O poder e a fragilidade da relação humana com a natureza. Artigo de Aldo Schiavone

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13 Setembro 2016

"O poder da técnica acumulada antes lentamente em milhões de anos e, depois, de modo vertiginosamente rápido no último século está invertendo em nosso favor relações de força entre humano e natural que nós acreditávamos que fossem imutáveis, quebrando todas as fronteiras recebida, até o ponto de tornar cada vez mais difícil a distinção entre natureza e artifício, entre possível e impossível, entre naturalmente produzido e artificialmente construído."

A opinião é do historiador e jurista italiano Aldo Schiavone, ex-professor das universidades de Nápoles, Bari e Pisa. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 10-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não saberia dizer se vocês se deram conta. Mas, nos dois discursos públicos, aparentemente distantes, que encheram as crônicas destes dias – primeiro, sobre o chamado "trans-humanismo", depois sobre as consequências trágicas do terremoto [na Itália] (negligência dos homens ou imprevisibilidade do ambiente?) – acabou emergindo o mesmo problema, que é, talvez, o maior dos nossos tempos: o da relação com aquilo que chamamos de natureza, dentro e fora de nós. Uma relação em que estamos expressando, juntos, um inimaginável poder e uma dramática fragilidade.

Devo confessar que sempre achei insuportável a palavra "trans-humanismo": esteticamente desagradável e conceitualmente equivocada. Ela sugere a ideia de que a técnica está nos empurrando para além daquilo que podemos definir como humano; e, por isso, a impressão de uma humanidade aniquilada, para ganhar um espaço onde ela não existiria mais.

Mas não é assim. Quem disse que o humano é apenas a sua forma conhecida até agora? Um humano, isto é, forçado na prisão da sua naturalidade biológica – uma jaula contra a qual lutamos desde sempre, para alargar as suas fronteiras e melhorar as suas condições?

Acho que é exatamente o contrário: que um humano plenamente desenvolvido e realizado é apenas aquele que finalmente adquiriu o controle da sua própria base biológica e é capaz até de transformá-la, substituindo o desígnio da inteligência ao plano da evolução. O humano não é uma figura já completa; é um projeto aberto ao infinito. A época que está se concluindo foi a sua pré-história. A temporada decisiva começa só agora.

Desse processo – que deve ser visto como um caminho de emancipação – a natureza, interna e externa a nós, é apenas espectadora. Nem amiga nem inimiga: uma presença imparcial. Fomes, epidemias, terremotos marcaram os tempos da nossa história – com a dor, as doenças, a morte. A natureza não "ajuda" a vida: já é um milagre que ela a tenha tornado possível, neste planeta assim como (muito provavelmente) em outros lugares no universo. Mas ela a põe continuamente em risco.

Sem falar que, em muitas ocasiões, bastaria apenas um nada para fazer com que, agora, no lugar deste que escreve ou de vocês que leem, houvesse apenas dinossauros, ou peixes, ou (ainda mais facilmente) o vácuo absoluto. Somos uma espécie sortuda, embora tenha sofrido muito.

Pois bem, temo que chegou o momento de merecermos essa sorte. O poder da técnica acumulada antes lentamente em milhões de anos e, depois, de modo vertiginosamente rápido no último século está invertendo em nosso favor relações de força entre humano e natural que nós acreditávamos que fossem imutáveis, quebrando todas as fronteiras recebida, até o ponto de tornar cada vez mais difícil a distinção entre natureza e artifício, entre possível e impossível, entre naturalmente produzido e artificialmente construído. Os terremotos podem não provocar mais medo, e a engenharia genética e os implantes podem redesenhar as nossas existências desde os fundamentos.

Essa passagem nos dá uma responsabilidade enorme, porque está colocando, pela primeira vez desde que existimos, a nossa história inteiramente nas nossas mãos. Ela começa a nos tornar completamente donos do nosso destino. Mas o novo poder deve ser disciplinado, compartilhado. As oportunidades que ele cria, igualmente divididas. Teremos pela frente – já começamos a ter – problemas sociais inéditos – de acesso, de igualdade, de identidade – em relação aos quais aqueles que foram postos pela revolução industrial, que também nos dominou por mais de dois séculos, pareceriam apenas coisas pequenas.

Mas, diante de tudo isto, a política silencia. Remove ou não vê: entre nós, assim como em outros lugares. Por que nos admirarmos, se todos a abandonam?

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