Galerias do terror. Documentário Central radiografa presídio que já foi considerado o pior do Brasil

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31 Março 2017

Visto a distância, o conjunto de edifícios decrépitos se parece com escombros que resistem onde há tempos não existe mais vida. Quando a câmera se aproxima, porém, percebe-se ali pulsando uma ferida que simboliza como a falência do poder público engrossa, dia a dia, as estatísticas da violência urbana. Porque, assim mostra o documentário Central, abarrotar presídios com criminosos atirados às condições mais degradantes, por mais que satisfaça o desejo de justiça clamado pela sociedade, traz de arrasto na outra ponta a que não se vê ou não se quer enxergar mais violência.

A reportagem é de Marcelo Perrone, publicada por Zero Hora, 29-03-2017.

Com estreia nesta quinta-feira nos cinemas, o documentário tem como cenário o Presídio Central de Porto Alegre – agora denominado Cadeia Pública. A direção é de Tatiana Sager, que faz sua estreia em longa-metragem desenvolvendo o tema abordado no curta O Poder Entre as Grades (2014), a partir do livro-reportagem Falange Gaúcha, lançado em 2008 por Renato Dorneles, repórter e colunista da editoria de segurança do Grupo RBS. Na publicação, Dorneles, codiretor de Central, conta a história do crime organizado no Rio Grande do Sul destacando episódios como a perseguição e o cerco nas ruas da Capital aos bandidos que comandaram, em 1994, um motim no Presídio Central.

– Sou jornalista por formação. Meu foco de interesse sempre será o da jornalista. Eu cobri o motim de 1994 como fotógrafa – diz Tatiana. – Quando o Renatinho lançou o livro, conversamos sobre projeto do filme, primeiro o curta e agora o longa. Reunimos mais de 200 horas de material.

Central radiografa aquele que foi considerado o pior presídio do Brasil por uma CPI da Câmara dos Deputados em 2008. E o faz ouvindo os protagonistas do drama: representantes do judiciário, oficiais da Brigada Militar, órgão desde 1995 responsável pela segurança do local, detentos e seus familiares. Chama a atenção, além das péssimas condições físicas e sanitárias dessa masmorra contemporânea, a superlotação que impôs a chamada gestão compartilhada. A única forma de manter cerca de 4. 500 detentos onde a capacidade é para 1.905, em 11 galerias, é deixá-los de fora das minúsculas celas. Ficam soltos nas galerias, administradas por eles mesmos sob o controle de seis diferentes facções.

Qualquer movimento ali envolve dinheiro, de alimentos e drogas a produtos de higiene e visitas, o que faz do Central um negócio muito lucrativo para as quadrilhas que dali seguem tocando seus negócios. Para o Estado, a omissão gera grande economia. A conta é paga pela sociedade.

– Cada preso, por meio seus familiares, paga de R$ 50 a R$ 200 por semana para se manter ali – diz Tatiana. – Cada galeria chega a movimentar até R$ 500 mil mensais. Os detentos assumem dívidas que terão de ser pagas de alguma forma quando saírem. Isso alimenta a guerra que estamos vendo nas ruas, que só tende a piorar.

Para mostrar cenas do interior das galerias, em especial as registradas pelos próprios detentos, os realizadores cumpriram uma negociação de três anos com autoridades, advogados e os chamados “plantões”, detentos com status de gerente administrativo e interlocutor dos criminosos.

– É um lugar em que ninguém entra – destaca a diretora. – Mas conseguimos mostrar aquela realidade por dentro, pelo ponto de vista dos presos, e inclusive registramos um momento de revista íntima que surpreendeu até o (repórter investigativo) Caco Barcellos, que, depois de ver o filme, disse nunca ter visto aquilo.

Tatiana e Dorneles estão usando Central como material didático junto a adolescentes infratores internados na Fase.

– O Presídio Central é um fetiche para alguns, que acham que ali terão acesso a drogas e serão protegidos por suas quadrilhas. Mostramos que não é assim, que a vida lá é muito pior da que eles têm ali.

Esse contato com os menores dará origem a outro documentário, Pequenos Escravos do Tráfico. Tatiana trabalha ainda em um projeto para a TV, Retratos do Cárcere, que investigará diferentes presídios brasileiros por meio de temas específicos, como o impacto da religião, as condições das travestis e o poder das facções.

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