Uma amizade eterna para ler a Europa entre a imprensa e Lutero

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09 Setembro 2016

"Erasmo e More assumiram, ambos, de diferentes formas, uma tarefa ética e política, e para dar-lhe corpo colocaram de pé duas admiráveis construções da fantasia. É claro: pesou muito, em seu trabalho, o espírito do tempo e o fato de serem ambos completamente humanistas, homens curiosos, leitores onívoros, incansáveis estudiosos da literatura clássica, o que emerge claramente em diversas passagens de sua troca epistolar de mais de trinta anos". 

O comentário é de Alberto Gaiani, filósofo e escritor, em artigo publicado por Il manifesto, 04-09-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

No início do oitavo livro da Ética a Nicômaco, para definir o papel da amizade na vida dos seres humanos, Aristóteles escolhe um superlativo – anagkaiotaton -, que, em italiano, não pode ser expresso com uma só palavra: a amizade é absolutamente necessário à vida, e ninguém escolheria viver sem amigos. Nos parágrafos seguintes, passa em resenha os vínculos embasados no útil, no prazer e na virtude, identificando a forma perfeita de amizade, que se gera entre duas pessoas com disposição para a virtude e que, nisso, são profundamente parecidas.

Algo semelhante deve ter ocorrido, em 1499, durante uma viagem para a Inglaterra, no encontro de Erasmo de Roterdã, na época com cerca de trinta anos, com Thomas More, uma dezena de anos mais jovem, que conheceu na casa de amigos comuns. Deste encontro nasceu uma relação intensa e durável, cujos rastros podem ser seguidos em "Più di metà dell’anima mia”, correspondência editada por Giuseppe Gangale, autor de um utilíssimo aparato crítico (Collana Cultura Studium, 239 p., € 19,00).

As cartas recolhidas, abrangem os anos 1499 a 1533, e consentem, em primeiro lugar, uma leitura da história europeia do período em que a cultura começava a laicizar-se e a difundir-se, também, graças ao surgimento da imprensa, nos mesmos anos em que a Reforma Protestante inflamava o continente em diferentes latitudes, e as incursões otomanas levantavam temores pelo colapso da cristandade. Mas permitem também colher os pensamentos e expectativas dos autores do “Elogio da loucura” (publicado pela primeira vez em 1511) e da “Utopia” (lançado em 1516), seus projetos de reforma política e cultural, suas tentativas, muitas vezes violentamente contestadas por manter o equilíbrio entre os impulsos reformistas e os brutais apelos à tradição. Finalmente, lançam luz sobre detalhes da vida material, dificuldades econômicas dos intelectuais da época, no início do século XVI, tensões dos que se envolviam em disputas doutrinárias e políticas que abalaram os governos dos principais Estados europeus, incertezas daqueles que, mesmo tendo alcançado a fama literária (Erasmo), ou o ápice de uma carreira política (More), dirigiam-se ao velho amigo para partilhar as questões mais profundas, inconfessáveis a qualquer outra pessoa. "Você é para mim mais do que a metade de mim", escreveu More, em 1520, repetindo o que Horácio escrevera de Virgílio, animae dimidium meae. Não era apenas um dispositivo retórico ou uma onda de emoção: More usou a expressão no final de uma longa carta em que comunicava Erasmo sua posição de confronto com o francês de Brie, que escrevera um Antimorus, onde, além de acusá-lo de escrever versos tropeços cheios de barbarismos e solipsismos (terrível acusação desonrosa para os humanistas), tentava macular a imagem de More junto à coroa inglesa. Erasmo conhecia Brie e apreciava sua obra. É, por conseguinte, precisamente nesta troca, que se captura uma das chaves de leitura de toda a correspondência: apesar das tantas diferenças, apesar da distância, apesar das diferentes opiniões e escolhas contrastantes, permanece uma raiz comum, inextirpável. Uma pertença partilhada, que nada pode arranhar e resiste aos silêncios, às diferenças, à passagem do tempo e às doenças físicas porque, como Aristóteles disse, é mais o necessário para a vida.

Erasmo escreveu o "Elogio da Loucura” num período em que foi hóspede na casa de Thomas More, a quem dedicou sua obra, por meio de uma carta, que, em seguida, será incluída em todas as edições, onde jogava com a assonância entre “More” e “moría”, loucura em grego, deixando ao amigo o fruto do seu trabalho: "Tomarás sob tua proteção, como para ti dedicado, e não mais meu, senão teu". Utopia de Moro foi publicado graças ao interesse do amigo, aos seus conhecimentos e suas mediações com os intelectuais e editoras de metade da Europa, tanto que, para muitos estudiosos, o verdadeiro editor da Utopia foi Erasmo de Roterdã. Ambas as obras - juntamente com outras, é claro: em 1513, para dar um exemplo, foi publicado O Príncipe, de Maquiavel - estamos no início da Idade Moderna e mais tarde receberam o reconhecimento de sua importância capital, mas também foram, muitas vezes, vistas como um híbrido difícil de classificar: textos metafóricos, alusivos, irônicos, paradoxais, distantes de um empenho teórico explícito.

O Elogio da Loucura é uma crítica mordaz às tendências dominantes da época, às mil maneiras dispersivas e inautênticas em que os seres humanos passam a vida e se ocupam pensando de realizar grandes feitos. Ali Erasmo usava os tons da sátira, realizando contínuas e manifestas referências à literatura clássica, de Cícero a Horácio, de Ovídio a Luciano. A Utopia é um radical questionamento dos pressupostos em que se estava desenvolvendo a sociedade inglesa no início do século XVI: através de uma ficção literária, a história de uma história, More ilustrava os princípios, segundo os quais, pode-se desenvolver uma sociedade justa, equilibrada e harmônica.

Erasmo e More assumiram, ambos, de diferentes formas, uma tarefa ética e política, e para dar-lhe corpo colocaram de pé duas admiráveis construções da fantasia. É claro: pesou muito, em seu trabalho, o espírito do tempo e o fato de serem ambos completamente humanistas, homens curiosos, leitores onívoros, incansáveis estudiosos da literatura clássica, o que emerge claramente em diversas passagens de sua troca epistolar de mais de trinta anos. Mas aqui se revela também um traço que, de certo modo, transcende a dimensão contingente em que amadureceram suas obras e pensamentos trocados na correspondência.

Ambos se engajaram numa crítica cerrada do existente: tanto More, como Erasmo, embora com acentos e papéis diferentes, aprenderam a assumir posições desconfortáveis, contrastantes, mas às vezes decisivas, em relação às questões a respeito do mundo em que viviam. Tinham o ar dos reformadores, mas mantiveram-se longe do sectarismo, sempre lutando por soluções racionais, compartilhadas, orientadas para o bem comum. Neste sentido, a referência ao clássico – como também é evidente a partir dos acenos presentes em muitas das suas cartas - é um elemento essencial da tarefa intelectual a que se sentiam chamados: dominavam com segurança a literatura latina, a literatura grega, a filosofia antiga, e os textos clássicos constituíam, de certa forma, seu léxico familiar, o reservatório de expressões mais precisas e mais evocativas que se poderia usar para nomear as coisas com as palavras certas.

Em 1535, More morreu decapitado por não ter aceito o Ato de supremacia de Henrique VIII. No ano seguinte, foi seguido por Erasmo, atormentado por reumatismo, gota, disenteria. Deixaram atrás de si um legado importantíssimo, mas talvez seu monumentum aere perennius é a amizade recíproca. Preocupado com a recepção e a difusão da Utopia, numa carta de 1516, More escreveu: "Espero, portanto, que aprovem minha obra, o que eu desejo tanto. No entanto (...) teu único voto será mais do que suficiente. Do modo como eu sinto, nós dois somos uma multidão, e penso que poderia ser feliz contigo também num deserto".

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