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07 Dezembro 2016

João Belchior Marques Goulart, 26º presidente da República brasileira, deixou o país em 4 de abril de 1964 e voltou apenas em 6 de dezembro de 1976, morto, aos 57 anos. Foi o único dos mandatários a morrer fora sua pátria, depois de ser derrubado por um golpe que declarou vaga a Presidência mesmo com Jango em território nacional. A ditadura, que dificultou o quanto pôde o enterro em São Borja (RS), também negou as honrarias devidas a um chefe de Estado, algo que só aconteceria em 2013, no governo Dilma Rousseff, quando os restos mortais do ex-presidente foram levados a Brasília. Passados 40 anos da morte de Goulart, seu filho mais velho, João Vicente, lança Jango e eu - Memória de um exílio sem volta (editora Civilização Brasileira, 352 páginas), com dados históricos e íntimos dos 12 últimos anos de João Goulart.

A reportagem é de Vitor Nuzzi, publicada por Rede Brasil Atual – RBA, 06-12-2016.

Com 60 anos, completados no mês passado, João Vicente tinha 7 quando o pai foi deposto. A irmã, Denize, 6. A narrativa é feita pela ótica familiar – o livro conta as andanças da família depois do golpe, primeiramente no Uruguai e depois na Argentina. Com o avanço das ditaduras também nesses países e o risco crescente, João Vicente vai morar na Europa e Jango torna-se quase um fugitivo, na mira das organizações formadas à sombra da Operação Condor.

Os relatos vão desde as curiosidades infantis ("De que cor é o Uruguai?", pergunta João Vicente; "Lá tem bananas?", quer saber Denize), as dificuldades da chegada – a mulher de Jango, Maria Thereza, teve de pedir leite e bolachas a uma vizinha – até as incansáveis articulações políticas de Jango, alternando esperança e descrença em relação à volta ao Brasil. O filho conta os desentendimentos de Goulart com Maneco, filho de Getúlio Vargas, e, principalmente, com Leonel Brizola, por motivos políticos e familiares – ambos só irão se reconciliar meses antes da morte do ex-presidente.

Depressão e tortura

Entre os dramas vividos pela família, Denize passa por um período de depressão e sofre de anorexia, recuperando-se após alguns meses. E o próprio João Vicente passa três dias preso – e torturado – em um batalhão de Maldonado, no Uruguai, em 1973.

O livro traz várias histórias curiosas, como encontros de Jango com a cantora Maysa, os jogadores Wilson Piazza (que pede desculpas pela ausência de Pelé, supostamente por medo) e Ademir da Guia e líderes políticos ideologicamente distantes, como Alfredo Stroessner, o ditador do Paraguai que garantiu a Goulart um passaporte diplomático que permitiu ao ex-presidente brasileiro tratar-se na França. Detalha conversas com o ex-desafeto Carlos Lacerda, com companheiros como Celso Furtado e Paulo Freire e com o ex-presidente da Argentina Juan Domingo Perón, que o chamava de Janguito. E conta que Jango, durante passagem pela União Soviética, garantiu fornecimento de erva para que o argentino-cubano Che Guevara pudesse preparar o seu chimarrão.

O encontro com Celso Furtado em Paris, nos tempos de exílio, teve uma passagem anedótica. Depois de muita conversa sobre a conjuntura brasileira, Jango espanta-se com o valor da conta do restaurante. Pede para o economista verificar, e ele fica sem graça.

– Presidente, não tinha reparado no preço do vinho, é muito caro.

O ex-presidente dispõe-se a pagar com traveler´s cheks e dinheiro, mas não perde a piada:

– Mas com esse planejamento, nós tínhamos que cair mesmo, não é, Celso?

Peça radical

O encontro com o cineasta Glauber Rocha, também em Paris, também teve momentos surpreendentes. O diretor conta que pensava em escrever sua primeira peça de teatro, tendo justamente Jango como tema, em três atos: o primeiro seria uma mistura de histórias e o segundo, uma espécie de comoção política com as propostas do presidente rejeitadas pelo povo.

– E o terceiro ato, Glauber, o que seria?

– Ah, aí é que você vai achar fantástico! O terceiro ato seria teu velório e o povo comendo teu cadáver – exclamou o cineasta.

– Mas o que é isso, Glauber? Vamos fazer umas mudanças, eu ainda não morri – retrucou meu pai meio encabulado meio rindo daquela ideia mirabolante de Glauber.

João Vicente conta que, após o golpe, seu pai ficou até o último instante no Brasil e pretendia permanecer, em "uma terrinha perto de Goiás". Saiu quando se convenceu, ou foi convencido, de que sua prisão era iminente. Exasperado por não voltar à terra natal, com avaliações desencontradas sobre as consequências de um possível retorno, decidiu que pisaria novamente em solo brasileiro em 1977.

Ele planejava voltar à Europa no Natal (de 1976), pedir uma audiência com o papa (Paulo VI), no começo de 1977; falar com o Ted Kennedy, nos Estados Unidos, e mostrar ao regime brasileiro e ao mundo que Jango não era o que a imprensa do Brasil lhe imputava; e de lá, anunciar seu regresso, pegar um avião e desembarcar no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Meu pai queria correr o risco.

Ao mesmo tempo, volta e meia dizia à família que não retornaria nunca. Nesse sentido, seu último encontro com João Vicente foi marcante. De Londres, onde conheceu o primeiro neto, Christopher, Jango abraça o filho no aeroporto e caminha para o embarque, quando volta e diz:

João Vicente, meu filho! Não sei por que,  mas estou sentindo uma coisa aqui no meu peito... Não sei por que, mas estou sentindo que não vou mais voltar aqui!

Morreu dois meses depois, em Mercedes, na Argentina, oficialmente de infarto – ele passava por tratamento e usava medicamentos para o coração. Até hoje, a família tem dúvidas e cobra uma investigação das autoridades brasileiras sobre um possível envenenamento. A autópsia feita em 2014 foi inconclusiva.

Música de protesto?

Uma passagem curiosa refere-se a um pouso forçado do avião de Jango em Corrientes, na Argentina, perto da fronteira com o Brasil. Detido, o ex-presidente teve receio de ser deportado. Após dois dias, chegou um telegrama assinado pelo tenente general Alejandro Augustín Lanusse, comandante em chefe das Forças Armadas argentinas, determinando a liberação imediata de Goulart. O militar seria presidente de 1971 a 1973, no período que antecedeu a ditadura instalada naquele país em 1976, em um período de crescimento de regimes autoritários na América Latina.

Jango chegou a ter uma de suas fazendas revistadas. Em uma operação militar, ficou sem seu revólver, que foi apreendido. E, certa vez, ofereceu café a arapongas que o monitoravam diante de uma de suas fazendas, no Uruguai.

Sabíamos que muitas vezes havia espiões entre nós, e meu pai aguentava isso calado. Hoje, muitos anos depois, temos provas do monitoramento permanente dentro de nossa casa por meio de depoimentos, documentos liberados pelos órgãos de segurança, fotografias do SNI e outros indícios de marcação cerrada que sofríamos no exílio.

Ainda na Argentina, em 1972, Jango encontra-se com Vinicius de Moraes, que faria shows ao lado de Toquinho. Segundo o livro, a conversa começa calorosa, com duas garrafas de uísque Old Parr na mesa. Mas termina azeda e antes do esperado.

Lembro que a certa altura (Jango) perguntou a Vinicius por que ele, com tanto talento, não entrava naquela onda de letras de protesto. Acho que ele não gostou muito da pergunta, nem meu pai gostou muito da resposta. E acabou sobrando uísque. Acho que ficamos no máximo uma hora, e desde então a amizade virou protocolar.

João Goulart mostra-se convencido que não resistir em 1964 foi a melhor alternativa, para evitar um conflito sangrento e a divisão do país. "Jango conservou a territorialidade", afirma João Vicente. O ex-presidente critica a esquerda (Queriam que eu resistisse quando eles não resistiram?) e a ditadura (Às vezes fico intrigado como eles nos chamaram de comunistas por termos proposto reformas de base).

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Ele fala de projetos interrompidos pelo golpe, como o Sete Quedas (que seria apropriado pelos militares e transformado em Itaipu), e dos planos de alfabetizar 2 milhões de pessoas apenas em 1964, quando o país tinha 15 milhões de analfabetos. Considerava que Paulo Freire, por seu método educacional inovador, era mais "odiado" pelo regime do que ele próprio. E também critica o mercado, que "produz cada vez mais em função do lucro, e não em função das necessidades humanas".

"Penso que a imagem que fica do livro é um retrato humano de um homem que lutou pelo Brasil até o final dos seus dias, tentando agregar os amigos no exílio, tentando somar forças para uma abertura no país. Tenho orgulho de meu pai Jango e me sinto feliz por não ser filho de um marechal-presidente, de um vendilhão da pátria, de um torturador", diz João Vicente, em entrevista ao jornalista João Franzin, da Agência Sindical.

"Entendo que agora, quando da morte há 40 anos, seria oportuno contar minha experiência, minhas impressões e dizer que, independentemente do provável assassinato, muitas coisas, de alguma forma, ajudaram a matar meu pai - a saudade, a distância, a tristeza, a certeza de que havia sido derrubado por seus compromissos com o povo brasileiro", afirma João Vicente.

Jango e eu colabora com a historiografia brasileira, ao contar detalhes de um ex-presidente que, além de praticamente expulso de seu país, foi durante muito tempo proscrito das narrativas oficiais ou apresentado como personagem menor. O livro traz ainda no apêndice documentos pouco conhecidos, como uma entrevista concedida à publicação República Zagreb, em 1967, e cartas de Goulart ao Jornal do Brasil e ao então presidente dos Estados Unidos John Kennedy (em 1962) referente ao episódio da crise dos mísseis soviéticos em Cuba.

Com prefácio do ex-governador gaúcho e ex-ministro Tarso Genro, o livro ajuda a recolocar Jango na história, na trilha de João Goulart - Uma Biografia (2011, da mesma Civilização Brasileira), escrito pelo historiador Jorge Ferreira. Além de expor questões familiares de forma respeitosa e sensível e apresentar seu pai como um homem simples, que gostava de conversar com os peões nas fazendas de gado, politicamente conciliador, João Vicente procura mostrar que a queda se deu, basicamente, pela resistência de setores da sociedade contrários a qualquer tipo de reforma – uma questão ainda presente, cinco décadas depois. Jango fala para o filho:

– (...) Quando surge um governo voltado para a maioria dos brasileiros, fere os privilégios dessa minoria que domina a economia e escraviza nossos trabalhadores.

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