Os três ecumenismos do Papa Francisco. Artigo de Massimo Faggioli

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03 Novembro 2016

"O ecumenismo do Papa Francisco é um dos aspectos mais complexos do pontificado, que custa a chamar a atenção como os pronunciamentos do papa sobre outras questões mais clássicas para a definição dos alinhamentos internos ao catolicismo e para as relações entre Igreja e mundo moderno."

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado no sítio L'Huffington Post, 01-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A viagem do Papa Francisco à Suécia marca uma etapa importante no caminho ecumênico da Igreja, iniciado no Vaticano II pouco mais de 50 anos atrás.

Francisco é um filho do Vaticano II, também e sobretudo pela sua visão ecumênica. A Declaração Conjunta assinada pelo papa e pelo bispo Munib Younan, presidente da Federação Luterana Mundial, cai no 17º aniversário da , assinada em Augsburg, Declaração Conjunta sobre a Justificação, na Alemanha, no dia 31 de outubro de 1999. Apenas 17 anos atrás, mas um mundo em parte diferente de hoje: no mundo pós-11 de setembro de 2001, o cristianismo é tentado a se tornar a coluna da civilização ocidental. Mas também era uma Igreja Católica em parte diferente da de hoje, em que a questão ecumênica também se tornou uma questão interna e não apenas de relações com as outras Igrejas.

Nesse sentido, a viagem de Francisco à Lund que viu nascer a Federação Luterana Mundial em 1947, vê três ecumenismos diferentes.

O primeiro ecumenismo é o das relações bilaterais, das comissões dos teólogos e dos prelados que discutem documentos que, depois, as Igrejas deverão aprovar ou rejeitar, ou aprovar e colocar em uma gaveta. Francisco vê um papel nesse ecumenismo das comissões e dos documentos, mas sem se deixar frear por esse tipo de relação que é típico do ecumenismo do período depois do Vaticano II e que trouxe frutos importantes, especialmente no que diz respeito às relações com os luteranos, os anglicanos e os ortodoxos.

Depois, há um segundo tipo de ecumenismo, do qual Francisco falou muitas vezes: "o ecumenismo do sangue", a fraternidade dos cristãos de todas as Igrejas e tradições teológicas diante das perseguições no Oriente Médio, África e Ásia. O martírio como fonte teológica está redefinindo o ecumenismo mais do que os sistemas teológicos e eclesiásticos no Ocidente se dão conta. A questão dos refugiados que fogem das perseguições é uma questão humanitária e política, mas também inter-religiosa e ecumênica. Das discussões sobre a "hospitalidade eucarística" (dar a comunhão a cristãos que são membros de outra Igreja, não católico-romana) passou-se ao problema da hospitalidade tout court daqueles que (incluindo muitos cristãos, católicos ou não) fogem da morte e da destruição: não é uma questão teologicamente menos relevante do que a da comunhão eucarística.

Por fim, há o terceiro tipo de ecumenismo, aquele sobre o qual se hesita em falar na Igreja Católica, porque é o mais difícil e delicado: o ecumenismo intracatólico entre católicos de devoções e fidelidades diversas, que o Papa Francisco insistentemente chamou ao diálogo e à rejeição do sectarismo. Francisco apelou várias vezes aos diversos movimentos católicos para coexistirem nas Igrejas locais, sem tentações de ocupar espaços ou de reivindicar direitos de primogenitura.

Para a Igreja Católica, em um país como a Suécia, onde os católicos são uma pequena minoria, e muitos dos católicos são neocatólicos, convertidos quando adultos, moldados por um catolicismo militante, o pontificado do Papa Francisco é mais problemático do que em outras Igrejas ainda dominadas por aquilo que a sociologia religiosa chama de "cradle Catholics", católicos desde o berço, à vontade (às vezes demais) como católicos no pluralismo das sociedades ocidentais. Outra parte da Igreja sueca é feita de católicos suecos de língua árabe que são "cradle Catholics", relutantes em abraçar um catolicismo identitário ocidentalista.

Esse composto de catolicismos diversos dentro de uma mesma Igreja já é típico do catolicismo mundial: daí a urgência de redescobrir um ecumenismo intracatólico em uma época de tentações identitárias usadas também para marcar diferenças entre catolicismos diversos. Não é apenas uma piada que, para muitos católicos, é mais fácil entrar de acordo com os protestantes ou com os ortodoxos do que com outros católicos.

Francisco teceu esses três ecumenismos durante o seu pontificado. Não é por acaso que as iniciativas ecumênicas do pontificado sejam particularmente desagradáveis para os antipatizantes do Papa Bergoglio, que gostariam de rejeitar todos os três ecumenismos mencionados: o ecumenismo pós-conciliar (de acordo com eles, no Vaticano II, não teria acontecido nada de relevante ou de vinculante), o ecumenismo do sangue (que, segundo eles, não deve mudar em nada a postura de superioridade do catolicismo sobre as outras Igrejas e não deve levar a uma interpretação menos identitária do catolicismo) e o ecumenismo intracatólico (sendo a sua militância uma razão de ser que diz pouco sobre o que é o cristianismo).

O ecumenismo do Papa Francisco é um dos aspectos mais complexos do pontificado, que custa a chamar a atenção como os pronunciamentos do papa sobre outras questões mais clássicas para a definição dos alinhamentos internos ao catolicismo e para as relações entre Igreja e mundo moderno. Bastou a pergunta mal feita de um jornalista para levar o papa repetir o que já ele já disse sobre a ordenação feminina, e para fazer com que o news cycle católico global esquecesse a importância dos gestos e das palavras de Lund e Malmö – gestos e palavras sobre os quais a coletiva de imprensa no voo papal ficou em silêncio. Por sorte, a memória da Igreja tem tempos mais longos.

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