Graça suficiente. Andrew Garfield sobre a jornada inaciana que o conduziu através do filme “Silêncio”

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14 Janeiro 2017

"Santo Inácio de Loyola foi transportado de maneira semelhante quando começou a escreveu os Exercícios Espirituais. Depois de uma falha grave, ferido enquanto tentava desempenhar um papel de herói durante uma batalha desesperada, sem nada como um jornal infinito para ocupar seu tempo durante uma longa e dolorosa recuperação, Inácio começou a ler. Logo percebeu que o consolo que buscava, a cura que necessitava, não seria encontrada nas fantasias da ficção cavalheiresca, e sim nas vidas dos santos. Além disso, percebeu que uma vida mais profunda e satisfatória estava se revelando não só no exemplo dos santos, mas nas complexidades de suas próprias paixões. A realidade ferida de sua vida interior tornava-se um lugar de imaginação graciosa. A conversão de Inácio começou quando ele se tornou sensível à complexidade de sua própria interioridade", escreve Brendan Busse, correspondente da revista America, estudante de teologia em Madri, em artigo publicado por America, 10-01-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As pessoas fazem os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola por uma variedade de motivos. Como preparação para atuar em um papel de destaque num filme de Martin Scorsese não está entre os que mais ouvimos, porém este não é o pior dos motivos. Homens e mulheres fazem retiros para encontrar alguma clareza sobre quem são ou a quem são chamados/as a ser. Suponho que foi assim para Andrew Garfield quando pediu a James Martin, jesuíta, da revista América, para guiá-lo através dos Exercícios enquanto se preparava para atuar no papel de protagonista do novo filme de Scorsese, “Silêncio”

O Pe. Martin primeiramente hesitou. Mas Garfield estava buscando algo. Ou alguém. E, de forma alguma, essa busca é um motivo ruim. No final, foi suficiente para Martin. E mais ainda para Deus.

Era um dia chuvoso em Los Angeles quando almocei com Garfield para falar sobre a experiência dos Exercícios. Encontramo-nos em um pequeno e agitado restaurante em Los Feliz, antigo bairro de Los Angeles localizado abaixo do icônico Observatório Griffith, ao leste de Hollywood. Ele chegou na hora marcada. Ambos estávamos com fome.

Garfield parecia fadigado. Era passado do meio-dia quando nos vimos, e ele estava cansado.

O ator estava trabalhando havia semanas, promovendo dois filmes, vinha gravando um terceiro e se preparando para voltar a Londres para uma produção teatral logo na sequência. Carregava uma pequena coleção de cadernos e um telefone. Acrescentemos um laptop e uma xícara de café e poderíamos facilmente confundi-lo com um estudante de pós-graduação. Era véspera de Ano Novo, e ele estava almoçando com um jesuíta espiritualmente curioso com quem nunca tinha se encontrado antes. Não era exatamente a vida glamorosa hollywoodiana que geralmente se espera. Mais parecia um encontro cego religioso pouco convencional. Eu pude perceber a fadiga.

No entanto, mesmo em sua fadiga ele se mostrou extremamente gentil, generoso com seu tempo e pensativo em seu diálogo. Certificou-se que iríamos comer algo. Pediu polenta, e eu panquecas de mirtilo. Ele estava cansado, porém feliz – feliz pela oportunidade de recordar sua experiência de quando fez os Exercícios com o Pe. Martin, feliz por voltar a um lugar de maior profundidade e consolo do que aquele em que se encontrava no momento – um lugar de autopromoção hollywoodiana. “Aí é como o mercado dos ‘ricos, da honra e do orgulho’”, falou, fazendo referência, sem ser solicitado, a uma meditação-chave dos Exercícios Espirituais. Um insight perspicaz e muito salutar. Ele estava falando a minha língua. Me fez sentir-me à vontade.

Depois de nos apresentar brevemente, começamos a falar sobre como ele chegou à atuação como sendo sua vocação e que tipo de experiência espiritual trazia aos Exercícios. “Filmes eram realmente a minha igreja”, disse ele. “Quando criança, minha igreja eram os filmes e livros; não era nada realmente marcante, apenas era aí onde me sentia acalmado, era aí onde eu mais me percebia... me sentia mais seguro”.

Talvez, conforme observou, uma história de amor na infância não é tão notável, mas em seguida ele acrescentou algo que me pareceu um insight bem inaciano: “Nos livros e filmes, era transportado para dentro de mim mesmo, para dentro da paisagem interior vasta de mim próprio”.

Santo Inácio de Loyola foi transportado de maneira semelhante quando começou a escrever os Exercícios Espirituais. Depois de uma experiência dura, ferido enquanto tentava desempenhar um papel de herói durante uma batalha desesperada, sem nada como um jornal infinito para ocupar seu tempo durante uma longa e dolorosa recuperação, Inácio começou a ler. Logo percebeu que o consolo que buscava, a cura que necessitava, não seria encontrada nas fantasias da ficção cavalheiresca, e sim nas vidas dos santos. Além disso, percebeu que uma vida mais profunda e satisfatória estava se revelando não só no exemplo dos santos, mas nas complexidades de suas próprias paixões. A realidade ferida de sua vida interior tornava-se um lugar de imaginação graciosa. A conversão de Inácio começou quando ele se tornou sensível à complexidade de sua própria interioridade.

Em minha conversa com Garfield, ficou bastante claro que ele compartilha dessa sensibilidade inaciana. Estava claro também que a sua “vasta paisagem interior” está, como muitos de nós, repleta de feridas e vulnerabilidades. Ele conhece bem o desejo do amor, e às vezes é um desejo tortuoso.

“Fui atraído a histórias que tentam transformar o sofrimento em beleza”, disse. “Sinto como se tivesse recebido um dom, como se tivesse sido amaldiçoado a ficar próximo da tristeza (...) a tristeza do viver (...)”. Pausou como se estivesse reunindo forças para dizer o que realmente queria dizer, e então a fonte da fadiga que eu havia percebido antes se revelou: “(...) A tristeza de viver em um momento e lugar onde a vida de alegria e amor é impossível”.

Este pensamento foi repetido em vários momentos nas poucas horas que estivemos juntos. Sua vida fora levada pelos fardos do amor, pela possibilidade, ou impossibilidade, do amor verdadeiro.

Andrew Garfield, na falta de uma palavra melhor, teve sucesso nos Exercícios. “Houve tantas coisas nos Exercícios que me mudaram e me transformaram, que me mostraram quem eu era (...) e onde creio que Deus quer que eu esteja”, me contou. É um ótimo retorno que alguém poderia ouvir depois um retiro. E o seu sucesso não deve nos surpreender.

A sua formação como ator o preparou bem para a dinâmica da oração inaciana, onde nos imaginamos dentro de uma série de cenas bíblicas a fim de alcançar o “conhecimento interior” de Deus e articular este conhecimento em uma vida de ação compassiva e serviço generoso. O que é surpreendente, que surpreendeu ele também, foi se apaixonar.

Quando perguntei o que havia de destacar nos Exercícios, ele fixou os olhos vagamente em um ponto qualquer, vagando em uma memória distante. Em seguida, como se a pergunta tivesse lhe colocado novamente dentro da próxima experiência, sorriu e disse: “O que foi bem fácil foi me apaixonar por essa pessoa, foi me apaixonar por Jesus Cristo. Essa foi a coisa mais surpreendente”.

Ele fez silêncio ao pensar sobre o assunto, estando claramente comovido. Apertou o peito e o que falou a seguir veio em meio a uma explosão de risadas: “Meu Deus do céu! Essa foi a coisa mais marcante: me apaixonar, e foi muito fácil me apaixonar por Jesus”.

De repente passou a apreciar a autenticidade com a qual ele experienciou a alegria do amor e a tristeza de sua frustração, a dor de sua ausência. “Me senti tão mal [por Jesus] e me senti tão zangado por ele quando finalmente o encontrei, porque todo mundo lhe havia dado um nome tão ruim. Muitas pessoas lhe dão um péssimo nome. E ele vem sendo usado para tantas coisas obscuras”.

Quando digo que Garfield foi bem-sucedido nos Exercícios, é exatamente esta profissão de amor que prova o que afirmo: ele se apaixona por Jesus. Sofre com e pelo amado. E seu sofrimento compassivo acontece numa vocação que pretende ajudar os demais a entrarem no amor e a saírem de sua ausência. “Essa é para mim a agonia bonita de criar”, continuou o ator, “a agonia bonita de nunca ser capaz de expressar plenamente a possibilidade do amor e a possibilidade do amor como ele ensina, e viver como ele quer que vivamos. Minha compulsão pelo trabalho é este desejo de expressar essa mesma coisa”.

A experiência de se apaixonar por Jesus não foi surpresa, talvez porque Garfield, como muitos outros, chegou aos Exercícios pedindo por algo mais. O que ele trouxe aos Exercícios não era um desejo explícito de conhecer a Cristo, mas sim um sentimento doloroso e persistente de sua própria “não suficiência”.

Como Inácio, Garfield era um jovem em busca de seu lugar no mundo. E, como muitos de nós, por debaixo deste desejo ele carregava um medo profundo, um medo de não ser bom o suficiente. “A principal coisa que queria curar, que levei a Jesus, que levei aos Exercícios, foi este sentimento de não suficiência”, disse. “Esse sentimento de um desejo interminável pela expressão perfeita dessa coisa que está dentro de cada um de nós. Essa ferida da não suficiência. Essa ferida de sentir que aquilo que tenho a oferecer nunca é o suficiente”.

Muitos de nós vivemos com um medo do fracasso, mas o que não percebemos geralmente é que não é o medo o que nos incomoda; é a exposição. Não é difícil falhar; falhamos o tempo inteiro. O problema é que as pessoas irão nos ver falhando. É que iremos ser reconhecidos como uma falha, um fracasso. É isso o que realmente nos dói. Quando tudo o que queremos é o apreço, quando o que queremos é sermos lembrados; se tememos não sermos dignos disso, o que mais nos assusta é sermos vistos. Essa tensão é algo que Andrew Garfield entende muito bem.

O momento que ele se recorda como a experiência mais profunda da presença divina em sua vida aconteceu pouco antes da primeira apresentação pública na conclusão da faculdade de teatro. Ele deveria fazer o papel de Ofélia de Hamlet no Globo Theater, em Londres. “Era umas duas horas antes [da apresentação] e de repente senti como se fosse morrer”, lembra o ator. “Senti que se pisasse no palco, eu iria explodir. Nunca senti tanto terror, um pavor mortal, uma não suficiência, dúvida. O terror de ser visto. O terror em revelar e oferecer o meu coração. Expor a mim mesmo, dizendo: ‘Olhem para mim’”.

Para acalmar os nervos, ele andou pela margem sul do rio Tâmisa, para cima e para baixo. Era um dia nublado e seus pensamentos voltaram a escapar: “Comecei a pensar em me jogar no rio. Não tenho nada a dar, nada a oferecer. Sou uma fraude”. Hoje ele compreende este momento como um momento de oração: “Eu estava pedindo algo. Pedindo ajuda”.

Ouviu então um artista de rua a cantar uma música conhecida, embora com erros: “Vincent”, de Don MacLean. O que mais lhe marcou era a imperfeição da performance. “Se aquele cara tivesse ficado na cama dizendo: ‘Eu não tenho nada a oferecer, minha voz não é tão boa, não estou pronto para me apresentar em público, não sou bom o suficiente’. Se ele tivesse ouvido estas vozes, eu não teria recebido aquilo que precisava”, disse Garfield. “A sua disposição em estar ali mudou minha vida. Acho que entendi, pela primeira vez, como a arte produz significados, como a arte muda a vida das pessoas. Ela mudou a minha vida”.

Este momento compartilhado de imperfeição artística o salvou: “E literalmente as nuvens partiram e o sol saiu, brilhou sobre mim e sobre esse cara. Eu estava chorando descontroladamente. Era como se Deus estivesse me agarrando pelo pescoço e dizendo: ‘Tens pensado que, se ires ao palco, irás morrer. Mas, na verdade, se não fores, daí é que vais morrer”.

Desde então ele tem vivido com essa mesma tensão criativa – com um medo profundo de ser visto e uma necessidade ainda mais profunda de sê-lo. Se é sermos vistos em nossa imperfeição o que nos aterroriza, é estarmos presos em nossa vulnerabilidade o que nos redime.

Entre a maior parte dos Exercícios para Garfield estiveram as contemplações sobre a chamada “vida oculta” de Jesus. “Isso me pareceu bem importante”, lembrou ele. “Onde sou tentado constantemente a estar produzindo, a ser visto, a ser apreciado, etc., fui mostrado à beleza de viver uma vida oculta, de retiro a fim de me oferecer de um modo mais profundo à minha arte, à minha vida, ao mundo”. Considerando este desconforto evidente com as armadilhas da vida de celebridade, uma atração à vida oculta não é surpresa alguma. E, no entanto, estas meditações sobre a infância de Jesus também relevaram um desejo de adentrar as partes ocultas de sua própria vida – em suas feridas de não suficiência, em lugares desolados que todos carregamos conosco, mas que nem sempre encontramos uma entrada ou saída deles.

No entanto, o exercício mais fundamental para Garfield não foi sobre a vida oculta, e nem sobre as suas próprias feridas, mas sobre algo sagrado sendo relevado, a vulnerabilidade de Deus. Durante a meditação sobre a Natividade, ele se imaginou, como recomenda Inácio, um enfermeiro durante o nascimento de Cristo: “Me senti à vontade aí. Me senti como se se aí fosse onde eu deveria estar. Em serviço desta mulher fazendo este ato profundo”. Ele passou a apreciar como o antídoto à humilhação pode simplesmente ser a humildade. “Deus do céu, eu gostaria de me sentir assim o tempo todo, em serviço humilde”, disse. “Se eu puder fazer da narrativa um serviço, se eu puder estar a serviço, e ser tão humilde quanto possível for enquanto fazer isso...”. De novo, ele se perdeu na memória do tempo. E eu não o culpo. Isso não é pouca coisa.

Desde o início dos tempos os atores são entendidos como parteiros. O ator, como todos os sacerdotes, se põe de pé diante da verdade e participa de sua revelação via palavras e gestos, encenando nossas histórias sagradas de redenção e amor. Ao contemplar o nascimento de Cristo, Garfield soube de algo que outros atores parteiros e místicos têm sabido há tempos – que é por meio da nossa personificação do amor, pelo nosso serviço humilde, que nos transformamos no amor pelo qual desejamos.

A experiência dos Exercícios é sagrada porque é um lugar onde passamos a conhecer a verdade do amor, onde a personificação do amor se revela em Cristo. Sentir-se partícipe de um trabalho de parto do amor que ansiamos é um momento místico para qualquer um de nós. Não é fácil. É, em todos os sentidos, um exercício e tanto. É, sem dúvida, o maior dos dons.

Entretanto, este trabalho de parto não nos exclui da dor do nascimento. Não é a possibilidade do amor o que remedia a sua impossibilidade, mas sim a personificação do amor que nos redime no fim. É o trabalho de amor que nos salva. É, em todos os sentidos, um trabalho em progresso.

“Fui levado por estes Exercícios a ficar de joelhos”, disse Garfield, “e, no entanto, me vejo aqui diante de você, sentado, debatendo-me com as mesmas coisas. O fato de fazer o filme era secundário ao fato de passar pelos Exercícios, e o fato de o filme vir em terceiro lugar aqui... e a profundidade da experiência estão de acordo. A profundidade da experiência dos Exercícios foi suficiente. E, depois, fazer o filme pareceu muito, muito, muito mais profundo do que qualquer experiência artística que já tive, mas não foi tão profunda quanto a experiência dos Exercícios”.

Não é fácil permanecer no amor, da mesma forma como ficar num espaço gracioso de um retiro ou de um momento comovente de oração não é fácil. O mundo retorna a nós e nós a ele. Mas quando perguntei se ainda confia na autenticidade deste seu apaixonar-se, ele sorriu, fez um contato visual e me garantiu: “Ó meu Deus... foi suficiente. Se eu não tivesse feito o filme, a experiência não teria sido legal. Mas a experiência que não gostaria de sacrificar, se tivesse de escolher, seria passar por estes Exercícios. Eles me trouxeram um consolo enorme. Foi uma coisa humilde, pois me mostrou que podemos dedicar um ano da nossa vida à transformação espiritual, sinceramente desejando e pondo esse desejo em ação, para criar uma relação com Cristo e com Deus. Em seguida, podemos perder 20 quilos de peso, sacrificar a nossa arte, rezar todo dia, viver o celibato por seis meses, fazer todos estes sacrifícios no serviço de Deus, no serviço daquilo que acredita que Deus está nos chamando a fazer e mesmo depois de todo este coração e alma, aquela oferta humilde... aquela humildade, mesmo depois de tudo isso alguém vai atirar uma pedra e ignorar. É maravilhoso, uma graça maravilhosa ser dado, ser mostrado. E é um consolo enorme saber que não importa o quanto eu trabalhar, alguém não irá gostar de mim. Vai haver no mínimo uma pessoa a dizer que eu não tenho valor. É maravilhoso!”

Se Garfield parecia fatigado quando nos encontramos fez, agora ele está longe da fadiga. Enquanto relata estas graças recebidas, mostra-se visivelmente alegre, sorridente. Mesmo quando reconhece que alguém irá achá-lo “sem valor”, demonstra-se radiante e livre.

“Essa é a minha sincera oração”, disse. “Estou orando para que eu seja mais livre para me oferecer de maneira vulnerável... e que estas outras vozes, sejam elas internas ou externas, não tenham o mesmo poder sobre aquela chama, sobre a capacidade de oferecer aquele coração puro, vulnerável, rompido... no serviço de Deus, no serviço do bem maior, no serviço do amor, no serviço do divino. Sinto que é isso o que Deus está me mostrando. E dói quando me sinto incompreendido ou não percebido... Mas desejo que doe menos para que eu possa manter-me ofertando-me de forma vulnerável”.

Em seu núcleo, os Exercícios Espirituais têm a ver com a personificação do amor, não com a possibilidade dele. Essa possibilidade do amor, ou sua impossibilidade, nos paralisa. Mas a personificação do amor, a vulnerabilidade, o amor ferido, batido que vi no coração de Andrew Garfield, a personificação do amor que ele experienciou como parteiro a Maria, o amor que ele guarda em sua “vida oculta”, o amor que vive em seu desejo de ser visto de maneira profunda e plenamente apreciada, o apaixonar-se com o qual ele continua a lugar em seus relacionamentos com Deus e com os outros – esta personificação do amor é que nos redime no fim. Se a impossibilidade do amor nos deixa desejosos, é na personificação do amor que iremos encontrar a satisfação. É na personificação do amor onde vamos descobrir a nossa suficiência.

Quando cheguei de volta a Madri, percebi novamente, como se fosse a primeira vez, um peso de papel que meu pai me dera um ano atrás quando fiz aniversário. É um bloco simples de alumínio em que se lê: “Eu sou suficiente”. Essa parece ser a graça que Deus teve em mente para Andrew Garfield, a graça que todos os pais querem a seus filhos: que possamos chegar a nos conhecer como nada mais, nada menos do que a personificação do amor deles. E que este conhecimento seja suficiente. Eis a oração final que Inácio recomenda que façamos nos Exercícios: “Tudo é vosso; de tudo disponde segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça, que isso me basta”.

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