Faustin-Archange Touadéra. Então, nos últimos meses, a tensão voltou a se agravar. Em Bangassou a questão ficou ainda mais complicada pelo surgimento de instâncias autonomistas locais, manipuladas por grupos de poder.

"A luta é política, absolutamente não é de fé", conclui Dom Aguirre, envolvido no diálogo inter-religioso com a Fundação Bangassou, que ele criou. "Vai levar, no entanto, bastante tempo para curar as feridas. Portanto, a curto prazo, para lidar com esta emergência precisamos da ajuda do mundo."

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