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13 Setembro 2016

O homem pode viver sem os grandes primatas no planeta? Sim. Mas a Terra será um lugar diferente sem os nossos “parentes mais próximos”, acreditam os especialistas, que avisam que este é um perigo real e cada vez mais próximo.

A reportagem é de Andrea Cunha Freitas, publicada por Público, 11-09-2016.

Este mês, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês) divulgou mais um dos conhecidos relatórios da Lista Vermelha que inclui um retrato à escala mundial das espécies em perigo. Ali estava o alerta: “Quatro dos seis grandes primatas estão a um passo da extinção.” O PÚBLICO perguntou a alguns especialistas o que significaria o fim dos primatas e o que é possível fazer para travar este desastre ecológico. Agora que já mostramos que somos capazes de destruir os nossos “parentes mais próximos”, será que ainda vamos a tempo de os salvar?

“Cada vez que uma espécie desaparece, nós perdemos um fio da tapeçaria da vida, na qual todos os fios estão ligados entre si”, diz-nos a primatóloga e antropóloga britânica Jane Goodall, que estuda a vida social e familiar dos chimpanzés há mais de 40 anos, numa das respostas por e-mail ao PÚBLICO.

A verdade é que este tapete da vida já tem alguns buracos (o rinoceronte-branco-do-norte, por exemplo, foi extinto). Há uns pedaços que estão cada vez mais frágeis e em risco de romper, como é o caso dos seis “fios” a que pertencem as espécies de grandes primatas em risco de extinção: o chimpanzé, o bonobo, o gorila-do-ocidente, o gorila-do-oriente, o orangotango-de-samatra e o orangotango-do-bornéu. Os gorilas e os orangotangos estão apenas a “um passo” da extinção, avisa a IUCN.

“Atualmente, quatro das seis espécies de primatas estão em perigo crítico — isto significa que o declínio foi de 80% em três gerações. No caso dos gorilas, uma geração equivale a 20 anos, e o gorila-oriental sofreu um declínio de 77% numa só geração”, refere Andrew Plumptre, cientista que estuda gorilas e chimpanzés e que colabora com a IUCN na elaboração dos relatórios da Lista Vermelha. Se tudo continuar como está, e se este declínio não for travado, “existe o risco de termos um planeta sem os nossos primos primatas e nós seremos o único que irá restar”, diz o especialista, que, neste cenário, estima que os gorilas-orientais sejam extintos em dez ou 20 anos. Os números eliminam qualquer margem para dúvidas: há pouco mais de 20 anos existiam 16.900 gorilas-d as-planícies-orientais (gorila-de-grauer). Atualmente, há apenas 4600, diz o investigador.

Conflitos, desflorestação e destruição do habitat (sobretudo para exploração da madeira e cultura de óleo de palma), caça para consumo ou para comércio de mascotes, são alguns dos diversificados e requintados meios de destruição dos grandes primatas. Atrás deles, só há um culpado: o Homem. O mesmo que agora está perante o incrível desafio de os tentar salvar. São animais de crescimento lento que demoram vários anos a recuperar de um declínio acentuado, salienta a primatóloga Catarina Casanova, da Universidade Técnica de Lisboa, que também colabora com a IUCN e que estuda chimpanzés na Guiné-Bissau. “Há locais onde antes existiam milhares de indivíduos e agora existem 500, que é o mínimo para a viabilidade genética de uma espécie”, nota.

Cada vez que uma espécie desaparece, nós perdemos um fio da tapeçaria da vida, na qual todos os fios estão ligados entre si. Jane Goodall

Não reconhecemos as semelhanças apenas quando os olhamos nos olhos ou os vemos, num documentário ou noutro sítio qualquer, a cuidar das crias ou uns dos outros. “São os animais mais parecidos connosco geneticamente, a semelhança é na ordem dos 98%. Têm enormes capacidades intelectuais, têm capacidades de adaptação, têm flexibilidade comportamental mas não estão a conseguir ultrapassar este grande perigo que é a extinção”, confirma Eugénia Cunha, antropóloga da Universidade de Lisboa.

Os conservacionistas lutam pela preservação de espécies num mundo com cada vez mais gente, atingido pela pobreza e guerras entre outros poderosos males. A tarefa de convencer as pessoas de que vale a pena gastar tempo, dinheiro e recursos na conservação é quase heroica. “Alguns dos países onde vivem os gorilas e chimpanzés têm um nível socioeconômico tão baixo que a prioridade não são os animais, são as pessoas”, reconhece Eugénia Cunha. “Os organismos internacionais têm de reagir.”

Espécies “guarda-chuva”

Jane Goodall lembra que podemos perder “uma das principais espécies que distribuem pela floresta sementes de árvores frutíferas”, mas sublinha: “Acima de tudo, cada espécie é única e tem valor em si própria.” Ao papel de agricultor selvagem da floresta que semeia árvores, Andrew Plumptre junta ainda o fato de estes animais serem particularmente importantes para estudos genéticos ou de patologias como o cancro. “Há também quem defenda que estes animais são tão parecidos connosco que merecem ter direitos, tal como as pessoas marginalizadas merecem ter direitos”, diz o investigador.

“Estes primatas fazem falta por razões ecológicas, econômicas e de conservação dos ecossistemas em geral”, resume o biólogo Jorge Palmeirim, da Universidade de Lisboa. “Com eles desaparecerá um serviço ecológico que eles têm nos ecossistemas e que vai alterar as florestas”, afirma, falando ainda no benefício que estes primatas significam em termos turísticos para alguns países. “Os primatas são ‘espécies guarda-chuva’, a sua conservação protege muito mais do que eles próprios. Quando conservamos os gorilas, conservamos a floresta e, por isso, muitas outras espécies.”

Catarina Casanova não sabe se será possível evitar o pior. “Vivemos no mundo do dinheiro. Daquilo que rende. Um modelo que não se compadece nem com os humanos que morrem à fome quanto mais com gorilas e chimpanzés”, diz, inquieta.

Apesar de também achar que perdemos sabedoria, Jane Goodall acredita que é possível fazer alguma coisa para mudar o destino destes animais e que uma das frentes de ação está em começar por mudar o destino das pessoas que estão à volta deles. É o que o instituto que fundou faz com o programa TACARE, por exemplo.

Mas é preciso mais. Andrew Plumptre sugere que os cidadãos façam pressão junto dos seus governos para apoiar a conservação destes primatas e para que se “desarmem os grupos rebeldes na República Democrática do Congo”. “Pense nas consequências de pequenas escolhas que fazemos todos os dias: o que compramos, comemos, vestimos. Milhões de opções ética e ecologicamente responsáveis fazem uma enorme diferença”, diz, Jane Goodall.

São gestos simples que podem servir para proteger os gorilas. E também fazer com que pessoas como Andrew Plumptre tenham o “fantástico privilégio” de serem testemunhas de momentos como este: “Ver um gorila macho deitado de costas ao sol, com as suas mãos atrás da cabeça, e depois as mães vêm e deixam as suas crias para ele tomar conta enquanto vão juntas mastigar folhas de café.”

São os nossos parentes mais próximos. E, um dia, se apenas tivermos estas imagens em documentários e livros, ou estes animais em jardins zoológicos, teremos de explicar às crianças que os grandes primatas já não existem na floresta. E elas, seguramente, vão perguntar: “Porquê?” É preciso evitar a pergunta e a inevitável resposta que nos envergonhará.

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