"Esta economia mata": Michele e as palavras do Papa Francisco

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19 Fevereiro 2017

Michele, trinta anos, suicida, é o caso emblemático de “uma economia que mata”, de uma economia que gera descartes, como o Papa Francisco defende cada vez mais frequentemente e com sincero detalhe de análise. “Descartes”, precisamente “descartes”, “resíduos”, coisas a serem jogadas fora.

Nota de IHU On-Line: Michele, jovem italiano natural de Údine, Itália, desempregado, que antes de se suicidar envia uma "lúcida e dramática carta a seus pais", segundo afirma Nunzio Galantino, secretario geral da Conferência Episcopal Italiana - CEI. "Estou  cheio de me esforçar para conseguir resultados, cheio de entrevistas inúteis para conseguir um emprego (...) Não posso passar a vida combatendo somente para sobreviver, para ter o espaço que deveria ter por direito. De "não" como resposta não se vive, de "não" se morre" , escreve Michele.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no sítio TheHuffingtonPost.it, 09-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ou, melhor, descarte que – como no caso da Michele – introjetam tanto essa condição que lhes é atribuída pelo ciclo produtivo a ponto de jogarem a si mesmo diretamente na lata de lixo do nada. Tornando-se vítimas duas vezes da economia que mata, já que – como o papa explica ainda – não há esperança na solidão de cada um, mas apenas na partilha de uma comunidade.

Assim como os menores abusados ou as mulheres vítimas do tráfico acabam considerando que eles são o problema, que eles são os sujos, assim também, talvez, aconteceu com Michele. A sua carta é o seu último ato de lucidez, mas de uma lucidez tão desesperada a ponto de ser forçado ao último passo.

Os resíduos produtivos de hoje são bem diferentes do exército industrial de reserva de memória marxiana. Aquele exército constituía o mecanismo segundo o qual o trabalho que já tinha se transformado de variável independente a função dependente do Capital, regulava o valor de mercado da força de trabalho e, portanto, o salário.

Parece que, agora, pelo menos na Itália, os não empregados nem sequer desempenhar mais essa função: eles são descartes e ponto final, dado o modo como foram postos para fora da porta. Fora. Quando o Papa Francisco escreveu, na sua primeira exortação apostólica, “A alegria do Evangelho”, que a economia atual é “uma economia que mata”, ele foi logo rotulado como marxista. As críticas foram furiosas não só nos ambientes financeiros, mas também entre os comentaristas católicos, especialmente nos Estados Unidos.

Mas o papa reafirmava essencialmente o relato bíblico do Gênesis, no qual a “regalidade” do homem (e da mulher), o seu ser – para os crentes – filhos de Deus consiste precisamente no trabalho. Deus não quer o homem “escravo”, mas “senhor”, “rei”, com uma tarefa. E essa tarefa é justamente o trabalho. É por isso que, se o homem não tem um trabalho e uma tarefa, está literalmente morto.

E ele acrescentou há alguns dias na homilia da manhã na Casa Santa Marta: “Assim como Ele trabalhou na Criação, assim também deu a nós o trabalho, deu o trabalho para levar adiante a Criação. Não para destruí-la, mas para fazê-la crescer, cuidá-la, conservá-la e fazê-la seguir em frente. Ele deu tudo. É curioso, penso eu, mas Ele não nos deu o dinheiro. Temos tudo. O dinheiro, quem nos deu? Eu não sei. Dizem as avós que o diabo entra pelos bolsos. Pode ser... podemos pensar em quem deu o dinheiro...”.

No sábado passado, falando em um congresso dos representantes da economia de comunhão do Movimento dos Focolares, o papa disse ainda: “Quando o capitalismo faz da busca do lucro o seu único propósito, corre o risco de se tornar uma estrutura idolátrica, uma forma de culto”. “Não por acaso – lembrou o papa – a primeira ação pública de Jesus, no Evangelho de João, é a expulsão dos mercadores do templo”.

Os “mercadores” de hoje, porém, são mais astutos e cínicos. “O capitalismo continua produzindo os descartes que gostaria de cuidar. O principal problema ético deste capitalismo é a criação de descartes, para, depois, tentar escondê-los ou tratá-los para fazer com que não sejam vistos”, disse Francisco. “Os aviões poluem a atmosfera, mas, com uma pequena parte do dinheiro do bilhete, plantarão árvores, para compensar parte do dano criado. As empresas do jogo financiam campanhas para tratar os jogadores patológicos que elas criam. E, no dia em que as empresas de armas financiarem hospitais para tratar das crianças mutiladas pelas suas bombas, o sistema terá atingido o seu clímax. Essa é a hipocrisia”.

Não é um cenário futurista, esse que foi delineado pelo papa, mas já está em curso há algum tempo. Não se trata, de acordo com Francisco, de “tratar as vítimas”, mas de “construir um sistema em que as vítimas sejam cada vez menos, no qual possivelmente elas não existam mais”. Como? Visando a “mudar as regras do jogo do sistema econômico-social”, porque “imitar o bom samaritano do Evangelho não é suficiente”.

Naturalmente, acrescentou o papa, “quando o empresário ou qualquer pessoa se depara com uma vítima, é chamado a cuidar dela e talvez, como o bom samaritano, associar também o mercado (o albergueiro) à sua ação”, mas “é preciso agir especialmente antes que o homem se depare com os ladrões, combatendo as estruturas de pecado que produzem ladrões e vítimas”.

O sistema é reformável? O papa parece ter algumas dúvidas: “O capitalismo conhece a filantropia, não a comunhão. É simples doar uma parte dos lucros, sem abraçar e tocar as pessoas que recebem essas ‘migalhas’”, disse ele no fim do seu discurso, dirigido mais aos crentes individuais do que às instituições econômicas e políticas: “A forma melhor e mais concreta para não fazer do dinheiro um ídolo é compartilhá-lo, compartilhá-lo com outros, especialmente com os pobres, ou para fazer com que os jovens estudem e trabalhem”.

Parecem palavras dirigidas justamente a Michele.

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