“O inferno da política espanhola, pavimentado de boas intenções”. Artigo de González Faus

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06 Setembro 2016

“No Parlamento espanhol conviria colar um letreiro com aquele famoso verso de Dante: ‘abandone toda esperança aquele que entrar’”, comenta o teólogo jesuíta espanhol José Ignacio González Faus, analisando a situação política espanhola. O artigo publicado é publicado por Religión Digital, 02-09-2016. A tradução é do Cepat.


Mariano Rajoy (Foto: Religión Digital)


Eis o artigo.

Em certas ocasiões, parafraseei esta célebre frase de Teresa de Ávila desta maneira: “O maior dano que se pode fazer a uma causa que se acredita boa, é defendê-la mal”. A experiência vem de longe. O esperançoso Chile de Allende, dos anos 1970, sofreu grande dano pela radicalidade cega do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária), que desestabilizou uma situação já difícil e contribuiu, sem desejar, para o golpe criminoso de Pinochet.

Durante as esperanças da revolução nicaraguense, disse-me um companheiro jesuíta muito envolvido com o sandinismo: “a pior coisa que pode ocorrer com a Nicarágua, hoje, é que seja defendida por Fulano” (sei o nome desse Fulano, mas, como Cervantes, prefiro não me recordar dele). Maduro está provocando tanto dano ao chavismo como essa oposição tão pouco limpa. E assim sucessivamente...

Agora olhemos para casa: Rajoy quer defender a unidade da Espanha, mas provavelmente contribui mais para o independentismo catalão que toda a Esquerda Republicana. Sánchez quer impedir um governo imoral como o que tivemos nestes anos passados, mas por seu outro NÃO radical ao diálogo com Podemos (e por não ter sabido apresentar a Rajoy algumas condições sérias e intocáveis para sua abstenção, de modo que fosse Rajoy que tivesse que dizer não), acabará forçando terceiras eleições, nas quais suspeito que o PP sairá reforçado com mais parlamentares. E a Rajoy será mais fácil governar do que com o incômodo parlamento atual.

O independentismo voluntarista catalão só conseguiu dividir a Catalunha em duas metades muito hostis, como já advertiram alguns membros eclesiásticos. Podemos despertou muita esperança ao nascer e teve uma arrancada fulminante, mas seu modo de se comportar o fez perder um milhão de votos, em seis meses. Albert Rivera, que tantas lições deu que é preciso dialogar com todos (porque isso é o que o povo nos pediu), mesmo à custa de sacrificar coisas muito queridas, nega-se radicalmente a qualquer diálogo com os nacionalistas e com aqueles que lhes apoiam... E assim sucessivamente.

Total: no Parlamento espanhol conviria colar um letreiro com aquele famoso verso de Dante: “abandone toda esperança aquele que entrar”. E não se trata de julgar moralmente ninguém. Não estamos autorizados a dizer de ninguém que é uma pessoa indecente, ainda que possa ter cometido ações indecentes, porque nós não somos Deus, e o julgamento das pessoas só cabe a Deus, como escreveu aquele Paulo de Tarso que tantas condutas desaprovou, por outro lado. Trata-se simplesmente daquilo tão machadiano e tão aplicável aqui: “candidatos não há caminho, se fará caminho ao caminhar”.

Isso significa que ainda que o fim de maneira alguma possa justificar os meios imorais, sim, reivindica e necessita de meios aptos para conduzir até ele. Se não, por grandes e belos que os fins pareçam, é possível que, ao final, nos deparemos no extremo oposto. Claro que, então, encontraremos uma maneira de nos justificar, jogando as culpas em outros. Porque, com a permissão de Aristóteles, o ser humano não é propriamente um “animal racional”, mas um animal autojustificador. E é bastante conhecida aquela definição que alguém deu sobre os economistas: “alguns senhores muito capacitados para explicar por que fracassaram todas as predições que haviam realizado sobre como caminhariam as coisas”. Tem sua graça, mas se acaba pensando que não só os economistas são assim. Todos nós somos assim. Por quê?...

Não responderei a essa pergunta, mas se isso ajuda, gostaria de me despedir citando uma das grandes autoridades intelectuais do século XX: “as democracias políticas que não democratizam seu sistema econômico, são intrinsecamente instáveis” (Bertrand Rusell). Talvez estamos presumindo ir às praias da democracia, mas só nos movemos nelas de burkini. Quem sabe.

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