Onde estão os católicos progressistas?

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Igreja Universal cria seu exército particular com "recrutamento" de PMs

    LER MAIS
  • A semana em que 47 povos indígenas brasileiros se uniram por um manifesto anti-genocídio

    LER MAIS
  • “Do fundo do nosso coração” é um “de profundis”. Ou seja, o Concílio Vaticano II não é opcional

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

02 Março 2017

Em um país cujo solo social é encharcado de gasolina, em cuja mentalidade o sarcasmo político é usado como se fosse um desinfetante moral, onde a justiça trocou a balança por hienas, reconstruir o canal vai exigir um esforço enorme, um tempo enorme e uma atitude penitent.

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, em Bolonha. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 28-02-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Como em um filme de época, vemos novamente na tela política italiana todos os erros, de todas as esquerdas, de toda a história do país. Livre de restrições internacionais que regiam seus humores, uma fatia da esquerda oriunda do Partido Comunista Italiano saboreia as emoções de divisão e, como em uma famosa canção, convida a dirigir "com os faróis apagados" na noite do século XXI.

Livre há mais de um quarto de século do reconfortante apoio democrata-cristão, a esquerda dos católicos democratas parece, ao contrário, ter sumido.

Uma Atlântida afundada pelos ressentimentos pós-comunistas que datam dos anos da FGCI (Federação Juvenil Comunista Italiana), submersa pelo frenesi dos partidários democrata de Matteo Renzi, muitos dos quais vêm do catolicismo, mas que reduziram essa cultura a uma mera certificação ética pessoal. Se essa implosão do catolicismo "progressista" tivesse sido uma sanção imposta pela igreja, precisamos reconhecer que foi suave. Dez anos após o Dia da Família, onde todos desfilaram (movimentos eclesiais, político-eclesiais e eclesiásticos, líderes e aspirantes a líderes, incluindo o próprio Renzi), e até mesmo aqueles que, em seguida, forjaram estudados distanciamentos e esdrúxulas autonomias, torna-se realmente necessário afirmar que não havia outro destino para aquele continente, que chamava de "projeto cultural" um programa que silenciava os bispos e recompensava o conformismo político dos demais. Assim, quando os bispos, hoje, acusam esta ou aquela escolha de Renzi, deveriam antes se perguntar e recordar onde estavam e o que falavam enquanto eram lançadas as bases desses erros que tornam a Itália tão vulnerável no presente. O problema é que o que se torna um castigo para a igreja representa um prejuízo grave para um país cujos erros sempre tiveram reflexos em sua relação com a Europa. O simétrico e prévio desaparecimento do catolicismo "de direita" não teve, de fato, consequências graves: restringido a carregar a moralidade como um mero chapéu, o fundamentalismo católico de orientação direitista não soube espalhar nem mansuetude e nem convenceu os moderados, reduzindo-se a misturar lama para lançar contra qualquer inimigo, até mesmo contra o Papa. O desaparecimento do catolicismo de "esquerda", ao contrário, rompeu o canal que mantinha o país em comunicação com reservas de inteligência que muitas vezes provaram ser essenciais: a inteligência jurídica, de Leopoldo Elia e Sergio Mattarella; a inteligência econômica de Nino Andreatta, a social de Giulio Pastore; a inteligência histórica de Pietro Scoppola e Pino Alberigo, a martirial do juiz Livatino, a pró-europeia que passa por Romano Prodi e Mario Draghi. Claro, sobraram algumas reservas em algumas instituições e fora delas. Mas, sem um canal que as traga à superfície, sem uma superfície, elas não poderão ser usadas, a não ser por algum aproveitador ocasional (tentou Todi anos atrás, sem sucesso, a não ser por alguns cargos) ou por alguma manobra eleitoral, quando os vitrinistas das listas de candidatos saem em busca de um campeão, uma cientista, um gay, uma pessoa com deficiência, um negro, uma muçulmana e - por que não? - um católico. Em um país cujo solo social é encharcado de gasolina, em cuja mentalidade o sarcasmo político é usado como se fosse um desinfetante moral, onde a justiça trocou a balança por hienas, reconstruir o canal vai exigir um esforço enorme, um tempo enorme e uma atitude penitente. Mas, quanto mais se atrasar seu início, mais longe estarão as duas décadas necessárias para reconstruir as competências, para formar as consciências.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Onde estão os católicos progressistas? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV