John Henry Newman e a mundanidade espiritual. Artigo de Hermann Geissler

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17 Agosto 2016

"A advertência de John Henry Newman sobre a ‘religião do mundo’, que adapta o Evangelho ao espírito do tempo e se expressa em um cristianismo morno, superficial e puramente horizontal, ainda tem uma enorme atualidade. O Papa Francisco continua esse programa com decisão."

A opinião é do teólogo e padre austríaco Hermann Geissler, membro da Congregação para a Doutrina da Fé e diretor do Centro Internacional dos Amigos de Newman, em Roma. O artigo foi publicado no jornal L'Osservatore Romano, 12-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Embora os cristãos sejam chamados a viver a sua missão no mundo, de fato, eles não são do mundo. Em muitos sermões, John Henry Newman fala da tentação de um cristianismo mundano, um perigo frequentemente tematizado também pelo Papa Francisco.

"A mundanidade espiritual, que se esconde por trás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja", escreve o pontífice na exortação apostólica Evangelii gaudium, "é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal" (n. 93).

No dia 26 de agosto de 1832 – na idade de apenas 31 anos e no início do Movimento de OxfordNewman proferiu um sermão sobre "A religião do dia". Com esse termo, ele entendia uma religião feita pelos homens, assumindo elementos cristãos que são agradáveis no momento e ignorando outros que parecem ser pouco úteis ou em contraste com o pensamento dominante.

Tal cristianismo à la carte, que Newman também chama de "religião do mundo", contém muitos aspectos verdadeiros, mas não toda a verdade. O nosso pregador usa aqui uma linguagem muito forte: "Sabemos muito bem, a partir das experiências de vida mais comuns, que uma meia-verdade, muitas vezes, é a mais grosseira e nociva das mentiras". Na "religião do mundo", na mundanidade espiritual, podem-se ver, em última análise, os traços do Maligno que é o "pai da mentira" (Jo 8, 44).

De acordo com Newman, tal "religião do mundo" existiu em todas as épocas da Igreja, embora tenha assumido formas diferentes ao longo da história. Nos primeiros séculos cristãos, "o mundo construiu, com a ajuda dos filósofos do dia, uma contrarreligião, em parte semelhante ao cristianismo, mas, na realidade, sua acérrima inimiga". Obviamente, com essas palavras, Newman se refere à gnose, que foi uma terrível ameaça para o cristianismo e que renasce nos nossos dias, por exemplo, na forma da chamada "Nova Era".

Mais tarde, Satanás inventou um segundo ídolo a se opor ao verdadeiro Cristo, construindo de uma "religião do terror": então, escolheu "o lado mais escuro do Evangelho, o seu tremendo mistério, a sua terrível glória, a sua inflexível justiça soberana", ignorando que "Deus também é amor", com a consequência de que "a nobre firmeza e a benevolente austeridade dos cristãos autênticos permaneceram ofuscadas por fantasmas ameaçadores, duros de olhar e de fronte imponente".

Depois desse breve olhar histórico, Newman afirma que, no seu século, a "religião do dia" assumiu uma forma diametralmente oposta: "Ela escolheu do Evangelho o seu lado mais sereno: o anúncio da consolação, os preceitos do amor recíproco. Assim, permanecem relativamente esquecidos os aspectos mais obscuros e mais profundos da condição e das perspectivas do homem. É a religião natural em uma época civil, e Satanás astutamente adornou-a e aperfeiçoou-a até fazer dela um ídolo da verdade. Enquanto a razão prosperar, enquanto o gosto se formar, e refinarem-se os afetos e os sentimentos, será inevitável que, na superfície da sociedade, se difunda, de modo totalmente independente da influência da revelação, um costume geral de honestidade e de benevolência".

Um século mais tarde, o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer, que morreu em um campo de concentração, advertiria, com palavras semelhantes, contra a "graça barata", que chama o inimigo mortal da Igreja: "A graça barata é a pregação do perdão sem penitência, é o batismo sem ascese da comunidade, é a ceia sem a confissão dos pecados, é a absolvição sem arrependimento pessoal. A graça barata é graça sem seguimento, graça sem cruz, graça sem Jesus Cristo, Filho de Deus vivo e encarnado".

Como Newman mostra, nessa nova "religião do mundo", as virtudes naturais geralmente são apreciadas, os modos são corteses, a beleza e a delicadeza de pensamento são consideradas atraentes, certos vícios são desaprovados. Mas Deus e todo o mundo do sobrenatural não são mais considerados importantes, o pecado é banalizado, a verdade, relativizada.

Em suma: trata-se de uma religião feita pelo homem que aceita alguns princípios mundanos, mas "abandona um lado inteiro do Evangelho, isto é, o seu carácter austero – Bonhoeffer falaria, nesse contexto, da "graça cara" – e considera que basta ser benevolente, cortês, cândido, correto na conduta, delicado e que não inclui o verdadeiro temor de Deus, nenhum verdadeiro zelo pelo Seu serviço, nenhum ódio profundo pelo pecado, nem a adesão fervorosa à verdade doutrinal, nenhuma sensibilidade especial em torno aos meios individuais aptos a alcançar os fins, contanto que os fins sejam bons, nenhuma lealdade de sujeição à santa Igreja apostólica de que fala o Credo, nenhum sentido da autoridade da religião senão dentro da mente: em uma palavra, uma doutrina que não tem seriedade e, por isso, não é quente nem fria, mas (segundo a palavra da Escritura) é simplesmente morna".

Newman considera que essa "religião do mundo" já é dominante, porque "não agimos impulsionados pelo amor à verdade, mas sim sob a influência dos tempos". Muitos fiéis, de fato, equipararam a vinda do reino de Cristo com o progresso da civilização moderna: "Eles sacrificaram a Verdade às vantagens". Ignoram que todos os homens são prisioneiros do pecado e necessitados da graça de Deus para serem salvos e que Jesus nos convida a nos esforçarmos quando fala, por exemplo, da porta e do caminho estreitos (cfr. Mateus 7, 14). Muitos pensam que "não devemos nos assustar, que Deus é um Deus de misericórdia, que basta se emendar para cancelar as transgressões, que o mundo, no fim das contas, está bem disposto à religião, que não é bom exceder na seriedade, que, em tema de natureza humana, não se deve ter ideias restritas. Eis, portanto, o credo dos homens que não têm nenhum pensamento profundo".

Newman sabe que "a paz do espírito, a tranquilidade da consciência e a alegria da expressão representam um dom do Evangelho e o distintivo do cristão", mas acrescenta que "os mesmos efeitos podem derivar de causas bem diferentes. Jonas dormiu durante a tempestade, e nosso Senhor fez o mesmo. Mas um repousava em uma segurança malvada; o Outro, na paz de Deus que supera toda compreensão. As duas condições não são passíveis de confusão, são perfeitamente distintas, assim como é diversa a calma do homem do mundo e a do cristão".

Hoje muitos vivem como Jonas, que fugiu diante de Deus, não reconheceu a sua culpa e se contentou com uma paz apenas aparente. Tal quietude e tal paz, no entanto, não têm qualquer duração.

Newman indica, em suma, qual é a resposta certa para o desafio da "religião do mundo": a síntese dos diversos aspectos da fé cristã, que é fundamental para toda abordagem verdadeiramente católica. Acima de tudo, é decisiva a imagem de Deus que deve suscitar no nosso coração tanto amor quanto reverência: "O temor de Deus é o princípio da sabedoria. Enquanto vocês não virem a Deus como um fogo consumador e não se aproximarem d’Ele com reverência e com santo temor, pelo motivo de que serem pecadores, não poderão dizer que estão nem mesmo vendo a porta estreita. O temor e amor devem andar juntos; continuem temendo, continuem amando até o último dia da sua vida".

A partir desse profundo conhecimento de Deus, segue o reconhecimento da própria pecaminosidade e a confiança na misericórdia de Deus: "Enquanto vocês não conhecerem o peso das suas culpas, e não simplesmente com a fantasia, mas na prática, não simplesmente para confessá-las com uma frase de contrição formal, mas cotidianamente e no segredo do seu coração, não poderão acolher a oferta de misericórdia que o Evangelho lhes faz através da morte de Cristo".

Essas atitudes levam os fiéis ao abandono amoroso a Deus e ao compromisso sério com o bem: "O conhecimento das culpas de vocês aumentará com o aumento da visão da misericórdia de Deus no Cristo. Essa é a verdadeira condição cristã e a máxima semelhança à calma do Cristo e ao seu plácido sono durante a tempestade, aos quais é possível chegar; não são a perfeita alegria e a perfeita certeza que pertencem ao céu, mas sim uma profunda resignação à vontade de Deus, um abandono de nós mesmos, corpo e alma, a Ele; sem dúvida na esperança de ser salvos, mas fixando os olhos mais n’Ele do que em nós mesmos, ou seja, agindo pela Sua glória, tentando comprazê-lo, dedicando-nos a Ele com viril obediência e intensidade de boas obras".

A advertência de Newman sobre a "religião do mundo", que adapta o Evangelho ao espírito do tempo e se expressa em um cristianismo morno, superficial e puramente horizontal, ainda tem uma enorme atualidade. Não por acaso, Bento XVI, no seu famoso discurso de 25 de setembro de 2011, no Konzerthaus de Friburgo, convidou a Igreja a um distanciamento do mundo.

O Papa Francisco continua esse programa com decisão. "Quando caminhamos sem a Cruz", reiterou ele na homilia durante a sua primeira missa com os cardeais depois da eleição à cátedra de Pedro, "quando edificamos sem a Cruz e quando confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor".

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