Aquele ato de liberdade chamado martírio. Artigo de Enzo Bianchi

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08 Setembro 2016

Um congresso ecumênico no Mosteiro de Bose, Itália, entre os dias 7 e 10 de setembro, promove uma reflexão sobre o martírio, palavra traída por aqueles que morrem para matar inocentes.

Publicamos o comentário do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 07-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Mártir, desde sempre, é um termo de múltiplos significados. Na história da humanidade, houve e há muitos paradigmas de martírio, embora, de fato, a Igreja elaborou um "cânone" para o discernimento do martírio e de quem o viveu. A forma original do martírio cristão é aquela que chegou até nós desde os três primeiros séculos de nossa era, através dos Acta martyrum: forma inspirada por Estevão no Novo Testamento e, depois, por Policarpo de Esmirna, Inácio de Antioquia e os mártires vítimas do Império Romano. Ela apresenta o cristão que, como miles Christi, "soldado de Cristo", morre pelo seu Senhor, compartilhando a sua paixão diante do poder político e da polis pagã, fornecendo uma profissão de fé pública, mantendo-se firme e paciente durante a execução capital e chegando a perdoar seus perseguidores.

No entanto, bem cedo, esses mártires mortos "in odium fidei", por ódio à fé por eles professada, foram postos ao lado daqueles que eram perseguidos e mortos pelo simples fato de serem cristãos, sem nem mesmo lhes dar a possibilidade de renegar ou não o seu credo. Na história do cristianismo, esse "martírio" coletivo ocorreu raramente na antiguidade, enquanto, a partir do genocídio dos armênios, foram atestados com frequência massacres, execuções de grupos de cristãos, homens, mulheres e crianças mortos pelo simples fato de serem uma minoria diferente por fé em relação à religião dominante: na Índia, na Nigéria, no Oriente Médio, no Vietnã, no Sudão...

É aquilo que o Papa Francisco – com referência aos cristãos, não os únicos, mas, hoje, os mais numerosos entre as vítimas – chama de ecumenismo de sangue, porque a perseguição, nesses casos, não faz distinção entre católicos, ortodoxos ou protestantes, mas atinge famílias, vilarejos, regiões inteiras só porque seus habitantes são cristãos.

Na época das guerras religiosas na Europa, tivemos tragicamente como "mártires" cristãos mortos por outros cristãos em nome da confissão de pertença diferente. Esse escandaloso paradoxo se repetiu no século passado e ainda está vivo hoje em algumas regiões do mundo, com uma "ética" variante: cristãos mortos por causa da sua conduta em nome do Evangelho.

Pense-se em muitos defensores dos pobres e dos oprimidos, como o bispo Oscar Romero em El Salvador, em resistentes contra os tiranos, como Dietrich Bonhoeffer na Alemanha nazista, ou em vítimas da máfia, como o padre Pino Puglisi. Nesse sentido, o mártir não escolhe a morte, mas um modo de viver, o de Jesus, escolhe um comportamento inspirado no Evangelho, uma exaustiva busca do seguimento cristão, uma defesa dos pobres e dos oprimidos, uma oposição aos poderosos deste mundo, e certamente não uma flagrante afirmação de si.

Depois, há pessoas que enfrentam aquele que é chamado de "martírio" em modalidades nem sempre conciliáveis com a definição cristã: também são definido, por exemplo, como "mártir da liberdade" ou "da justiça" aqueles que caíram em combate, talvez depois de ter infligido a morte a alguns adversários, ou pessoas que se entregaram voluntariamente à morte, sem, porém, infligi-las aos outros, em nome de um ideal ou como forma extrema de protesto: o jovem Ian Palach que se incendiou na praça durante a repressão soviética da "primavera de Praga", o republicano irlandês Bobby Sanders que levou a sua greve de fome até morrer por causa dela para obter do governo britânico o status de prisioneiros políticos e não de delinquentes comuns para si e para os seus companheiros de luta, ou ainda os monges tibetanos que confiam ao seu corpo em chamas o último grito contra a aniquilação do seu povo, da sua cultura e da sua religião por obra do poder estadunidense no Vietnã e, mais recentemente, do poder chinês no Tibete.

Mas "mártir" – da caridade ou da generosidade ou da solidariedade – também é definido aquele que se oferece para morrer para parar uma carnificina ainda mais cruel ou no lugar de pessoas igualmente inocentes: pense-se no policial italiano Salvo D'Acquisto diante da indiscriminada repressão nazista ou no franciscano Maximiliano Kolbe, que, no campo de concentração de Auschwitz, tentou salvar um pai de família substituindo-o no bunker da fome.

Por fim, há a acepção, hoje tão frequente, que perverteu mais fortemente o sentido da palavra "mártir": aquela usada por um certo integralismo religioso presente no mundo islâmico para definir os agressores suicidas, aqueles que fazem da própria morte o instrumento do assassinato de anônimos inocentes e de inimigos ou assumidos como tais. Pessoas e gestos que, também conceitualmente, são a antítese do "mártir": se este é alguém que demonstra que só quem tem uma razão para morrer também pode ter uma razão para viver, o "kamikaze" – como hoje é definido o agressor suicida, impropriamente, porque, na tradição japonesa, isso indica outra coisa – muitas vezes é uma pessoa que não tem razões para viver e à qual a ideologia louca fundamentalista e alguém incutiram uma razão para morrer, especialmente matando outros, envolvido em uma espiral de ódio que só sabe semear violência.

Não podemos nos esquecer da advertência de Bento XVI em Regensburg, quando relembrou a mensagem da tradição cristã: a fé sempre deve ser obtemperada pela razão humana, caso contrário, degenera em fanatismo e violência ou em superstição e magia. Nenhuma fé pode pedir aquilo que é humanamente contra a razão: a morte de inocentes em nome de Deus.

O discípulo de Jesus de Nazaré, ao contrário, ama a vida e não a despreza, não busca o martírio como autoimolação, nem mesmo como busca de uma santidade heroica – seria orgulho diabólico! – mas, diante da explícita exigência de renegar a própria fé com as palavras ou com ações contrárias às exigências do Evangelho, pode chegar a aceitar ser perseguido e a entregar a sua vida até morrer.

O mártir cristão não é um "homem contra", mas sim um "homem por", uma pessoa que escolhe aceitar a morte em nome do amor maior que vive cotidianamente. Às vezes, as circunstâncias da perseguição são particularmente aberrantes, às vezes o silêncio, o esquecimento, a "normalidade" envolvem sofrimento e morte infligidos por causa da própria fé, mas a atitude do mártir cristão não muda: chamado a amar os inimigos, a perdoar os perseguidores, a exemplo de Jesus, ele faz da morte violenta infligida a si um gesto de vida e de amor, o único ato que pode romper a corrente das vinganças.

Um gesto de que, talvez, poucos ou ninguém tomarão conhecimento, palavras de perdão que nem sempre alguém saberá escutar ou transmitir, momentos de angústia e de dor dilacerante que ninguém saberá acalmar, mas também instantes de grandeza humana e espiritual, raios de luz na escuridão da desumanidade.

Nesse sentido, o mártir não escolhe a morte, não deseja a glória do martírio, mas decide viver ao extremo a vida e aquilo que dá sentido à vida: o amor pelos outros.

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