Francisco reza por muçulmanos perseguidos; propõe pontes, não muros

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10 Fevereiro 2017

Nesta quarta-feira, Dia Mundial de Oração e da Consciência contra o Tráfico Humano para os católicos, o Papa Francisco fez comentários que serão provavelmente interpretados como um ataque ao presidente Donald Trump, apelando para a construção de pontes, e não de muros, entre os povos.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 08-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ao marcar o Dia Mundial de Oração e da Consciência contra o Tráfico Humano, o pontífice pediu aos milhares reunidos em Roma para a audiência semanal que lembrassem que a minoria muçulmana rohingya está sendo perseguida em Myanmar.

“E por falar em migrantes, expulsos, explorados (...), eu gostaria de rezar hoje com vocês de um modo especial pelos quatro irmãos e irmãs rohingyas”, disse ele na quarta-feira.

“Eles são expulsos de Myanmar e vão de um lado a outro porque não os querem. São bons, não são cristãos, são gente pacífica, nossos irmãos e irmãs”.

Quando Francisco falou pela primeira vez sobre os rohingyas, o local em que estavam ficou em silêncio, acusando talvez que, em meio às notícias vindo dos EUA e do Oriente Médio, pouco ou nada se falou sobre estas pessoas.

“Há anos sofrem, torturados, assassinados, simplesmente por levarem avante sua tradição e a fé muçulmana”, disse, antes de conduzir em oração os milhares que se reuniam na Sala Paulo VI.

Este seu apelo em defesa dos rohingyas foi feito de improviso, ou seja, o papa não estava lendo um texto previamente preparado quando proferiu estas palavras.

A Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre – ACN, organização papal de caridade que produz relatórios regulares sobre as perseguições religiosas no mundo, descreve Myanmar [país antigamente conhecido por Birmânia] como um lugar de perseguição “moderado a alto” contra os cristãos. No entanto, no relatório de 2016, o texto destaca que a perseguição religiosa mais extremada tem sido cometida contra a minoria muçulmana rohingya no estado de Rakhine, ao norte do país.

Eles vivem há décadas no país, no entanto o governo os rotula como “estrangeiros” e migrantes bengalis ilegais.

Como observa a ACN em seu mais recente relatório, aos rohingyas é negado o reconhecimento dos direitos de cidadania em Myanmar, e desde 2012 milhares vivem em “condições de desespero, seja em campos sem acesso a cuidados à saúde ou auxílio humanitário adequados, seja arriscando suas vidas para escapar do país em botes ao mar aberto”.

Nos últimos meses, milhares fugiram para Bangladesh em meio a uma repressão militar contra insurgentes em Rakhine. Segundo a Human Rights Watch – HRW, forças de segurança participaram de casos de estupro, estupros coletivos, revistas corporais invasivas e assédios sexuais contra mulheres e meninas rohingyas de até 13 anos, pelo menos em nove estados.

Muitos sobreviventes daquilo que a HRW descreveu como ataques “doentios” informaram que foram intimidados e ameaçados com base na etnia e na religião durante os ataques.

Em 2 de fevereiro, o escritório da ONU para os direitos humanos divulgou um relatório sobre a “crueldade devastadora” contra crianças rohingya.

“A crueldade devastadora a que estas crianças rohingya têm sido sujeitas é insuportável – que tipo de ódio pode fazer com que um homem esfaqueie um bebê chorando por leite materno”, disse o alto comissário Prince Zeid bin Ra’ad Zeid al-Hussein.

“E para a mãe testemunhar este assassinado enquanto está sendo estuprada coletivamente pelas mesmas forças de segurança que a deveriam estar protegendo – que tipo de ‘operação’ é essa? Quais os objetivos da segurança nacional poderiam ser alcançados com isso?”

Várias organizações têm denunciado que existem sinais de um genocídio em curso, o que o governo negou em janeiro deste ano, depois de criar uma comissão para supostamente investigar a situação. Um relatório intermédio descartou as acusações com base em que ainda existem pessoas da etnia rohingya vivendo na região.

Funcionários da ONU descreveram as ações das forças estatais como uma limpeza étnica, enquanto jornalistas e organizações humanitárias registram estupros, assassinatos e espancamentos massivos. Imagens de satélites disponíveis no sítio da HRW mostram bairros inteiros destruídos por soldados do país.

Quarta-feira não foi a primeira vez que Francisco falou em defesa do grupo. Em 2015, ele condenou o tratamento dado a este povo como uma “forma de guerra”.

O primeiro cardeal de Myanmar, Charles Maung Bo, criado por Francisco em 2015, definiu a perseguição dos rohingyas como uma “cicatriz terrível contra a consciência do meu país”.

Ele também descreveu o grupo como estando “entre os mais marginalizados, desumanizados e perseguidos do mundo. Eles são tratados piores que animais. Despojados de sua cidadania, rejeitados pelos países vizinhos, tornaram-se apátridas”.

Ao discursar ao parlamento inglês em Londres em 25-05-2016, Bo denunciou que nenhum ser humano merece ser tratado como estão sendo tratados os rohingyas.

“Sem uma solução, as perspectivas para uma paz genuína e uma liberdade verdadeira para o meu país serão negadas, pois ninguém pode dormir à noite sabendo que um grupo particular de pessoas está simplesmente sendo assassinado por causa da sua raça e da religião que seguem”.

Os comentários do Papa Francisco feitos nesta quarta-feira foram proferidos no final de sua audiência semanal, no momento das súplicas. Na ocasião, o papa falava sobre a Santa Josefina Bakita, freira africana que antes de se juntar a uma comunidade religiosa na Itália havia sido escrava, tirada de sua família no Sudão quando tinha 9 anos e trazida e vendida cinco vezes.

Hoje, ela é lembrada como a padroeira dos escravos e das vítimas do tráfico humano, a segunda indústria ilegal mais lucrativa do mundo. A Igreja Católica marca o dia 8 de fevereiro como o dia de oração para a conscientização sobre o tema, que afeta 20,9 milhões de pessoas em todo o mundo.

Como disse o Cardeal Vincent Nichols, de Westminster: “É preocupante pensar que 200 anos depois que a escravidão foi abolida, este é o segundo crime mais lucrativo no mundo”.

Segundo o projeto National Trafficking Hotline, as vítimas de tráfico humano foram identificadas em cidades, municípios menores e zonas rurais em 50 estados americanos, além de Washington, DC.

“Esta jovem escravizada na África, explorada e humilhada não perdeu a esperança”, disse Francisco sobre Josefina. “Ela levou adiante a fé e acabou por chegar como migrante na Europa. E ali sentiu o chamado do Senhor e se fez freira. Rezemos Santa Josefina por todos os migrantes, refugiados, explorados que sofrem tanto”.

Foi depois desta súplica que Francisco falou sobre os rohingya.

Antes em seu discurso, ele instou os que ocupam postos governamentais a lutar contra o flagelo do tráfico humano, em particular o infantil, “dando voz aos irmãos e irmãs jovens que foram feridos em sua dignidade. Todos os esforços devem ser feitos para erradicar esse crime vergonhoso e intolerável”.

Francisco tem pronunciado discursos contra a escravidão moderna, o que ele já definiu como um crime contra a humanidade.

Durante a audiência geral, o papa falou sobre os preceitos cristãos de esperança e perdão, e o papel deles na construção da paz.

Em comentários que provavelmente serão interpretados como um ataque indireto às políticas imigratórias do presidente Donald Trump, Francisco mais uma vez apelou para a construção de pontes, e não de muros, entre os povos.

“No contexto social e também civil, eu peço que não criemos muros, mas construamos pontes”, disse. “Para não responder ao mal com mal. Para derrotar o mal com o bem., a ofensa com o perdão”.

De acordo com o pontífice, um cristão nunca deve dizer “você vai pagar por isso”, por não ser um gesto cristão. “Superamos uma ofensa com o perdão. Para viver em paz com todos”.

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