O Cântico dos Cânticos e a polifonia da vida. Artigo de Christian Albini

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22 Outubro 2016

"O amor terreno, com a sua conotação sexual, pode nos aproximar a Deus, pode nos falar dele, e, ao mesmo tempo, a fé educa a nossa capacidade de amar, orienta-a ao seu ápice. Não existe vivência de fé estranha ao corpo, e não há espiritualidade estranha ao corpo."

A opinião é do teólogo leigo italiano Christian Albini, coordenador do Centro de Espiritualidade da diocese de Crema, na Itália, e sócio-fundador da Associação Viandanti. O artigo foi publicado no blog Sperare per Tutti, 20-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Beija-me com os beijos de tua boca!
Sim, os teus abraços me excitam mais do que o vinho,
(Cântico dos Cânticos 1, 2)

Muitos poderiam ficar surpresos ao saber que essas palavras abrem um livro que faz parte da Bíblia e está impregnado de imagens de amor terreno e de erotismo. Precisamente por isso, a sua inclusão na lista dos livros bíblicos foi fortemente debatido entre os mestres judeus do século I d.C., e foi a opinião abalizada do rabino Aqiva (o "chefe de todos os sábios", de acordo com o Talmude) que fez com que ele fosse aceito: "O mundo inteiro não vale o dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel, porque todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos santos".

Tradicionalmente, a leitura judaica vê nesse texto uma celebração do amor entre Deus e o povo de Israel, que os intérpretes cristãos entenderam mais como alegoria do amor entre Cristo e a Igreja. É há menos de um século que o pêndulo mudou de direção e começou a ler o Cântico não mais em chave predominantemente espiritual, mas em primeiro lugar como canto do amor erótico humano. O sinal dessa mudança foi dado por uma das cartas da prisão de Dietrich Bonhoeffer, que remonta a 1944:

"Eu gostaria de ler o Cântico dos Cânticos como um cântico de amor terreno. Provavelmente, essa é a melhor interpretação cristológica."

Atenção: Bonhoeffer não fala de uma interpretação exegética, como estudioso da Bíblia – embora os próprios exegetas já tomaram esse caminho –, mas sim de uma interpretação cristológica: reconhecendo no Cântico um texto sobre o amor terreno, chega-se a compreender Cristo e, vice-versa, a partir de Cristo, compreendemos o Cântico como tal. A fé em Cristo está no sinal da encarnação: Deus que assume a nossa humanidade, torna-a própria com toda a sua dimensão corpórea, afetiva e sensual. Jesus não exerceu esta última na relação com uma mulher, mas mesmo assim a viveu em plenitude. E é assim que Ele nos narrou Deus, no-Lo revelou.

O amor terreno, por isso, com a sua conotação sexual, pode nos aproximar a Deus, pode nos falar dele, e, ao mesmo tempo, a fé educa a nossa capacidade de amar, orienta-a ao seu ápice. Não existe vivência de fé estranha ao corpo, e não há espiritualidade estranha ao corpo.

Sim, efetuou-se uma inversão: se toda a tradição judaica e cristã tinha lido o Cântico de modo "espiritual", no século passado aparece como vencedora, na maioria dos exegetas, uma interpretação humana, erótica dele, enquanto são raríssimos os comentários coerentes com tradição.

Além disso, a Bíblia se tornou "o grande código", e todos podem interpretá-la... João Paulo II, no seu magistério, várias vezes foi ao Cântico para ler nele a beleza criatural, desejada por Deus, do corpo, da diferença sexual, do amor e do prazer.

Enzo Bianchi escreve isso introduzindo uma esplêndida antologia das leituras do Cântico, de Orígenes até os nossos dias (Il più bel canto d'amore [O mais belo canto de amor], Ed. Qiqajon). Ao ler esse texto, voltando a Bonhoeffer, descobrimos o amor como cantus firmus em relação ao qual o amor terreno é uma voz de contraponto. Um não enfraquece o outro, deixa-lhe a sua autonomia e está em relação com ele: estão juntos, soam juntos, sem se separar. É apenas quando nos encontramos nessa polifonia que a vida alcança a sua totalidade.

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