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30 Agosto 2016

“Nós, Calçadas do Brasil, não mais ficaremos quietas. Vamos lutar!”, escreve Washington Fajardo, arquiteto e urbanista, em artigo publicado por El País, 29-08-2016.

Segundo ele, “começa período de eleições municipais em todo o Brasil e uma vez mais os políticos falam da nossa condição, que olharão por nós, cuidarão, mas eles mentem. Nós sabemos bem porque após assumir o poder eles não mais caminham sobre nós. Passam a circular em carros estilo executivo, vidros opacos, blindados, seguranças, e se esquecem de nós, que somos parte essencial da mobilidade urbana, e que estamos com os brasileiros do raiar do sol à noite. Nós estamos com os brasileiros 24 horas por dia, 365 dias no ano. Nós somos parte da verdadeira democracia. Somos parte da vida”.

Eis o artigo.

Nós somos a infraestrutura principal da vida urbana. Nós somos o alicerce das economias urbanas, dos negócios, dos comércios, dos serviços, do turismo, da vida cultural. Nós somos o fundamento da política. Nós somos duras mas temos a capacidade de amolecer os corações e dar gosto à existência na metrópole. Nós protegemos, ou deveríamos, suas crianças. Nós somos cegas, mudas e surdas. Assim como a Justiça, não fazemos distinção de cor, credo, riqueza. Pelo menos assim deveria ser. São os próprios poderosos que nos desvirtuam de nossa função primordial. Não é deste modo, democráticas, que nos constroem. Estamos mal conservadas. Somos poucas ainda. Nós somos negligenciadas pelos homens no poder. Se eles usassem salto alto, lembrariam-se de nós (apesar de muitos terem tal fetiche).

Nós somos da vida pública. Somos da rua. Nós, Calçadas do Brasil, não mais ficaremos quietas. Vamos lutar. Não podemos nos erguer, infelizmente, mas estaremos ali presentes, mirando vocês, brasileiros, e especialmente os políticos, de baixo pra cima. Nós estamos de olho. Vemos todos os segredos de vocês aqui de baixo. Temos um visual claro de todos os seus orifícios, conhecemos suas entranhas.

Somos distintas, diversas, somos de concreto, de ladrilho hidráulico, de pedra portuguesa, de pedra de Lioz, de granito de costaneira, de cimento simples, de bloco inter-travado, de mosaico cerâmico, de terra batida, e agora ficaremos mais unidas.

Vamos lutar!

Começa período de eleições municipais em todo o Brasil e uma vez mais os políticos falam da nossa condição, que olharão por nós, cuidarão, mas eles mentem. Nós sabemos bem porque após assumir o poder eles não mais caminham sobre nós. Passam a circular em carros estilo executivo, vidros opacos, blindados, seguranças, e se esquecem de nós, que somos parte essencial da mobilidade urbana, e que estamos com os brasileiros do raiar do sol à noite. Nós estamos com os brasileiros 24 horas por dia, 365 dias no ano. Nós somos parte da verdadeira democracia. Somos parte da vida.

Brasília tem responsabilidade sobre nosso ocaso, pois lá, até para mudar de prédio ministerial, os poderosos vão de carro. Quantas transformações poderiam haver se estivessem todos juntos, políticos e cidadãos, caminhando cotidianamente sobre nós. Que alegria teríamos!

Nós, Calçadas do Brasil, somos essenciais à vida urbana.

É sobre nós que as crianças correm, idosos caminham, a vida circula, os casais se apaixonam, os poetas sonham, as conversas viram empresas, os comércios prosperam. É sobre nós que formam-se as filas de emprego. É sobre nós que o trabalhador volta para casa após um dia cansativo.

Estamos mal conservadas nas áreas ricas, não existimos nas áreas pobres, abandonadas nos centros urbanos. Os carros colocam seus pneus sobre nós, prédios constroem sobre nós em todos os lugares, ricos ou pobres. Ninguém nos representa.

Nós, Calçadas, estamos com a humanidade desde o início das cidades, mas fomos nós que demos graça à urbanidade. Éramos mais amplas e generosas antes do advento do carro, de quem não somos inimigas mas sabemos do desprezo dele para conosco. O “footing" e o “flaneur" do início do século vinte consagrou-nos. O modernismo nos desprezou.

Agora buscam sobre nós, bichinhos virtuais, o Pokemon Go. Já éramos atacadas pelo mundo real e agora é o virtual a invadir-nos. Ao menos este não espeta-nos postes estúpidos. Faz com que as pessoas venham mais para nosso leito, apesar de olharem mais para as telas dos celulares do que umas para as outras. Estamos fartas de obstáculos absurdos. Postes desnecessários, fiação aérea, placas burras, exageradas, ambulantes descontrolados, grades fascistas, prédios sem lojas, luzes automáticas de seguranças. Basta!

Vocês não percebem brasileiros, a loucura que estão vivendo? Voltem para nós!

Sempre fomos silenciosas e generosas mas agora basta! Vamos protestar! Não aguentamos mais!

Brasileiros, de todas as cidades, unam-se a nós, pois sempre estivemos com vocês. Caminharemos juntos, unidos. Nossa récem criada organização, o Movimento Revolucionário das Calçadas do Brasil, será combativo. Nosso lema é “Immotus nec iners”; em bom português “imóvel, mas não inerte”. (Sabemos que o latim é muito bem apreciado em Brasília).

Somos inertes mas temos vida. Rígidas porém flexíveis. Duras mas o fluxo da vida corre em nós. Brasileiros, nós não iremos puxar o seu tapete. Oferecemos sustentabilidade e vida digna na cidade.

Nós, associadas à arborização urbana, resolveremos os desafios climáticos das cidades e do planeta. Ao andar sobre as calçadas, fazemos você saudável, oferecemos melhor condição cardíaca, combatemos a diabetes. Os comércios, as decisões de investimento e empreendimentos sempre precisam de nós. As prefeituras não nos entendem. Não nos projetam. Não nos conservam. Não fazem valer a ordem pública sobre nós. Os prefeitos fazem demagogia conosco.

Há uma revolução em curso. A juventude de hoje prefere nós ao carro. Apoiamos os parklets, os bancos confortáveis, a permeabilidade pluvial, as ciclovias. (Próximas a nós. Não sobre nós.) Nós levamos vocês às praças, aos parques. Nós, calçadas, nascemos dos pés da humanidade. Somos parte do seu corpo. Por que nos abandonas?

Brasileiros, unam-se a nós!

Abaixem um pouco o olhar, deixem de soberba, deixem de pressa, pois vocês ficarão velhos e o buraco em nós que você não reclamas, brasileiro, poderá um dia ser a sua cova.

Calçadas do Brasil, uni-vos! Nosso movimento vai do Oiapoque ao Chuí, porque até na Amazônia tem calçadas.

Lutaremos pelos nossos direitos de sermos boas, seguras, lisas, acessíveis, sem obstáculos, resistentes, bonitas, limpas, ordenadas, democráticas, servindo à você, da sua infância à velhice, o seu estudo, o seu trabalho, a sua família, seus entes queridos. Até vossa morte poderás alongar muito se nos usar mais.

Precisamos de desenho, não precisamos ser caras, de materiais caros, luxos. Precisamos estar em todos os lugares, servindo as vossas solas de sapato, servindo aos vossos encontros, empreendimentos, ao passeio livre, à liberdade.

Somos parte de vocês, brasileiros.

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