Nicarágua. "A repressão igual aos tempos da ditadura de Somoza"

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06 Dezembro 2016

Uma delegação de quatro bispos da Conferência Episcopal da Nicarágua se reuniu com o Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro Lemes, que se encontra em uma visita de dois dias ao país centro-americano no contexto de diálogo político iniciado em novembro passado pelo governo do presidente Daniel Ortega com a organização hemisférica, com sede em Washington, nos EUA.

A reportagem é de Israel González Espinoza, publicada por Religión Digital, 03-12-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Durante dois dias, Almagro pôde se reunir com líderes empresariais, movimentos populares, sociedade civil, líderes dos trabalhadores rurais reprimidos pelo governo, partidos políticos, o governo e a Igreja.

O arcebispo de Manágua, o Cardeal Leopoldo Brenes, o bispo auxiliar de Manágua, Dom Silvio José Báez Ortega, da Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD), Dom Sócrates Sándigo Jirón (Diocese de Chontales e de Río San Juan) e Dom Pablo Smith Simón (bispo do Vicariato Apostólico de Bluefields) participaram da reunião feita na quarta-feira desta semana pelo escritório da OEA em Manágua, para estabelecer sua abordagem sobre a realidade social e política a qual vive o país.

Enquanto isso, no lobby do hotel onde ocorreu a reunião entre Almagro e os bispos, uma coletiva de mais de cinquenta jornalistas da imprensa nacional e estrangeira (entre os quais estava o correspondente do Religión Digital na Nicarágua) autorizada no país, aguardava a saída da comitiva católica do encontro.

Após o final da reunião, o Cardeal Leopoldo Brenes falou aos jornalistas, na sua qualidade de presidente da Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN). Disse que qualquer diálogo é sempre positivo. Também assegurou que fosse entregue ao Secretário-Geral o documento Em Busca de Novos Horizontes por uma Nicarágua Melhor, que o episcopado havia primeiramente entregue para Daniel Ortega, durante o único encontro de alto nível que a hierarquia católica teve com o líder em quase dez anos, ocorrido em 21 Maio de 2014.

"Em primeiro lugar, manifestamos ao Sr. Luis Almagro que a presença de quatro bispos representa a presença de todo o CEN. Explicamos a ele que o convite veio até nós praticamente na quarta-feira à tarde, e naquele momento começamos a falar com os outros bispos sobre quem poderia (participar do encontro). Nós quatro fizemos tudo o que nos foi possível, pondo de lado alguns compromissos que tínhamos, mas para os outros irmãos bispos foi um pouco difícil", disse Brenes Solórzano.

O também arcebispo de Manágua manifestou, em seu tom conciliador característico, que o eixo central do diálogo com o secretário da OEA foi o documento episcopal de Maio de 2014, que é um raio-X da sociedade nicaraguense em seu conjunto até aquele momento. De acordo com Brenes, algumas "coisas do documento foram ampliadas", e expostas a Luis Almagro. Ele também foi enfático em assinalar que os bispos não foram para a reunião como defensores de uma postura política ou partidária, mas como "pastores próximos do povo" que escutam o que uns ou outros setores da vida nacional lhes fazem chegar.

"Creio que foi um diálogo muito positivo. Eles escutaram. Nós, em primeiro lugar, procuramos fazê-lo entender que não vínhamos representando a uma tendência "x" ou "y", seja ela partidária, política ou ideológica, mas havíamos vindo como pastores. Que não temos nenhum compromisso com qualquer partido político, mas que estamos muito próximos do nosso povo. Ouvimos indistintamente a uma ou outra pessoa e logo quisemos expressar-lhe o que já havíamos dialogado com o senhor presidente (Daniel Ortega), em 2014, sendo que algumas coisas permanecem vigentes e outras têm sido amplificadas", narrou o arcebispo de Manágua, que depois de prover essas declarações, desculpou-se por não poder continuar respondendo às perguntas dos jornalistas.

Dom Báez: A repressão, igual a que era vivida sob a ditadura de Somoza

Quem realmente foi claro ao responder as perguntas dos jornalistas, foi o carmelita Silvio José Báez Ortega, bispo auxiliar de Manágua, que assegurou aos repórteres e posteriormente em suas redes sociais, que os bispos haviam dialogado com Luis Almagro sobre a questão do fortalecimento institucional, a efetiva democratização do país através de um novo processo eleitoral com a observância nacional e internacional, a interrupção da manipulação dos sentimentos religiosos dos crentes, o pluralismo político, o fim de todas as formas de censura, repressão e chantagem por parte do governo de Ortega, do exército, da polícia e da defesa dos Direitos Humanos.

"Manifestamos a ele nossa preocupação pela agressão violenta aos trabalhadores rurais esta semana, como um dos sinais de desintegração social e política no país. Realmente lhe mostramos nossa desaprovação a estes atos de agressão, que não eram vistos desde os tempos da ditadura de Somoza e que nos preocupa imensamente. Ele (Luis Almagro, Secretário Geral da OEA) já a conhecia (a repressão estatal contra a marcha dos trabalhadores rurais desta semana) mas nós pudemos também acentuar e enfatizar isso", manifestou o Bispo Silvio José Báez.

Da mesma forma, assim como o Cardeal Leopoldo Brenes Solórzano fez, Báez insistiu que o documento Em Busca de Novos Horizontes por uma Nicarágua Melhor foi a base usada pelos bispos para expor a Luis Almagro a atual situação na Nicarágua.

"O documento apresentado ao Presidente da República, em 21 de maio de 2014 foi o documento-guia para a nossa posição frente ao secretário da OEA. O que mostramos com este documento? Em primeiro lugar, a deterioração progressiva das instituições do país, a falta de separação dos poderes na Nicarágua, a concentração de poder em apenas um casal, uma família e as pessoas mais próximas.

Segundo Dom Báez, a solução a longo prazo dos problemas políticos da Nicarágua está em uma educação política ao nível do povo para que desapareçam as figuras caudilhistas ou de "homens fortes" que têm prevalecido nos duzentos anos de vida republicana que o país centro-americano possui.

"Vemos como solução a longo prazo, uma educação política que mude a mentalidade geral. Não tanto dos líderes, mas de todo o povo. Recordamos que nesse documento dissemos que na Nicarágua, infelizmente, somos herdeiros de uma cultura caudilhista e, ao mesmo tempo, fraudulenta, que marca a política do país. A curto prazo, manifestamos também que acreditamos que a única solução para poder garantir que na Nicarágua tenham instituições fortes e governos legítimos é o que falamos há dois anos atrás: a realização de eleições honestas, transparentes e observáveis", expressou o bispo auxiliar de Manágua.

Dom Báez foi interrompido diversas vezes por um jornalista da rede de televisão Multinoticias, de linha oficialista. O comunicador tentou inutilmente desviar o discurso do bispo para mencionar o que o governo de Ortega vende como sua maior conquista: o crescimento macroeconômico de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e o modelo corporativista de aliança com o grande capital e os sindicatos.

"Nos concentramos sobretudo no aspecto institucional. Entregamos a ele, na íntegra, uma cópia do documento completo do dia 21 de Maio de 2014. (Não abordamos questões econômicas) porque para a OEA o que mais lhe interessa é fazer cumprir a Carta Democrática Interamericana. E então a institucionalidade ocupava um lugar importante", respondeu o bispo Báez ao jornalista do governo.

No entanto, frente a insistência do jornalista oficialista para perguntar ao Bispo Báez sobre a questão econômica, Dom Báez decidiu responder à pergunta formulada pelo Religión Digital sobre o uso e manipulação dos símbolos e emblemas religiosos por parte do governo de Ortega, que oficialmente se proclama como "cristão, socialista e solidário".

"Um dos aspectos que também mencionamos, porque, como pastores, nos preocupa, é a manipulação do povo. Seja de um lado, seja de outro. Das organizações que querem usar os pobres, os camponeses, o povo em geral, como buchas de canhão, até a manipulação do governo com os símbolos religiosos, tocando no que é mais sagrado que o nosso povo possui e usando a religião como um meio de dominação ideológica", disse Dom Báez Ortega, concluindo assim a sua apresentação frente à imprensa nacional e estrangeira.

Bispo Sándigo Jirón: "Estão manipulando os trabalhadores rurais"

Outro que também conversou separadamente com a imprensa nacional e estrangeira ao sair da reunião com o secretário da OEA foi o bispo de Chontales e Río San Juan, Sócrates René Sándigo Jirón, que, rodeado principalmente por meios de comunicação oficialistas, fez declarações fortes contra o movimento camponês, denunciando que, segundo ele, estejam sendo manipulados por representantes do Movimento Renovador Sandinista (MRS, partido social-democrata, opositor ao governo de Ortega) e ONGs que recebem financiamento estrangeiro sediadas na cidade de Manágua, a capital.

"O MRS sempre esteve presente lá, manipulando os nossos camponeses e organizações não governamentais que pegam nossos trabalhadores rurais para suprir aquelas demandas justas e injustas e os lançam como buchas de canhão para serem maltratados e encarcerados", manifestou em tom raivoso o bispo Sándigo, que pediu para que parem de manipular os camponeses.

O prelado de Chontales insistiu que deve ser em uma mesa de diálogos, e não mediante mobilizações, que devem se resolver as inquietudes do campesinato em torno do projeto do canal interoceânico. Cabe assinalar que, no momento destas declarações, Dom Sándigo estava praticamente cercado por jornalistas pró-governo, sendo o Religión Digital o único meio de comunicação independente que se encontrava no local.

"É uma irresponsabilidade estar lançando nossos trabalhadores rurais assim. Certamente há uma inquietude que deve ser ouvida em uma mesa de diálogo e nós, como Igreja, sempre convocamos as pessoas para que nos sentemos a dialogar, para que nos ouçamos", continuou a expressar o bispo Sándigo, em tom claramente transtornado, garantindo aos jornalistas que "Nossos agricultores colocam o pão em nossas mesas. O pão que vocês comeram hoje. A carne que vocês irão comer hoje é a carne que os nossos trabalhadores rurais produzem. Temos que respeitá-los por isso e não podemos incumbi-los de serem bucha de canhão.

O camponês tem um coração sincero. Ele tem uma mente pura e temos que respeitá-la. Não podemos fazer disto uma oportunidade para manipulação".

Sobre a repressão ao campesinato pelo governo de Ortega, exército e polícia, o Bispo Sándigo manifestou ser um "erro" que, caso continue sendo cometido, poderá trazer consequências graves para a paz social do país.

"O desejo de tirá-los (os camponeses) de suas terras é uma questão que precisa justamente ser dialogada, que sentemos à mesa, porque muitos ecos são ouvidos. Muitas dessas coisas são simplesmente falatório. São questões midiáticas, e o camponês é tão puro de coração que tudo o que ouve, acredita. Não filtra. (...). O que temos visto nos últimos dias não justifica em absoluto a atuação da polícia que também nasce do povo de Deus. Para mim, é um dos muitos erros que como nação viemos cometendo nos últimos tempos. E temos de corrigir esses erros. Se não estamos atentos, se não escutamos, se não corrigimos, então esses erros podem nos levar à maus caminhos", explicou de maneira enfática o bispo René Sándigo Jirón.

Para a pergunta do Religión Digital sobre se as denúncias de suposta manipulação do movimento camponês eram compartilhadas por outros bispos da Nicarágua, Dom René Sándigo limitou-se a dizer: "É o sentimento de muitos de nós e creio que temos de apelar para que respeitem os nossos trabalhadores rurais".

As declarações de Dom Sándigo não caíram bem no movimento camponês organizado no Conselho Nacional em Defesa da Terra, Lago e Soberania (CNTLS), que aglutina as demandas de revogação da lei 840, que expropriaria as terras ao longo do projeto do canal interoceânico. Tampouco caiu bem nas redes sociais onde muitos criticaram a permissividade mostrada pelo Arcebispo Brenes e o Bispo René Sándigo Jirón frente os abusos do governo Ortega, que em janeiro de 2017 completará uma década no poder.

A reação mais forte a Sándigo, veio do seio da Igreja. Em suas redes sociais, Dom Silvio José Báez, em uma série de mensagens, expressou seu pleno apoio ao movimento camponês organizado, fortemente reprimido pelo governo, dois dias antes da visita do Secretário-Geral da OEA, enquanto tentavam chegar à Manágua para que suas queixas fossem escutadas.

"A minha solidariedade para com o Movimento Camponês em Defesa da Terra, Lago e Soberania. O mais autêntico movimento social do país!", escreveu Dom Báez em seu perfil no Twitter: @israeldej94

Em outro tweet, o Bispo Silvio José Báez compartilhou uma fotografia com o Papa Francisco, feita recentemente por Báez durante visita ao Vaticano, com a seguinte frase: "Sempre diga a verdade. Deus está com aqueles que dizem a verdade"(Me recomendou o Papa Francisco enquanto almoçávamos em Roma, em 16/09/16)".

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