Diante de uma cultura pós-verdade, sejamos apóstolos do diálogo

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18 Fevereiro 2017

"Esta é uma razão pela qual fiquei tão incomodado com tanto apoio dos católicos a Trump. É frustrante ser consistentemente derrotado por uma estratégia pós-verdade, mas devemos nos comprometer a descobrir e buscar a verdade. Intelectuais comprometidos com isso - como Robert George e vários outros - já mostraram o caminho, rejeitando as táticas de Trump em todos os turnos", escreve Charles C. Camosy, Professor de Teologia e Ética Social da Universidade Fordham, em artigo publicado por Crux, 14-02-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.  

Eis o artigo. 

Embora haja uma longa história de políticos brincando com a verdade, a equipe de Trump parece ter levado isso a um novo nível, o que reflete uma cultura que praticamente desistiu desta ideia. Em meio a tudo isso, os católicos devem resistir em todas as frentes e agir como apóstolos do diálogo.

É bom para o nosso discurso público que Andrew Sullivan tenha voltado e esteja escrevendo regularmente para a New York Magazine. Em um recente e importante artigo, Sullivan aborda o que ele chama de cultura de "negação da realidade empírica".

Seu ponto de partida é que todos os políticos mentem. Os Presidentes Bill Clinton e Richard Nixon que o digam. Mas pelo menos eles "mostravam um pouco de respeito à verdade - mesmo quando tentavam esquivar-se dela". Eles reconheciam uma "realidade compartilhada" e um "conjunto de fatos" necessários para um verdadeiro discurso.

Mas algo mudou fundamentalmente, argumenta Sullivan, em relação às mentiras da administração Trump. São "refutações diretas da realidade" para "reforçar o poder" e "testar a lealdade", em vez de simplesmente contornar um problema político.

O comentário de Sean Spicer sobre a quantidade de pessoas na posse de Trump, que todo mundo viu que era falso, não poderia ser melhor exemplo.

Na semana passada, o candidato ao Supremo Tribunal Neil Gorsuch disse que os ataques de Trump a juízes federais eram "desalentadores" e "desmoralizantes", mas Trump e sua equipe insistiram que Gorsuch estava falando dos ataques de forma mais geral.

Não importa que o senador republicano Ben Sasse e a própria porta-voz de Gorsuch, Kelly Ayotte, não poderiam ter sido mais claros que a declaração se referia, de fato, a ataques específicos de Trump ao Judiciário.

Sullivan não está sozinho em seu pensamento. De fato, o fato de Trump e seus apoiadores tentarem virar a crítica de "notícias falsas" contra os críticos quase levou ao desespero quem gostaria de, pelo menos, uma base para o nosso discurso público:

Concordo com Sullivan que a campanha de 2016 e as primeiras semanas do governo de Trump levou esta tendência a outro nível, mas não sei se estamos em uma trajetória totalmente diferente. O fato de Trump estar à frente do governo coloca os holofotes sobre ele, mas um rápido percurso pela memória traz à tona vários outros exemplos importantes do fenômeno da pós-verdade.

O "significado" não pode ter "morrido" quando Bill Clinton, em uma tentativa de se esquivar de sua mentira sob juramento sobre seu envolvimento sexual com sua secretária Monica Lewinski, disse que "depende do significado do verbo 'ser'". Mas certamente piorou ainda mais a situação.

E o que dizer sobre a relação da nossa cultura com a verdade quando alguém se refere a um bebê humano dentro do útero com um coração pulsante e funcionamento cerebral suficiente para dançar quando toca alguma música através de eufemismos como "produto de concepção" ou "conjunto de células"?

Talvez o mais frustrante seja quando o desenvolvimento cultural importante para um discurso justo - como a questão da justiça racial - é prejudicado por uma pós-verdade baseada na mentalidade política de vencer custe o que custar.

"Mãos ao alto, não atire", por exemplo, tornou-se um slogan infeliz para muitos (mesmo no Senado dos Estados Unidos), apesar de, segundo Jonathan Capehart, do Washington Post ", ter sido em cima de uma mentira".

O poder convincente desta história para avançar alguma pauta, por mais digna que seja, tornou-se mais importante que o compromisso com uma realidade compartilhada e um conjunto de fatos.

Trump e os seus apoiadores aprenderam várias lições importantes com tudo isso:

  • Percepção é realidade na política.
  • Listar fatos objetivos quase sempre perde para narrativas convincentes que trabalham com a confirmação dos preconceitos de um público.
  • A grande mídia tem sido conivente com esta cultura política da pós-verdade por décadas.
  • Se alguém usa a mídia alternativa para (1) considerar um meio de comunicação impopular tendencioso e hipócrita quando faz críticas baseadas em fatos objetivos e (2) criar uma história alternativa, então pode-se competir em nível de igualdade (e muitas vezes ganhar) usando uma estratégia sem fatos.

Um exemplo disso foi a nomeação do senador Jeff Sessions para a Procuradoria Geral. Apesar de seu passado terrível com questões de raça, a narrativa criada por seus apoiadores dizia que ele era defensor dos direitos civis e lutava contra pessoas racistas. Só havia um problema: em geral, a história era falsa.

Mas para os conservadores e outros apoiadores de Trump, esses fatos não importavam. Eles se sentem que por décadas foram vítimas das políticas de uma cultura pós-verdade, e agora é hora da vingança.

Conor Friedersdorf, em artigo para o The Atlantic, expressou muito bem o espírito da coisa ao descrever essa estratégia como uma forma alternativa de correção política. Trump chegou ao poder justamente por condenar uma "deferência à sensibilidade política", superando apelos à verdade objetiva, mas sua resposta foi abraçar a estratégia de seus adversários.

O filósofo católico Alasdair MacIntyre descreveu esta situação e previu seu resultado no livro After Virtue, de 1981. Quando a moral e a política se separaram de qualquer entendimento comum do bem - quando o Ocidente pelo menos tentou ser verdadeiramente plural em relação aos nossos princípios morais fundamentais -, chegamos a uma via cultural que não levaria a nenhum lugar diferente de onde estamos atualmente.

Quando abandonamos qualquer metafísica comum e fundamento comum da pessoa humana e o que significa seu desabrochar, ficamos sem boas opções para julgar os desacordos morais e políticos.

Na melhor das hipóteses, ficamos com apelos emotivos ao autointeresse e vieses de confirmação a partir da maioria dos cidadãos com quem temos contato. Na pior, recorremos à força bruta e à violência física.

A segunda opção é particularmente pensar, de maneira sensata,ao vermos mais e mais pessoas e políticos ameaçados com tal violência por parte de seus adversários.

Os católicos não podem coadunar com esta cultura pós-verdade. Devemos resistir a ela em todas as frentes.

Esta é uma razão pela qual fiquei tão incomodado com tanto apoio dos católicos a Trump. É frustrante ser consistentemente derrotado por uma estratégia pós-verdade, mas devemos nos comprometer a descobrir e buscar a verdade. Intelectuais comprometidos com isso - como Robert George e vários outros - já mostraram o caminho, rejeitando as táticas de Trump em todos os turnos.

O Pai da Mentira tenta nos convencer de que podemos usar seus recursos e suas práticas, mas o Evangelho nos ensina que isso leva à autodestruição.

Ao invés disso, a Igreja deveria trabalhar para criar comunidades diversificadas de diálogo - comunidades em que as pessoas com diferentes entendimentos do bem possam, pelo menos, se reunir em uma realidade compartilhada e discordar sobre a base de um conjunto comum de fatos. (Aliás, isso também descreve a missão e o ethos da Crux.)

Considerando as raízes cada vez mais profundas da nossa cultura pós-verdade, este tipo de prática contracultural provavelmente não terá sucesso em um primeiro momento. Mas há pontos de resistência, como o Movimento dos Focolares, que têm tido grande sucesso.

Vamos também fazer resistência sendo apóstolos do diálogo.

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