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Por: João Vitor Santos | 29 Agosto 2016

Maria Izabel Noll recupera os caminhos e pensamentos que fazem de Getúlio Vargas o que ela chama de “um estadista que nunca mais tivemos”, capaz de reler o positivismo pelo darwinismo 62 anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, lembrados nesse último 24 de agosto, sua figura enquanto estadista e político nacional segue inspirando e aguçando a curiosidade. Há quem diga que o próprio ex-presidente Lula buscou, com seu lulismo, uma reedição do varguismo, da Era Vargas. Maria Izabel Noll, historiadora e doutora em Ciência Política, que refletiu sobre essas duas figuras em entrevista recente à IHU On-Line, é cautelosa com essas aproximações e não hesita em definir Vargas como “um estadista que nunca mais tivemos”. Mas o que constitui essa figura, esse estadista que se atreveu a tentar conciliar trabalhadores e patrões? Essa é uma pergunta que também inquieta o jovem acadêmico do curso de História da Unisinos Marcelo Diego Carvalho de Vargas. “Quero fazer meu trabalho de conclusão sobre essa figura, mas quero olhar e buscar compreendê-lo a partir do Vargas acadêmico de Direito”, explica.

Marcelo era um dos mais atentos espectadores da conferência da professora Maria Izabel, que, na tarde de quinta-feira, 25-08, dentro da programação do IHU ideias do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, tratou do tema “Getúlio Vargas e o positivismo”.

A conferência inaugurou uma novidade possibilitada pela nova página eletrônica do IHU. Pela primeira vez uma conferência foi transmitida ao vivo na primeira página do IHU. Assim, desde este dia, todas as conferências e debates promovidas pelo IHU poderão ser acompanhadas, ao vivo, pelo sítio do IHU.

A palestra, alusiva ao aniversário de morte de Vargas, pode ser acessada na íntegra através do canal do IHU no You Tube.

Ao ouvir o jovem manifestar seu desejo de estudo, a professora prontamente falou: “e tem muita coisa para se estudar. Esse período revela muito sobre quem foi esse homem”. A professora sorri e oferece o livro “O positivismo – Teoria e prática” (Porto Alegre: Editora UFRGS, 2007), organizado por Hélgio Trindade, como presente ao jovem. Mais tarde, depois de sua fala, Marcelo entende a mensagem da professora.

Maria Izabel diz que o suicídio de Vargas é a lembrança mais remota de sua infância, daí a curiosidade pelo tema. “Lembro-me de ouvir a notícia pelo rádio e ir para a janela. Morávamos no centro de Porto Alegre e tão logo saiu a notícia, já se ouviam tiros. Via muita gente correndo. Era uma grande movimentação pelo centro de Porto Alegre”, recorda. Marcelo não tem essa memória. “Mas sempre me encantei com as histórias contadas pelo meu pai e pelo meu avô, que recebeu a notícia enquanto mexia na sua hortinha. Eles eram grandes admiradores da figura de Vargas”, revela o estudante.


Maria Izabel diz que a morte de Vargas é sua lembrança mais remota da infância. (Foto: João Vitor Santos/IHU)

A forja da Fronteira

Maria Izabel diz que é impossível dissociar de Vargas o fato de ter sido criado na fronteira do Rio Grande do Sul. “Na fronteira, em São Borja, naquela época, era preciso se afirmar enquanto nação”, destaca ao lembrar que essa é uma marca da personalidade de Getúlio. “Afinal, seu governo teve sempre muito forte essa marca, a busca pela constituição de um Brasil enquanto nação”. Para ela, alguém que cresce na bélica fronteira gaúcha necessita dessa afirmação de povo, enquanto nação. É esse ambiente que também faz com que Vargas assuma traços em sua personalidade que mais tarde podem ser significativos para compreender o ato do suicídio. “Pode-se dizer que foi da última geração, ou penúltima, se considerarmos Brizola, que encara a política como batalha”. Isso, na concepção de Izabel, faz do suicídio não um ato de covardia ou de fuga, mas de coragem. “É, sim, um gesto de extrema coragem. É o sacrifício que ele poderia ter feito, a maneira que achou de responder à crise daquele momento”, completa.

De militar a acadêmico

Em toda aquela geração, quando política e guerra se misturavam, era quase inevitável passar pelo serviço militar antes de incursionar pela carreira política. Maria Izabel lembra que com Vargas não foi diferente. “Ele entra no serviço militar e acaba indo com a tropa do sul até o norte, em função da disputa pelo Acre”. Entretanto, recorda a historiadora, quando Vargas e as tropas chegam lá, o Barão de Rio Branco acaba encontrando “uma saída diplomática para a questão, sem a necessidade de guerra”. “E Vargas fica furioso com isso. Veja que passaram fome, pegaram chuva e foram até lá para voltar. Há uma carta dele manifestando a indignação. O resultado é que Vargas se decepciona e deixa o que chama de ‘carreira que serve para receber ordens’”, conta.

É então que o jovem se prepara para a Faculdade de Direito e começa seus estudos. “E nesse período ele vivia numa república e gastava muito dinheiro com livros”, recorda Maria Izabel. Assim, acaba entrando para a política por outra porta: a da Faculdade de Direito, e não pela carreira militar. “Por isso digo que é muito interessante analisar as produções de Vargas desse período. Há as provas dele que revelam muito de sua formação”, diz diretamente ao jovem Marcelo, que sorri e balança a cabeça em sinal de positivo, demonstrando que compreendeu a mensagem e fez a conexão.

Um positivista darwinista

Maria Izabel recorda que Vargas também tem sua passagem pela assembleia dos representantes como um momento importante para a formação do estadista. É ali que se dá o confronto entre republicanos e federalistas, constituindo assim pela primeira vez a ideia de oposição ao governo do estado. Vargas assume esse papel de líder republicano positivista de Júlio de Castilhos. “Mas é preciso compreender que Castilhos faz uma releitura do positivismo de Auguste Comte. É isso que é o castilhismo”, problematiza a professora.

Para ela, é importante ter essa lucidez porque Vargas não era um positivista puro. Embora seguisse o castilhismo, ele tinha suas linhas de fuga. Maria Izabel esclarece isso ao mostrar fragmentos do diário de Getúlio Vargas. Nesse trecho, Vargas fala de uma conversa com o filho Lutero sobre os problemas atuais e como ele buscava inspiração na Filosofia e nas ciências, como a Biologia, para compreender esse mundo. É quando ele demonstra como a Teoria Evolucionista de Charles Darwin o inspira. “Ele diz que a evolução não significa que só o mais forte viverá, e sim o que melhor se adaptar. Fala em melhor se adaptar para melhor lutar”, enfatiza. “É com isso que começo a compreender a lógica política dele para lidar com os políticos e todas as situações daquela época. Ele se adapta ao ambiente, se insere nele para melhor lutar. Isso que está por trás dos movimentos políticos dele. Explica até seus movimentos, que podem ser vistos como contraditórios, na política internacional”, pontua a professora ao indicar a perspicácia do estadista.

O “pai” do empregado e a “mãe” do patrão?

São nos escritos ainda do tempo da Faculdade de Direito que a professora encontra referências de Vargas a Henri de Saint-Simon, filósofo francês com quem Comte trabalhava. “E muitas das ideias de Saint-Simon é que mais tarde foram trabalhadas e desenvolvidas por Comte”. Como falava muito bem francês e tinha acesso aos livros, a professora indica que Vargas foi no que se pode chamar de gene do pensamento positivista. “Saint-Simon diz que o moderno é, de um lado, a questão dos industriários, que são eles que vão mover a economia, as coisas, e, de outro, dos trabalhadores da indústria. Para esse francês, era o Estado que teria esse poder de intervenção e mediação nessa relação”.

Não é ao acaso que esse pensamento de Saint-Simon reporta à relação de Vargas com o empresariado industrial e, ao mesmo tempo, com os trabalhadores. Pelos indícios trazidos por Maria Izabel, fica a possibilidade da inferência de que Vargas constitui suas grandes ações de estadista, como a criação da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, por essa inspiração. Uma inspiração que se revela no espírito darwinista com que se move sem pôr fora o castilhismo, mas tendo sua própria leitura do positivismo, conciliando interesses de trabalhadores e empresários da indústria, numa espécie de conciliação que vai desde diferentes polos políticos a classes sociais. Marcelo, e todos os demais, saem da conferência com esse desafio de pensar nessas possibilidades para compreender ainda mais essa figura tão inusitada da história política do Brasil. E, claro, a partir daí, pensar o momento atual, as associações e dissociações do cenário político do Brasil de hoje.


Marcelo quer estudar Vargas na Faculdade de Direito (Foto: João Vitor Santos/IHU)

Saiba mais sobre Getúlio Vargas

Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja, no Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1882. Foi advogado e político, líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, depondo seu 13º e último presidente, Washington Luís, e impedindo a posse do presidente eleito em 1º de março de 1930, Júlio Prestes.

Foi presidente do Brasil em dois períodos. O primeiro período foi de 15 anos ininterruptos, de 1930 até 1945, e dividiu-se em 3 fases: de 1930 a 1934, como chefe do "Governo Provisório"; de 1934 até 1937 como presidente da república do Governo Constitucional, tendo sido eleito presidente da República pela Assembleia Nacional Constituinte de 1934; e, de 1937 a 1945, como presidente-ditador, durante o Estado Novo implantado após um golpe de estado.

No segundo período, em que foi eleito por voto direto, Getúlio governou o Brasil como presidente da República, por três anos e meio, de 31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954, quando se suicidou. Vargas atirou contra o próprio peito, em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.

Considerado o mais importante presidente da história do Brasil, sua influência se estende até hoje. O IHU tem uma série de publicações acerca dessa figura histórica. A revista IHU On-Line publicou o Dossiê Vargas, por ocasião dos 60 anos da morte do ex-presidente.

Vargas também é tema da edição 111, de 16-08-2004, intitulada A Era Vargas em Questão – 1954-2004, e do número 112, de 23-08-2004, chamada Getúlio.

Na edição 114, de 06-09-2004, Daniel Aarão Reis Filho concedeu a entrevista O desafio da esquerda: articular os valores democráticos com a tradição estatista-desenvolvimentista, que também abordou aspectos do político gaúcho.

Em 26-08-2004, Juremir Machado da Silva, da PUC-RS, apresentou o IHU ideias Getúlio, 50 anos depois. O evento gerou a publicação do número 30 dos Cadernos IHU ideias, chamado Getúlio, romance ou biografia?

Ainda a primeira edição dos Cadernos IHU em formação, publicada pelo IHU em 2004, foi dedicada ao tema, recebendo o título Populismo e Trabalho. Getúlio Vargas e Leonel Brizola.

Maria Izabel Noll

Graduada em História e mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, também é doutora em Ciência Política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, França. Foi professora visitante no Center for Latin American Studies na Universidade de Stanford, Estados Unidos, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, França. É professora no Departamento de Ciência Política e no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFRGS e atualmente está na vice-direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH da UFRGS e na direção do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Política Rio-Grandense - Nupergs.

Confira a entrevista concedida à revista IHU On-Line, número 491, de 22-08-2016, intitulada “Getúlio e Lula: aproximações, distanciamentos, ganhos e limites de duas Eras”.

Confira o vídeo da conferência clicando aqui.

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