Arcebispo americano fala de uma Igreja que seja “sacramento da misericórdia para o mundo”

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18 Outubro 2016

Dom Joseph Tobin, arcebispo de Indianápolis, diz que estava tão fora do circuito no domingo passado que só soube que havia sido nomeado cardeal pelo Twitter.

Mas, em pelo menos uma questão, ele e o papa parecem estar em perfeita sincronia: mostrar ao mundo que a misericórdia de Deus é a obra essencial da Igreja.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 12-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A misericórdia é um dos temas centrais do Papa Francisco. Tobin considera este assunto tão importante que deseja que a Igreja se torne “um sacramento da misericórdia” em nosso mundo.

Tobin, que no domingo, 9 de outubro, foi anunciado como um dos 17 prelados escolhidos por Francisco para se juntar à elite do Colégio Cardinalício, disse que a misericórdia é “uma revelação essencial da verdadeira natureza de Deus”.

Falando em entrevista por telefone, o cardeal-designado disse que o primeiro passo para a partilha da mensagem papal de misericórdia é refletir sobre a forma como temos sido os recipiendários da misericórdia em nossas próprias vidas.

“Em seguida, devemos assegurar que a nossa Igreja seja vista como um sacramento da misericórdia: isto é, uma conversão infinita de vida por nós enquanto Igreja”, disse ele.

Tobin, que como os outros 17 nomeados será feito cardeal durante uma cerimônia especial no Vaticano em 19 de novembro próximo, também falou da misericórdia no contexto da sua própria experiência pessoal de alcoólatra em recuperação que está sóbrio há 29 anos.

O cardeal-designado observou que a leitura do Evangelho para a missa de domingo passado, dia em que Francisco anunciou as novas nomeações cardeais, era o que ele chamou de “o Evangelho do alcoólico em recuperação ou do viciado em recuperação”.

A leitura, tirada do Evangelho de Lucas, conta a história de um leproso curado por Jesus que cai a seus pés para lhe agradecer o milagre.

“Ele vem de volta porque ele fez a ligação entre a sua libertação de uma doença terrível e desfigurante, que o afastava de quem ele realmente é das pessoas que ele ama”, disse Tobin. “E ele faz a conexão de que Jesus é Aquele que me libertou”.

“Eu não trago isso, a minha própria experiência, nas homilias ou em discursos públicos, porém não escondo, porque penso que seria falso”, disse ele. “E certamente seria ingrato com aquele em quem eu acredito que me redimiu”.

Mencionando sua filiação à ordem dos padres redentoristas – fundada por Santo Afonso de Ligório no século XVIII –, o cardeal-designado apontou para o lema da ordem, tomado de Salmo 130, que começa assim: “Das profundezas eu clamo para ti, Javé”.

“As quatro palavras em que nos interessamos e que Santo Afonso estabeleceu para nós são: Copiosa apud Eum Redemptio, que significam: ‘Com ele há Copiosa Redenção’”, explicou o prelado. “Eu costumava dizer aos meus irmãos que qualquer redentorista que esteja em recuperação sabe o que significa Copiosa (…)”.

Tobin já falou publicamente sobre o alcoolismo. Ele proferiu uma palestra sobre o assunto em 2013 em um programa de recuperação em Michigan para padres e clérigos chamado “Guest House”.

Bento XVI nomeou Tobin como arcebispo de Indianápolis em 2012. Morou em Roma por 15 anos servindo de 1997 a 2009 como chefe de sua ordem religiosa e, de 2010 a 2012, como o secretário para a Congregação para a Vida Religiosa, do Vaticano.

No sábado pela manhã, Tobin estava no sul do estado de Indiana depois de participar de um congresso sobre liderança das mulheres na Igreja. Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, disse que a abadia em que se encontrava no sábado tinha um sinal de celular muito ruim, e que só ficou sabendo de sua nomeação depois que as pessoas falaram com ele no Twitter.

“Acho que a reação inicial foi, e até certo ponto continua sendo, a de choque”, disse o cardeal-designado em entrevista ao National Catholic Reporter. “Algo assim eu não esperava”.

Tobin disse também que se sente “um pouco envergonhado, porque eu sei que há muitos bons líderes no serviço episcopal dos Estados Unidos e eu me pergunto se o Papa Francisco fez a melhor escolha”.

Na coletiva segunda-feira, o cardeal-designado disse que a Arquidiocese Indianápolis nos últimos quatro anos tem sido como um mestre para ele.

Aprofundando a questão na entrevista, Tobin falou que é “constantemente edificado e inspirado pelo amor da Igreja, por um vasto espectro de pessoas aqui [e] pela vontade delas de avançar, especialmente no testemunho do Evangelho”.

“Basicamente, é o tipo de atitude de acolhida destes cristãos católicos aqui que ajuda as pessoas a encontrarem um lar espiritual”, disse ele, explicando que a cada ano na Vigília Pascal a arquidiocese recebe cerca de 1.100 novos católicos na fé.

“Não é um emprego; não é uma carreira; é testemunho do povo aqui”, disse Tobin, antes de referenciar a sua própria decisão em dezembro de ir contra o desejo do governador de Indiana, Mike Pence, que pediu que a arquidiocese não reassentasse uma família de refugiados sírios até o Congresso aprovasse uma nova legislação imigratória.

“Acho que sempre podemos fazer um trabalho melhor, mas acredito também que há uma espécie de atitude-padrão de acolhida, seja com a crescente população hispânica da arquidiocese, seja – em um incidente que alcançou certa notoriedade – com o apoio esmagador aos refugiados sírios que foram assentados aqui”, disse ele.

Como muitos bispos diocesanos, Tobin escreve uma coluna semanal para o jornal arquidiocesano, The Criterion.

Dez de seus artigos no ano passado focaram aspectos diferentes da mensagem de misericórdia do papa, com uma delas centrando-se na recente exortação apostólica Amoris Laetitia (“A Alegria do Amor”) e sua mensagem de inclusão ao ministério de Igreja dos fiéis divorciados e novamente casados no civil.

Perguntado sobre como a exortação estava fazendo a diferença na vida das pessoas em Indianápolis, Tobin respondeu: “Penso que nós bispos precisamos fazer mais, no sentido de desenvolver esse tema na Igreja”.

“O documento Amoris Laetitia não é facilmente redutível a tuítes, ou mesmo a respostas a uma única pergunta: Essas pessoas podem ou não podem?” disse ele, fazendo referência à questão de saber se as pessoas divorciadas que voltaram a casar sem ter a anulação matrimonial podem, ou não, receber a Comunhão em certas circunstâncias.

“É todo um processo, penso eu, rico e desafiador (...), processo de formação das consciências à luz do Evangelho e da tradição da Igreja”, disse Tobin. “Acho que seria um erro tentar reduzir a questão a uma resposta simples”.

Alguns bispos americanos vêm respondendo de forma divergente à exortação. O Cardeal Donald Wuerl, de Washington, contou recentemente ao National Catholic Reporter que Amoris Laetitia é um documento enraizado na tradição católica, enquanto o arcebispo de Portland, Dom Alexander Sample, escreveu uma carta pastoral buscando corrigir o que chamou de “usos problemáticos” na exortação.

Questionado sobre essa dinâmica, Tobin respondeu: “Creio que o que os bispos precisam fazer é falar uns com os outros, sempre invocando o Espírito Santo para nos ajudar a enxergar”.

“Acho que se fizermos isto com um coração sincero e com a intenção certa, então podemos ter uma espécie de ‘espectro de opiniões’, sem o risco de cisma ou desobediência ao sucessor de Pedro”, disse o cardeal-designado.

Observando que os bispos dos EUA nomearam um grupo de trabalho para a implementação de Amoris Laetitia, liderado por Dom Charles Chaput, arcebispo da Filadélfia, Tobin disse esperar que durante o encontro episcopal anual em novembro “eles [os bispos] possam ter uma discussão franca, fraterna e pastoral sobre o texto”.

O cardeal-designado também está trabalhando na escrita de uma carta pastoral sobre a exortação, baseando-se parcialmente em seus artigos. A carta ainda está em fase de elaboração.

Em relação ao que acha que Francisco mais necessita de seus cardeais, Tobin disse o pontífice pode se beneficiar do fato de poder ter uma boa ideia do que está acontecendo na Igreja ao redor do mundo.

“Quando lido com organismos consultivos, nos quais confio bastante, digo que a primeira missão deles é me contar a verdade”, disse. “E eu acho que, na medida em que o Colégio Cardinalício é capaz de fazer isso para o Santo Padre (...) há boas chances conseguirmos transmitir-lhe a realidade da Igreja em circunstâncias um tanto diferentes”.

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