“Só as polícias não darão conta das duas facções”, diz ex-líder do Comando Vermelho

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19 Outubro 2016

Quem assiste o pastor Aldidudima Salles, 53, pregando o evangelho com uma bíblia debaixo do braço não imagina que ele participou da fuga mais ousada da história do sistema carcerário brasileiro. Em 31 de dezembro de 1985, ele, então conhecido como Ligeirinho, uma das lideranças do Comando Vermelho, estava no helicóptero que pousou no pátio do presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, para resgatar José dos Carlos Reis Encina, vulgo Escadinha, fundador da organização. Fora do crime e convertido há 31 anos, Salles, que admite ter cometido mais de 26 homicídios e diz ter comandado mais de 6.000 traficantes no Rio de Janeiro, é taxativo ao falar sobre o fim da paz entre o Primeiro Comando da Capital e o CV, desencadeada após rebeliões em presídios no domingo:

“Vai haver guerra”, disse ele, que sugeriu que as ações das polícias podem ser insuficientes para conter a reverberação do problema. A frase soa dramática, mas não é muito distinta da dita pelo secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, que disse ao site G1 nesta terça-feira que "a guerra recomeçou" - ainda que tenha frisado que, à diferença de outros Estados, não há "nenhuma insegurança" em São Paulo.

A entrevista é de Gil Alessi, publicada por El País, 18-10-2016.

Eis a entrevista.

Você acha possível que o Comando Vermelho e o PCC retomem seu pacto de aliança?

É difícil um acordo a essa altura, a não ser que os chefões das duas facções tentem controlar isso. Mas é difícil haver um acordo depois das mortes que ocorreram nos presídios de Roraima e Rondônia. Ainda mais naquelas circunstâncias [dia de visita, considerado o mais importante para os presos].

O que pode ter causado o rompimento?

Quando aconteceu a morte do rei da fronteira, o Rafaat [Jorge Rafaat Toumani, traficante assassinado em Juan Caballero, fronteira do Brasil com Paraguai, em junho deste ano], eu comentei que aquilo não ia dar boa coisa. Ele foi morto pelo PCC e pelo CV [há versões de que foi apenas o PCC que atuou na ação e outra de que foi uma ação conjunta, com posterior batalha pelo domínio da rota deixada pelo traficante]. É experiência de ter vivido dentro de uma facção. Eu acho que romperam por luta de poder: o CV não aceita receber ordem. O PCC idem. Então deve ter havido essa separação por um querer mandar mais que o outro. E no final de contas, o dinheiro sempre fala mais alto.

O que deve acontecer agora?

Eu acredito que não vai ficar barato, que vai ter uma guerra. Se o Governo Federal não colocar o Exército na rua, não vai ter jeito. Só as policias civil e militar dos Estados não dão conta de lidar com duas facções desse porte, com esse tipo de armamento que eles têm. E muita gente vai morrer.

E a situação das cadeias, você acha que acontecerão mais mortes?

Não acho, tenho certeza de que terão mais mortes nas cadeias. Se a Justiça não abrir o olho para controlar agora, pode ser que amanhã seja tarde.

Você mencionou o Rafaat. Na sua época de CV as conexões internacionais já eram importantes para o tráfico?

Naquela época as conexões internacionais já eram fundamentais. A droga entrava pelas fronteiras, Colômbia, Paraguai, Bolívia e Peru. Buscávamos de avião monomotor, voando bem baixo para não ser pego pelo radar. Fui treinado por Pablo Escobar Gaviria em Medellín, na Colômbia. O treinamento que recebi dele foi para mexer com droga, fazer ela render, dar mais dinheiro.

Quando você era do CV, a facção tinha alguma relação com criminosos paulistas?

Na minha época não existia PCC. Tinham traficantes de São Paulo para quem a gente repassava droga.

O CV de hoje em dia é diferente da facção da sua época?

Quando nós começamos o CV, nosso estatuto, era bem diferente. Tínhamos normas que eram cumpridas. Hoje em dia não tem mais norma, não. Respeitávamos pai e mãe, não violentávamos ninguém, não assaltávamos pobres... Não concordávamos com esse tipo de coisa. Nosso foco era droga e assalto a banco. Hoje se mata por cem reais, por um par de tênis.

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