Novo arcebispo canadense: Uma Igreja em diálogo não significa apenas “gritar mais alto”

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01 Setembro 2016

A Igreja Católica não somente será capaz de encetar mudanças na sociedade em geral se engajar em diálogo com os que estão do lado de fora da comunidade de fé, “ouvindo-os profundamente” sobre questões difíceis, diz o novo arcebispo da província canadense de Saskatchewan.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 30-08-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O arcebispo designado Donald Bolen, nomeado pelo Papa Francisco para dirigir a Arquidiocese de Regina, no Canadá, afirmou que a Igreja não pode esperar ser ouvida apenas falando mais alto.

“Quando lidamos com questões realmente difíceis e desafiadoras, precisamos ser fiéis ao magistério da Igreja, precisamos ser fiéis ao kerygma, a revelação a nós dada; precisamos trazer estas coisas para dentro do diálogo se quisermos ser levados a sério e se quisermos ter uma influência no mundo”, disse Bolen em entrevista ao National Catholic Reporter.

“Não é gritando mais alto”, disse o arcebispo. “É nos engajando em diálogos articulados e desafiando posturas”.

Bolen, que tem estado à frente da Diocese de Saskatoon desde 2009, trabalhou em Roma, entre 2001 e 2008, no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

O prelado, que deverá ser instalado em seu novo posto no dia 14 de outubro, falou sobre o diálogo no contexto das relações ecumênicas e sobre o seu trabalho em Saskatoon de promoção da encíclica ecológica Laudato Si’, do Papa Francisco.

O arcebispo disse comprender a missão da Igreja como sendo a de “ter um evangelho a proclamar, e que a principal forma de fazer isso é através do diálogo”.

“Somos abençoados e enriquecidos por entrar (...) em um diálogo”, disse Bolen, esboçando uma visão de Igreja “que está em diálogo com a cultura mais ampla, respeitosa para com a cultura, com uma mensagem a proclamar, porém escutando profundamente também”.

O arcebispo, que preside a comissão da conferência episcopal do país dedicada à justiça e paz, afirmou que parte de seu estilo de liderança inspira-se nos exemplos do cardeal alemão Walter Kasper e do bispo irlandês Brian Farrell, com os quais trabalhou no Conselho Pontifício.

“Ele é uma pessoa de muito diálogo”, disse Bolen sobre Kasper. “Quando tínhamos de discernir sobre como lidar com uma situação em particular, ele pediria por mais informações”.

“Quando me vi na qualidade de bispo e tentando aprender a liderar, o modelo deles de liderança que encontrei durante aqueles anos em Roma me moldaram profundamente”, disse. “Fui modelado por eles de uma maneira mais profunda do que eu pensava, e tenho buscado exercitar o meu ministério episcopal de uma forma bem consultiva”.

Como Francisco, Bolen também tem pondo uma ênfase especial sobre a misericórdia, escolhendo como o seu lema episcopal a frase “misericórdia dentro de misericórdia dentro de misericórdia”.

Tirada do livro “O signo [ou sinal] de Jonas”, de Thomas Merton, obra publicada em 1953, esta frase recorda um momento tocante dos diários de Merton, onde o monge tem a Deus a usar estas palavras para descrever si de Deus.

“Em certo sentido, para mim este vem sendo o nome de Deus, o nome para quem Deus é”, disse o arcebispo sobre o seu lema.

“Deus é aquele que nos vê como somos e nos ama como somos; transforma-nos com aquele amor misericordioso”, continuou. “Compreendo a misericórdia como (...) um amor transformador. É o amor que Deus tem aos que estão necessitados e, em certo sentido, despedaçados, precisando receber uma mão estendida. Acho que isso tem tudo a ver com o que é a raça humana, com quem somos”.

Na entrevista, Bolen também falou sobre os desafios que a Igreja enfrenta em sua região no Canadá.

Pouco antes do anúncio de seu novo posto, em julho o prelado havia passado 36 horas vivendo nas ruas com nove outros voluntários para arrecadar fundos ao Sanctum Care Group, clínica para doentes terminais e centro de tratamento para portadores de HIV.

Os números de pessoas infectadas com o HIV em Saskatchewan estão entre os mais altos do país. A doença afeta particularmente indígenas da região, com as autoridades canadenses dizendo que os índices para eles são comparáveis aos de certos países da África.

O arcebispo considerou a experiência de viver nas ruas como momentos para uma tomada de consciência.

Ao falar da experiência de passar algumas horas vivendo como pedinte nas ruas da cidade a fim de melhor compreender a experiência dos moradores de rua, Bolen disse que não se supreendeu ao ver que as pessoas não lhe davam muito dinheiro.

“Isso não me chocou tanto”, disse o arcebispo. “O que foi chocante era que eles não faziam contato visual. Tive uma ideia do quanto as pessoas sem-teto são invisibilizadas, pude ver o quanto nós os tornamos invisíveis porque achamos eles ameaçadores e problemáticos”.

“Moro nesse bairro, nessa parte mais empobrecida da cidade”, relatou Bolen. “Foi como ver a minha própria vizinhança através de olhos totalmente diferentes”.

“Quanto estou ocupado ou com pressa, ou quando estou no meu trajeto de, ou para, o trabalho, usando vestes religiosas, vejo alguns destes desafios do bairro e algumas das bênçãos dele”, continuou.

“Precisamos ver não só os outros nas ruas, com desafios e problemas reais, mas também temos de perceber o sentido de comunidade (...) e os modos nos quais as pessoas se ajudam e apoiam umas às outras”, completou.

Enquanto se prepara para assumir o posto em Regina, Bolen disse que um desafio particular que a Igreja enfrenta nesta região tem a ver com a construção de sua relação com os povos indígenas. Segunda uma pesquisa em âmbito nacional divulgada em 2011, quase 10% da população de Saskatchewan – que é de 1,1 milhão de habitantes – se identifica como indígena.

Como parte de seu trabalho na Conferência dos Bispos canadense, Bolen ajudou a elaborar dois documentos que respondem à recém-concluída Comissão da Verdade e Reconciliação, que focou a sua atuação sobre o sistema escolar residencial histórico do país.

Em grande parte administrado por igrejas nos séculos XIX e XX, as escolas tiravam crianças indígenas da influência de suas famílias e cultura num esforço de assimilá-las às normas culturais europeias.

“Em termos pastorais, o principal desafio que enfrentamos é na relação com os povos indígenas”, afirmou o arcebispo na entrevista. “Acho que, como sociedade, estamos apenas começando a levar a sério o que aconteceu aos indígenas quando colonizadores europeus e imigrantes vieram para a América do Norte, e só agora estamos percebendo o impacto que houve na língua, nas culturas e nos povos indígenas”.

“Existe uma ligação direta entre todos os desafios que os indígenas enfrentam hoje em nossa sociedade e esta experiência”, disse Bolen. “E ainda nós não percebemos muito bem quais são estas relações”.

“Como Igreja e como sociedade (...), eis a nossa tarefa social e a nossa responsabilidade número um: aprender a caminhar juntos com os indígenas e aprender a viver juntos de um jeito novo”, falou.

Bolen conversou com o National Catholic Reporter via Skype direto da Espanha, onde ele se encontra para uma peregrinação de cinco semanas com vários outros prelados na tradicional rota do “Camino de Santiago”.

“É bom me distanciar um pouco da rotina diária, que em geral é bem ocupada e bastante estressante”, disse ele. “Simplesmente rezar, caminhar e visitar; viver uma vida mais simples por uns dias”.

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