Os erros das elites e dos populistas sobre a globalização. Artigo de Mauro Magatti

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25 Abril 2017

“Os problemas levantados pelos populistas são reais e urgentes, e esperam respostas adequadas. Mas também é preciso admitir que o desenho de uma globalização capaz de se sustentar apenas através do mercado, das finanças e da tecnologia – para além das suas nobres intenções – se esqueceu da carne e do sangue das pessoas.”

A opinião é do sociólogo e economista italiano Mauro Magatti, professor da Universidade Católica de Milão, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 24-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“A globalização é a condição econômica em que um exército de escravos produz para um exército de desempregados.” A fórmula de Marine Le Pen, em poucas palavras, capta uma das contradições do tempo em que vivemos. O julgamento obviamente é impiedoso. A globalização não provocou só desastres: ela reduziu a distância entre as diversas partes do mundo, melhorando as condições de vida de milhões de pessoas. No entanto, esse slogan, para além das intenções, toca questões verdadeiras.

Na realidade, por muitos anos, as falhas do crescimento foram escondidas por uma financeirização capaz de sustentar consumos com dívidas. Mas, depois de 2008, o jogo não funcionou mais. O que as elites não entenderam é que, nas novas condições em que estamos vivendo, a “globalização” é lida como um modelo que beneficia apenas poucos em detrimento de muitos (aos quais se pede para ter paciência). É esse o desconforto que os sistemas políticos registram. As questões sobre as quais os populistas prosperam, de fato, são todas reais.

Embora carregando muitas responsabilidades por aquilo que aconteceu, nos últimos anos, as finanças se mostraram muito pouco generosas em relação à sociedade ao seu redor. A capacidade do sistema de corrigir os próprios exageros foi limitada até hoje. Ou, melhor, explorando em vantagem própria os enormes recursos inseridos pelas políticas monetárias ultraexpansivas dos últimos anos, as finanças continuaram ganhando; não só negando boa parte do esforço sustentado pelos bancos centrais, mas também criando as premissas para uma nova crise, que corre o risco de ser mais grave do que a anterior. Em abril de 2017, o nível de endividamento das famílias estadunidenses ultrapassou o pico que tinha tocado antes da crise.

No plano cultural, a globalização zombou da questão da identidade. Mas uma coisa é dizer que a questão pode (e deve) ser reformulada em relação às novas condições de vida; outra coisa é declarar a sua irrelevância em nome de um genérico sonho cosmopolita. Embora a crise migratória dure há anos, ninguém pensou em estabelecer uma política internacional séria, capaz de enfrentar e de gerir os enormes fluxos humanos que, além de todas as generosidades, são insustentáveis a longo prazo sem medidas adequadas. Tanto para os países de destino quanto para os de partida. Pode-se dizer que a globalização subestimou as consequências da mobilidade que ela mesma induziu?

Nas últimas décadas, boa parte da política se acostumou a estar a reboque dos interesses econômicos internacionais. Isso provocou uma seleção adversa das classes dominantes. Ainda mais que, na era da expansão financeira, esbanjar os recursos coletivos (agigantando a burocracia e alimentando a corrupção) era um problema relativo (veja-se, infelizmente, o caso italiano).

Hoje, em vez disso, o vazio deixado pelo fim da globalização expansiva põe a política novamente em causa. Mas o problema é que faltam ideias e até mesmo preparação: os parvenu dos últimos anos, tendo crescido longe dos palácios, mais do que de respostas, são portadores da demanda de mudança. Mas não é isso que historicamente acontece quando há mudanças de sistema?

O fato de que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha começaram a percorrer um caminho diferente daquele trilhado nos últimos 30 anos deveria ser uma evidência suficiente para empurrar até mesmo o mais revoltoso dos opositores a refletir atentamente sobre o que está acontecendo. Há problemas estruturais no modelo de crescimento dos últimos anos que apenas uma forte ação política pode tentar sanar. É preciso intervir, e intervir rapidamente. É claro, de fato, que as três questões lembradas correm o risco de receber respostas desastrosas.

A transição econômica pode se tornar uma oportunidade para uma virada neomercantilista que produziria mais problemas do que é capaz de resolver. Mas permanece a pergunta: como se criam novos empregos e como se produz a riqueza, se assumirmos que as finanças, sozinhas, não podem resolver o problema? A demanda de identidade pode ser transformada em ódio étnico, racial ou religioso. Mas que significado e que forma (ou seja, que limites, que medida) deve assumir, então, a identidade cultural hoje? A necessidade de uma nova política pode ser o gatilho para fazer fermentar sentimentos antidemocráticos. Mas como voltar a falar de laço social sem produzir ódio e contraposições?

Os problemas levantados pelos populistas são reais e urgentes, e esperam respostas adequadas. Por toda a parte – incluindo a Itália – é preciso, o mais rápido possível, superar o esquema establishment/antiestablishment. Mas, ainda antes disso, é preciso admitir que o desenho de uma globalização capaz de se sustentar apenas através do mercado, das finanças e da tecnologia – para além das suas nobres intenções – se esqueceu da carne e do sangue das pessoas.

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