As desigualdades interpelam a justiça. Artigo de Giannino Piana

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07 Abril 2017

“As desigualdades são fruto de uma forma de individualismo desenfreado e da afirmação de impulsos corporativos, que se traduzem em comportamentos baseados na busca dos interesses de categoria e do desinteresse pelo bem comum.”

A análise é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas. O artigo foi publicado por Rocca, n. 7, de abril de 2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Diante da crise econômica ainda em curso, cresce o fosso entre aqueles que são capazes de enfrentar as dificuldades e aqueles que, perdendo gradualmente os próprios recursos, são empurrados cada vez mais para as margens.

De acordo com uma recente pesquisa da Open Polis, realizada junto com a Action Aid, em dez anos, os pobres absolutos mais do que duplicaram na Itália: em 2005, eram dois milhões (3,3% da população), hoje subiram para 4,6 milhões (7,6% da população). A renda de pessoas e famílias, que diminuiu fortemente na última década, fez com que uma em cada cinco famílias esteja vivendo em condições de pobreza.

Tudo isso enquanto se acentuam as desigualdades também dentro das classes sociais mais abastadas, com uma drástica redução, de um lado, das receitas na classe média, que corre o risco de precipitar cada vez mais em situações que beiram o estado de pobreza, e com o avanço, de outro, de um pequeno grupo de ricos, que aumentam de maneira desmedida as suas receitas e o seu patrimônio – a Itália é um dos países em que essas diferenças são mais acentuadas – com a consequente criação de um estado crescente de desconforto e pondo em perigo a coesão social.

A busca das causas

A situação de pobreza a que nos referimos diz respeito particularmente às famílias com mais filhos, as compostas por casais jovens, as monoparentais e, por fim, o mundo juvenil em geral. Ela também está diversamente distribuída de acordo com as áreas geográficas do país, com uma presença muito mais alta no Sul, onde a distância entre ricos e pobres é muito maior do que no resto da Itália e da Europa: a renda das famílias meridionais é 63% da renda das famílias setentrionais.

Para além dos dados estatísticos, que também confirmam uma impressão generalizada, é interessante a análise das causas que produziram esse estado de coisas. É por demais evidente que, na base de tudo, está a implosão do sistema econômico. O processo de financeirização, que começou no início dos anos 1990 e que provocou na crise iniciada em 2007 (e ainda não superada), produziu uma série de recaídas negativas em cadeia, que vão desde a perda das poupanças por parte de muitos cidadãos, ao empobrecimento cada vez maior da classe média, até o fenômeno cada vez mais generalizado e alarmante do desemprego e da inocupação juvenil, que atingiu níveis totalmente patológicos.

Soma-se a isso – e não é um fato secundário – a instabilidade política, que tem como resultado a detenção de qualquer ação reformadora e impede principalmente a produção de um plano estratégico, absolutamente necessário para determinar uma retomada de competitividade do sistema-país.

Mas, para além dessas motivações de caráter estrutural, não devem ser esquecidos (ou, melhor, merecem atenção especial) os processos culturais que se desenvolveram nas últimas décadas e que influenciaram profundamente a mentalidade e os costumes generalizados. As desigualdades também são fruto de uma forma de individualismo desenfreado e da afirmação de impulsos corporativos, que se traduzem em comportamentos baseados na busca dos interesses de categoria e do desinteresse pelo bem comum. Ou, muitas vezes, são a consequência da prevalência de uma lógica mercantil que, apelando à meritocracia, justifica as diferenças em nome de uma melhor funcionalidade ou de maior eficiência do sistema.

A percepção do fenômeno e o desconforto psicológico

O fenômeno da desigualdade social provoca (e não pode deixar de provocar), no plano psicológico, a percepção de um estado de deterioração das condições de vida. Isso é confirmado por uma pesquisa recente sobre os italianos realizada, para o jornal La Stampa, pela Community Media Research, em colaboração com Intesa San Paolo, que mostrou que 42,6% consideram que, em 2016, agravou-se ainda mais a crise da Itália, com referência especial à situação econômica e à pressão fiscal. Isso só alimenta um estado de mal-estar generalizado e torna cada vez mais grave a desconfiança em relação à classe dirigente, tanto política quando econômico-financeira, com o perigo de desvios populistas e do avanço da indiferença.

O desconforto não se limita, por outro lado, apenas – isto também é confirmado pelos dados estatísticos provenientes das análises mais recentes – ao simples âmbito dos bens materiais; ele investe, mais radicalmente, o bem-estar psíquico e mental das pessoas. A deterioração é, a esse respeito, cada vez mais generalizado e afeta particularmente sujeitos de baixa escolaridade, com menos recursos econômicos e sem trabalho estável; e, por fim, é quantitativamente mais relevante entre a população do sul italiano. É preciso acrescentar que o que desperta cada vez mais alerta é a extensão progressiva do mal-estar psíquico às áreas menos garantidas da classe média, em que aumenta a tendência a precipitar – como já se lembrou – em zonas de pobreza ou em que, não podendo mais se sustentar o nível de vida tradicional por razões econômicas, incorre-se em estados de forte depressão.

Que remédios?

A gravidade da situação torna inadiável o compromisso de buscar soluções adequadas com urgência. O fenômeno da globalização causou, em nível mundial, um crescimento cada vez maior do fosso entre um pequeno punhado de pessoas que detêm um elevado percentual do patrimônio mundial e uma enorme massa de pessoas que não têm o necessário para a subsistência – a propósito, não pode deixar de surpreender (e indignar) o fato de que oito pessoas têm hoje no mundo um patrimônio igual ao dos 3,5 bilhões de pessoas que vivem em condições de grande precariedade – ou, como acontece na Itália, vão rumo à deriva de uma crescente proletarização.

O estado de pesada injustiça reclama intervenções de caráter estrutural, mas também exige uma mudança radical de mentalidade. Sobre o primeiro aspecto – o estrutural – está em causa o sistema econômico-social, onde é evidente o peso negativo do capitalismo selvagem centrado na lógica de um mercado sem regras e em um processo de financeirização, que leva a clara vantagem sobre a economia produtiva. É urgente, então, o compromisso de implementar uma transformação do modelo atual, dando cada vez mais espaço para os bens relacionais e para a qualidade de vida e favorecendo a participação de baixo na gestão e no controle das escolhas produtivas; e de promover uma verdadeira reforma do Estado social que o torne mais ágil e mais capaz de responder com eficácia às novas demandas emergentes.

Sobre o segundo aspecto – o das consciências – torna-se necessária uma ampla obra de sensibilização, que evidencie o porte das disparidades em curso – é fundamental, nesse contexto, a intervenção dos instrumentos de comunicação social. Mas é ainda mais necessário o desenvolvimento de um ethos cultural que coloque novamente em circulação os valores da igualdade, da justiça social e da solidariedade, aliás, no centro da Carta Constitucional italiana, reagindo com força aos egoísmos individuais e de grupo e criando as condições para uma convivência civil mais participativa e mais fraterna.

Um dado surpreendente, por fim, merece se tornar objeto de uma atenta consideração. As empresas estrangeiras registradas na Itália em 2015 aumentaram 9,1% do total, em clara tendência contrária em comparação com o andamento geral. Portanto, parece que os imigrantes demonstram uma capacidade mais firme de reagir aos abalos da crise; manifestam, em outras palavras, um maior dinamismo e uma maior vontade de ter sucesso, lançando-se em novas iniciativas e, muitas vezes, ocupando os nichos deixados descobertos pelos italianos.

Será que esse não é também um índice da importância revestida pelo intercâmbio geracional e étnico-cultural da população? E, portanto, longe de ter que considerar o fenômeno migratório como um elemento de perturbação e de insegurança, será que ele não deveria ser visto como um sinal de esperança para o futuro?

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