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28 Setembro 2016

“O caráter único da inveja, entre todos os pecados capitais, é que ela é o único pecado onde o gozo direto está excluído. Não o é o pecado da gula, não o é o pecado da ira, da luxúria, nem o da afirmação orgulhosa de si. O invejoso não goza de nada, senão do seu próprio tormento sem paz. Sua carreira, como aquela do ódio, segundo uma subtil definição de Lacan, é sempre "sem limites”. Não encontra, na verdade, nunca um fundo, uma saciedade, uma satisfação definitiva. Nem mesmo a morte do invejado sacia sua fúria invejosa. Porque a inveja nunca é inveja "de algo" (de uma propriedade ou de uma qualidade particular do invejado), mas da sua vida, da vitalidade do outro”, escreve Massimo Recalcati, psicanalista e escritor italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 25-09-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

Para os Padres da Igreja o orgulho é o pecado narcisista por excelência. Tomás de Aquino o especifica com elegância: "O orgulhoso é apaixonado por sua própria excelência". Trata-se de uma forma de idolatria que a idade hipermoderna particularmente exaltou: no lugar do culto a Deus acontece o culto ao próprio Eu, elevado à potência divina. Não é este o pecado príncipe do nosso tempo? Egocracia, "Eucracia", dizia Lacan. A ordem da criação foi virada de cabeça para baixo: o homem compete com Deus - figura radical da alteridade - negando sua dívida simbólica. Construir um nome para si mesmo, sem passar pelo Outro, é a figura mais delirante do nosso tempo. O culto orgulhoso de si mesmo implica, de fato, no desprezo cínico do outro. A vida humana desdenha todo sentido de solidariedade, dedicando-se unicamente ao potenciamento de si mesmo. Para os Padres da Igreja esta é a “vanglória”, de que se alimenta o orgulhoso: ser autônomo, independente, cancelar o débito, crer na loucura do próprio Eu autônomo e soberano. Por esta razão Lacan associou o culto narcisista de si à tentação do suicídio e à pulsão agressiva, como os dois lados da mesma moeda. O orgulhoso pode ser facilmente dominado pela ira, porque sua necessidade de atacar o Outro coincide com sua rejeição de qualquer experiência de limite. O orgulhoso, como o iracundo, considera-se sempre do lado da certo. A exaltação de si mesmo mostra total falta de autocrítica, o que facilmente pode desembocar na paranoia e megalomania.

O orgulhoso é alheio às críticas, porque sempre inocente e injustamente perseguido, afastado, marginalizado, excluído. A culpa é sempre dos outros, que nunca reconhecem plenamente seu valor absoluto. Não é por acaso que a clínica psicanalítica identificou – em consonância aqui com a grande sabedoria budista - no excessivo apego ao ego, o denominador comum das doenças mentais. Mas, ao mesmo tempo, o orgulhoso tem uma vida triste, porque incapaz de entrar em relacionamento com um Outro, que despreza supremamente. Seu destino não poderá ser outro do que aquele do mais agudo isolamento.

Não por acaso a paixão mais próxima do orgulho é a inveja, que mais uma vez, para os Padres da Igreja, é considerada como o "pecado dos pecados," o vício capital mais mortal. O termo “inveja” deriva do latim in-videre, que significa um olhar ruim, com o olho malicioso, com o mau-olhado. A inveja é uma doença do olhar? A invejoso sofre por aquilo que vê. Ele não tolerá a felicidade e a alegria dos outros. Como escreve Tomás de Aquino, o sofrimento do invejoso nasce da tristeza causada pelas bens dos outros. O invejoso é um ser que vive nas trevas, na obscuridade, chocando ressentimento e frustração em relação ao mundo. É, paradoxalmente, a outra face, a face na sombra, do orgulho. Seu olhar, como o mostra Nietzsche, na Genealogia da moral, é "severo" e "rancoroso". O invejoso não suporta a vida dos outros, que imagina, ao contrário da sua, sempre cheia. Não é estranho que também o orgulho e a inveja foram considerados por Tomás como paixões conectadas. O orgulhoso não consegue suportar a visão de outros que ufanam mais prestigio que o seu; a inveja adere ao orgulho como a hera na parede. Mesmo, ou especialmente, quando o orgulho se mascara de falsa humildade. É uma doença típica do homem religioso: a mortificação e o sacrifício de si são realizados como manifestação de uma elevação moral superior, destinada a escavar no outro sentimentos de culpa e de indignidade.

O caráter único da inveja, entre todos os pecados capitais, é que ela é o único pecado onde o gozo direto está excluído. Não o é o pecado da gula, não o é o pecado da ira, da luxúria, nem o da afirmação orgulhosa de si. O invejoso não goza de nada, senão do seu próprio tormento sem paz. Sua carreira, como aquela do ódio, segundo uma subtil definição de Lacan, é sempre "sem limites”. Não encontra, na verdade, nunca um fundo, uma saciedade, uma satisfação definitiva. Nem mesmo a morte do invejado sacia sua fúria invejosa. Porque a inveja nunca é inveja "de algo" (de uma propriedade ou de uma qualidade particular do invejado), mas da sua vida, da vitalidade do outro.

O que o invejoso não suporta do outro é a manifestação da vida diferente, da sua força geradora. Enquanto morre de inveja observando o invejado, o sujeito invejoso reconhece implicitamente - sem nunca admiti-lo - a excelência de quem inveja, e se atormenta, devido a incapacidade de alcançar o mesmo prestígio. O invejoso está, na verdade, já morto, e por isso não pode que invejar a vida do outro. Nunca se invejam pobres almas, lembra Aristóteles, mas apenas aqueles que nós sentimos próximos, assim como originalmente Cain invejou Abel.

Invejamos o Outro como encarnação do nosso ideal inconfessado. Por isso a inveja ocorre sempre tendencialmente entre semelhantes, e nunca entre diferentes; entre vizinhos, entre irmãos, entre os colegas, mesmo entre os amantes, mas não entre estranhos. Não é por acaso que a difamação é uma de suas manifestações mais puras: destina-se a derrubar o invejado, humilhá-lo, enlameá-lo, maculando sua imagem, porque sua presença, na vida do invejoso, é de tal forma constante e invasiva, que se torna insuportável. A maledicência quereria corroer definitivamente o ser do invejado, aquele ser que é muito frequentemente o mais inconscientemente amado pelo invejoso.

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