'Comi cascas de batata do lixo e me cobri com cadáveres para não morrer', diz sobrevivente do Holocausto

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28 Janeiro 2017

O uruguaio Francisco Balkanyi, de 88 anos, dos quais 50 vividos em São Paulo, leva no corpo a marca de uma maiores tragédias da humanidade.

Em seu antebraço esquerdo, estão gravados os dígitos 186550, a identificação que lhe fora designada pelos nazistas.

A reportagem foi publicada por BBC Brasil, 27-01-2017.

O tempo apagou parte da tatuagem, mas os horrores do Holocausto - o genocídio de 6 milhões de judeus durante a 2ª Guerra Mundial pela Alemanha nazista - permanecem vivos na memória de Balkanyi.

"Éramos apenas um número. Tive de comer cascas de batata do lixo e me cobrir com cadáveres para não morrer", conta ele por telefone à BBC Brasil.

Balkanyi é um dos poucos sobreviventes ainda vivos do massacre. Nesta sexta-feira, comemora-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, solenidade instituída pela ONU em 2005.

Em um misto de português e espanhol, ele relembra as privações e torturas pelas quais passou com uma memória invejável, apesar da idade avançada.

Filho único de judeus húngaros, Balkanyi nasceu no Uruguai em 3 de outubro de 1928, mas se mudou para a Europa com os pais, quando tinha apenas um ano.

"Meus avós paternos estavam com saudades do meu pai e insistiam que ele voltasse para a Europa", diz.

De volta ao Velho Continente, os Bakanyis se instalaram em Cakovec, uma cidade da antiga Iugoslávia, hoje Croácia. Ali montaram uma livraria e uma gráfica - e o negócio logo prosperou.

Prisão

Mas a ascensão de regimes totalitários na Europa começou a preocupar a família, que tentou revalidar a nacionalidade uruguaia, sem êxito - foram impedidos pela ditadura de Gabriel Terra (1931-1938), que então comandava o Uruguai.

Em 1940, a Hungria se aliou ao Eixo e, em menos de um ano, invadiu o norte da Iuguslóvia com o respaldo dos alemães.

Os bens dos Balkanyis acabaram confiscados, conta ele.

A perseguição aumentou gradativamente e, em 1944, com a Hungria dominada por completo pelas forças nazistas, o destino dos Balkanyis foi fatalmente selado.

"Fomos feitos prisioneiros e colocados em trens rumo aos campos de concentração", recorda ele.

A família acabou separada: pai e filho foram enviados para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, enquanto que a mãe foi mantida em outro, em uma cidade próxima.

"Só soubemos do paradeiro de minha mãe e que ela estava viva quando recebemos uma correspondência dela", conta ele.

"Ela havia conseguido subornar um guarda nazista dando-lhe as roupas de judeus que haviam sido enviados às câmaras de gás", acrescenta.

As câmaras de gás, aliás, foram o trágico destino de seus avós maternos. O vigor físico de Balkanyi, então com 15 anos, lhe poupou do extermínio.

Mas embora sua saúde o tenha inicialmente salvado da morte, os cerca de 11 meses em que ficou preso em campos de concentração - inicialmente em Auschwitz, na Polônia, e posteriormente em Buchenwald, na Alemanha, cobraram seu preço.

Inicialmente forçado pelos alemães a trabalhar na construção de uma fábrica de produtos químicos, chegou a carregar sacos de cimento de até 50 quilos. Até hoje, por causa disso, sua mobilidade é reduzida.

"Não tinha o que comer. À noite, quando os guardas nazistas iam dormir, eu e outros companheiros íamos roubar as cascas de batata jogadas no lixo. Era delas que nos alimentávamos", recorda.

Libertação

Em 1945, com o avanço dos soviéticos e o prenúncio do fim da guerra, os nazistas começaram a deixar as áreas ocupadas no leste europeu e retornar à Alemanha. Levaram consigo os prisioneiros, no que ficou conhecido como a "Marcha da Morte" - muitos deles não resistiram às jornadas quilométricas feitas a pé em meio ao inverno intenso, debaixo de temperaturas negativas.

Enquanto seu pai permaneceu em Auschwitz, por causa da saúde debilitada ("Eles diziam que iam matá-lo"), Balkanyi foi colocado em um trem de transporte de carvão com destino ao campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha.

Os vagões eram abertos e, sem proteção, teve de desafiar a morte mais uma vez.

"Tive de me cobrir com cadáveres de outros prisioneiros para aguentar o frio. Das 200 pessoas que estavam a bordo, acho que só 20 sobreviveram", estima.

Em 11 de abril de 1945, Balkanyi foi finalmente libertado pelos americanos.

"Durante o tempo em que estive preso, passei de 80 para 42 quilos. Era só pele e osso. Se os americanos tivessem demorado mais 15 dias, teria morrido", diz.

Livre, ele voltou a Cakovec, onde, miraculosamente, reencontrou o pai e a mãe - a família, uma das poucas a ter sobrevivido ao Holocausto, havia combinado de voltar à cidade se escapasse com vida do genocídio.

Sem dinheiro e com a Europa devastada pelo conflito, os três conseguiram voltar ao Uruguai em 1948 com a ajuda de um parente.

Em Montevidéu, Balkanyi conheceria a futura mulher, Rita, com quem teve três filhos. Ali dedicou-se ao comércio e teve duas fábricas de roupas.

Mudança para o Brasil

Tudo corria bem, quando em meados dos anos 60, decidiu se mudar com toda a família para o Brasil, preocupado com o totalitarismo que avançava no Uruguai.

"Tinha um amigo que morava aqui (São Paulo) e me convidou para vir. Não queria passar novamente pelo que passei", recorda.

Hoje com seis netos e quatro bisnetos, Balkanyi diz estar preocupado com a ascensão do neonazismo no Brasil.

Uma reportagem recente da BBC Brasil mostrou que a polícia civil vem detectando uma maior movimentação de grupos de caráter neonazista em São Paulo nos últimos meses.

Segundo especialistas e policiais, entre as possíveis causas para essa tendência estão o cenário político no Brasil, o fortalecimento de partidos conservadores e de extrema-direita no exterior e a situação de desemprego e instabilidade econômica.

"Tenho 88 anos e não vou viver para sempre. Por isso, é muito importante continuarmos a contar essa história para que o mundo nunca se esqueça do que aconteceu", diz Balkanyi, que tem material suficiente, entre memórias e anotações, para escrever "um ou dois livros, mas me falta a habilidade dos grandes escritores".

Ato solene

Por ocasião do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, entidades judaicas vão promover um ato solene em São Paulo no domingo.

A cerimônia, cujo tema será o "Holocausto e Intolerância no Mundo", vai homenagear os 6 milhões de judeus mortos, com o acendimento de seis velas por sobreviventes do Holocausto, representantes de outras comunidades, vítimas do nazismo e de perseguições, autoridades políticas, religiosas, institucionais e jovens.

No mesmo dia, será inaugurada a exposição fotográfica "Lembrar e Honrar", sobre as crianças no Holocausto. A mostra ficará em cartaz na Sinagoga da Congregação Israelita Paulista (CIP), em São Paulo, até 26 de fevereiro.

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