Paz das religiões, a reviravolta de Assis. Artigo de Angelo Scelzo

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22 Setembro 2016

"Assis é a casa reconhecida da paz dos cristãos, e esse novo encontro é mais um convite que a maior de todas as confissões ofereceu a todas as outras para rejeitar e esvaziar de sentido a expressão ‘guerra religiosa’, que todas juntas condenam."

A opinião é do jornalista italiano Angelo Scelzo, ex-vice-diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé até abril deste ano. O artigo foi publicado no jornal Il Messaggero, 21-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Para os cristãos, falar de paz em Assis, terra de São Francisco e com o Papa Francisco, é tão natural quanto fazer o sinal da cruz. Começa-se pelo essencial ou, melhor, retorna-se ao essencial a uma distância de 30 anos daquele encontro de paz que foi uma das grandes intuições de João Paulo II, no meio de uma Guerra Fria que, apenas três anos depois, com a queda do Muro de Berlim, tomava o caminho dos arquivos.

Sepultada uma fórmula, porém, a paz não ressuscitou de repente, assediada por vários lados, derrotada e até mesmo humilhada pelo surgimento daquela guerra em pedaços que entrou com direito próprio no vocabulário franco e direto do Papa Francisco.

Mas Assis é o outro nome da paz, a sua nostalgia perene, que cresce tanto quanto a palavra passa para as armas no mundo e os locais de conflito marcam a fogo uma triste geografia do ódio e da violência. E da paz, não só a dos cristãos, Assis é também o altar; e nada mais natural, pensando nas infâmias, ou mesmo nas esperanças da terra, do que levantar os olhos ao céu ou, ao menos, deixar de lado aqui as palavras que não serviram à paz.

Não é aqui, disse o Papa Francisco, retomando João Paulo II 30 anos depois, que se vem buscar "resultados de negociações, de compromissos políticos ou de mercadejos econômicos". O risco é sempre o das mãos vazias.

Então, no ano do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, na paz e na sua ausência, Francisco, peregrino na terra do Santo, retomou o fio das obras de misericórdia, que têm o sabor, sim, de ternura – dar de beber a quem tem sede – mas que expressam, para aqueles que delas se abstêm, condenações duras e inapeláveis.

A sede, ainda mais de fome, diz o papa, é a necessidade extrema do ser humano, mas também representa a sua miséria extrema. A sede é a paz que falta, é "o vinagre amargo do descarte", oferecido em traição àqueles que imploravam uma mão, "o egoísmo daqueles que se estafaram", a "frieza daqueles que abafam o grito de ajuda com a facilidade com que se troca de canal de televisão".

Tons de meditação e eco solene das escrituras, mas palavras e gestos de quem vê e não se cansa de assinalar que, nos bancos de uma globalização distorcida e sem alma, há uma abundância de mercadorias danificadas e que podem pôr em perigo até mesmo a paz. O dado novo em um mundo que mudou de rosto é precisamente este: a guerra em pedaços fez crescer, difundindo-a bem além das fronteiras dos seus territórios envenenados, a erva daninha da estranheza e do desinteresse em relação aos destinos do outro.

É o drama dos corações extintos e ressecados que pode ter dentro de si a força sacrílega de religião de ponta cabeça. E, diante dos líderes das maiores confissões do mundo, o Papa Francisco recorreu a uma fórmula extrema, o "paganismo da indiferença" para advertir e sacudir, mas acima de tudo para dar à paz não a força de um apelo a mais, mas o vigor de uma conversão real, testemunhada também pelas palavras inequívocas contra a ameaça terrorista.

Se é importante que as religiões consigam falar entre si (e rezar juntas, e não contra, deixando de lado, como nessa terça-feira, as ambiguidades sincretistas), é ainda mais necessário que sejam elas que indiquem por primeiro a uma humanidade perdida que a paz é um horizonte comum.

Na visão de Francisco, a paz que sacode, ainda mais hoje, não pode ficar em silêncio, olhando para a angústia de povos, para os êxodos forçados de idosos e de crianças que não conheceram nada mais na vida senão a violência. Também não pode ficar indiferente diante daqueles que, em vez de condenar as guerras, se enraivece contra aqueles que dela buscam refúgio. E muito menos diante da súplica de paz que vem das tantas vítimas dos conflitos.

O espírito de Assis não reapareceu novamente vivo apenas para as imagens, os abraço festivos e incomuns de paz trocados no palco em frente ao Sacro Convento, as cores ou as sugestões que remeteram ao passado: nunca uma assembleia ecumênica e inter-religiosa tinha sido tão numerosas e representativa; sinal de um diálogo que avançou e nos tornou mais conscientes das grandes responsabilidades comuns.

É evidente que, mais ainda do que a paz, é a guerra, particularmente hoje sob o impulso perverso do bárbaro fanatismo jihadista, que põe em causa as religiões. Não só os conflitos oficiais, mas também toda a grande quantidade de violência do nosso tempo, começando pelo terrorismo, trazem à tona a raiz dos seus totalitarismos, que parecem inelimináveis e que tornam ainda mais trágico.

Assis é a casa reconhecida da paz dos cristãos, e esse novo encontro, promovido pela Comunidade de Santo Egídio, é mais um convite que a maior de todas as confissões ofereceu a todas as outras para rejeitar e esvaziar de sentido, todas juntas, uma expressão, "guerra religiosa", que todas juntas condenam.

Paz das religiões pode ser a reviravolta de Assis 2016. Ou, ao menos, o início de um novo caminho.

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