"Entre sessões e seminários, eu vivi a utopia de Lacan"

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10 Setembro 2011

"Eu era o seu "mon cher monsieur Di Sciascià". Ele me chamava assim": Antonio Di Ciaccia, tradutor e curador da obra de Jacques Lacan, tinha 28 anos em 1972, quando encontrou o professor na École Freudienne de Paris.

A reportagem é de Luciana Sica, publicada no jornal La Repubblica, 08-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Houve um congresso, mas eu o tinha visto sair durante a minha fala. À noite, encontrei-o em uma recepção cheia de gente, passou perto de mim, dei-lhe a minha mão, e ele me disse: "Antonio!". Pego de surpresa, perguntei: "Mas você sabe o meu nome?"... "Você o disse esta manhã". E repetiu uma frase minha: "Diante da sua própria mulher, um analista não é um analista". Naquele tempo, eu estava em uma situação pessoal muito crítica, algo que lhe interessou muito realmente".

Eis a entrevista.

Por quê?

Porque então eu era um padre e vivia em um convento. Depois de me formar em Teologia, eu estudava Psicologia em Louvain, na Bélgica. Mas eu havia me apaixonado, e a minha vida estava uma bagunça. A paixão por um ideal havia colidido com uma paixão feita de carne.

Então o senhor começou a análise com Lacan.

Sim, e durou até a sua morte... No início, era para ser apenas um "controle". Eu já estava em análise, mas ele me fez entender rapidamente que eu devia falar de mim: "É preciso escolher, meu jovem. É preciso escolher". Mas contar sobre as sessões com Lacan é difícil, justamente porque elas não se assemelham com nada.

Enquanto isso, o senhor também frequentou o seminário entre 1972-1973 sobre o gozo feminino, que será publicado pela editora Einaudi com o título "Ancora". Como foi ouvir o seu mestre ao vivo?

O seminário me tocou muito, pelo menos por uma razão: com Encore – que na pronúncia francesa também pode significar "um corpo" e "em corpo" – a jouissance da mulher se situa em uma dimensão mística. E eu li João da Cruz e Santa Teresa d"Ávila aos 16 anos. Na época, eu entendia um milésimo do que Lacan dizia, enquanto hoje – tendo todos os seus seminários à disposição – eu acho que captei aquela sua lógica de ferro, embora às vezes confusa.

Um pouco mais confuso é o Livro XX – como sempre "estabelecido" por Jacques-Alain Miller, filho e e guardião do Verbo lacaniano. Existe uma pista para torná-lo mais acessível?

"O que quer uma mulher?": Lacan retoma aquela questão não resolvida que o último Freud formulou em 1933, seis anos antes de morrer. E tenta uma resposta, que intrigou muito o feminismo e o seu pensamento da diferença. A mulher – diz Lacan – é tomada por um gozo que não é o masculino e não é complementar, mas é mais, é outra coisa. Se o gozo masculino está centrado em uma só parte parte do corpo, o feminino se fundamenta, ao contrário, na singularidade e pode levar à experiência da alegria mística. Se o macho goza a partir do seu poder, a mulher pode gozar a partir da pura existência e, de objeto de prazer, tornar-se causa do desejo.

Como se dissesse, no gozo, a mulher reivindica não ser una, mas única?

A mulher que diz: "Eu sou a única!" é louca – e o mesmo vale para os homens, que, em geral, porém, não se sentem únicos, mas sim "a exceção". O que Lacan indica é que as mulheres, mas eventualmente também os homens, podem chegar a uma unicidade que corresponde ao seu ser, a dizer algo como "eu sou isto, consigo ser assim, e esse gozo é meu e de ninguém mais"... Para Lacan, depois, é o próprio analista que deve se ater à posição feminina, levando o paciente a ser não "como todos", mas "como é". E, no plano político, talvez hoje ainda pode parece uma utopia, há um forte antagonismo a uma sociedade ordenada sob o signo da gregariedade e da "descoberta" de que todos, um por um, tem algo criativo a dizer.

O que o senhor lembra hoje de Lacan principalmente?

Lembro um homem muito vivo, que lhe colocava diante do seu problema de um modo também muito vivo. Ele parecia impetuoso, tinha uma atitude do tipo "vamos, se mexa!". Era sempre irônico, fazia piada do mundo e de si mesmo, não se levava a sério e, ao contrário, também ficava entediado com toda aquela atenção...

Nos últimos anos, Lacan tendia a cair na afasia, tinha comportamentos desconcertantes com os pacientes que chegava até a maltratar... Ele lhe parecia equilibrado?

Eu sempre o vi como alguém normal. Tranquilo, tranquilíssimo.

Lacan, para o senhor, não representaria uma religião secular?

Eu diria que não, ou pelo menos assim espero. Para mim, ele é alguém que entendeu como funciona essa coisa que chamamos de inconsciente: palpitante como um coração, uma boca, uma zona erógena que se abre e se fecha.

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