Lutero e os judeus, o novo livro de Thomas Kaufmann

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16 Agosto 2016

"Em todos os lugares em que, como na Itália dos guetos, privilegiou-se a missão aos judeus, a presença judaica foi garantida. Em todos os lugares em que, como na Espanha em 1492, e na Alemanha luterana, a missão foi reconhecida como impossível, as expulsões e as violências tomaram o lugar dos impulsos proselitistas. Independentemente de como se pense sobre isso hoje, esse era o contexto histórico em que Lutero proferia as suas invectivas contra os judeus."

A opinião é da historiadora italiana Anna Foa, intelectual da religião judaica e professora da American University of Rome. O artigo foi artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 13-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No processo de Nuremberg, Julius Streicher, o diretor da revista antissemita nazista "Der Stürmer", diante da notícia de ter sido condenado à morte, fez uma delação premiada e afirmou que, naquele banco dos réus, quem deveria estar sentado era Martinho Lutero, e não ele. E, de fato, é verdade que os escritos de Lutero sobre os judeus foram amplamente utilizados pelos nazistas para a sua propaganda antissemita, até fazer derivar da sua Reforma as suas teses racistas e antissemitas.

Lutero, portanto, teria sido um precursor de Hitler, transformando os antigos módulos de hostilidade aos judeus em verdadeiros esquemas antissemitas, baseados no sangue e na ideia de que os judeus eram, por natureza e não por convicção religiosa, diferentes dos cristãos?

Esse é o tema no centro do recente livro de Thomas Kaufmann, professor de história da Igreja na Universidade de Göttingen, Gli ebrei di Lutero [Os judeus de Lutero] (prefácio de Daniele Garrone, Turim: Claudiana, 2016, 219 páginas).

Um tema, recordamos, que deu espaço, nas últimas décadas, na esteira da reflexão sobre a Shoá, a muitas análises e pesquisas, na tentativa de explicar a origem, no pensamento de Lutero, de formulações tão diversas, desde aquelas consideradas como "pró-semitas" dos primeiros anos da sua vida até aquelas virulentamente antissemitas dos últimos anos.

No seu estudo, Kaufmann tenta encontrar a raiz comum dessas diferentes posições de Lutero na relação que a "questão judaica" teve com a sua teologia e com a sua obra reformadora. Um discurso que continua sendo interno ao cristianismo, à Reforma Luterana, em particular, e nunca se inspira nas relações concretas de Lutero com as comunidades judaicas ainda presentes na Alemanha. Relações, na realidade, muito escassas, como Kaufmann ressalta: muitos dos lugares onde Lutero viveu não tinham judeus, já expulsados anteriormente, e os encontros efetivos tidos por Lutero com judeus reais, de carne e osso, podem ser contados nos dedos de uma mão.

Mais uma vez, como no catolicismo, os judeus representam um peão de um jogo interno ao mundo cristão, o espelho invertido da maioria. Mas, mesmo assim, desprovidas como são de raízes em uma presença concreta de judeus ao redor dele, as posições de Lutero mudam radicalmente no espaço de mais ou menos 20 anos, passando pelo seu texto, considerado decisivamente pró-semita, de 1523, "Jesus Cristo nasceu judeu", aos de 1543 e, em particular, ao "Dos judeus e das suas mentiras", que acusa os judeus das piores atrocidades, da magia ao homicídio ritual, e deseja a sua expulsão.

Qual é, pergunta-se Kaufmann, o fio condutor que liga em uma relação de continuidade essas duas posições tão diferentes? Esse fio condutor, para ele, é o retorno à pureza da Igreja evangélica primitiva, uma leitura do Antigo Testamento em chave cristã: para Lutero, assim como a Igreja Católica havia abandonado a pureza primitiva, assim também os judeus tinham se afastado dos textos sagrados, corrompendo-se com o Talmude. Uma posição que tem muito em comum com aqueles ataques medievais ao Talmude que viam nele uma nova heresia, com a diferença de que, aqui, os atingidos são, juntos, os judeus e a Igreja Católica.

Mas agora que a Reforma de Lutero iniciou uma transformação radical da Igreja, com o retorno à pureza dos textos, nada mais impede que os judeus abracem o cristianismo. Daí a expectativa de que os judeus se convertessem em massa a uma religião transformada por Lutero e que abraçassem esse cristianismo renovado. Dessas massas de judeus, um só se converteu inspirado por Lutero e no seu ambiente, o rabino Jacob Gipher, depois do batismo, Bernardo.

Portanto, haveria uma decepção na origem da mudança de rota de Lutero em relação aos judeus? Ou, melhor, a ideia de que, se os judeus não se convertiam nem ao cristianismo reformado de Lutero, era porque era impossível convertê-los?

A passagem da expectativa "conversionista" à total desconfiança na possibilidade da conversão é visível no percurso de Lutero e acaba representando, no fundo, em raiz, a passagem de uma imagem do judeu como infiel mas não radicalmente outra em relação ao cristão à do judeu seduzido pelo diabo e semelhante aos fantasmas do antijudaísmo popular, com a sua bagagem de envenenamentos e homicídios rituais. Uma imagem que contrasta fortemente, ao menos nas últimas obras, com a de um Lutero defensor da tolerância e da liberdade de pensamento que tinha se afirmado com o pietismo e o Iluminismo na Alemanha.

Em essência, para Kaufmann, o antissemitismo de Lutero não é apenas "o lado escuro da sua natureza", mas "um componente integral da sua pessoa e da sua teologia". O único modo para compreender o seu sentido, para subtrair a sua figura da reinterpretação que dela foi feita pelo nazismo, diz, é o de recolocá-lo no seu tempo, para ler as suas invectivas levando em conta tanto as fantasias vulgares quanto as percepções negativas dos humanistas, dos homens de cultura. Um contexto de ódio, em suma.

Mas, talvez, haja outro fator a se considerar, e é o papel desempenhado naqueles séculos pela política voltada às conversões. Em todos os lugares em que, como na Itália dos guetos, privilegiou-se a missão aos judeus, a presença judaica foi garantida. Em todos os lugares em que, como na Espanha em 1492, e na Alemanha luterana, a missão foi reconhecida como impossível, as expulsões e as violências tomaram o lugar dos impulsos proselitistas.

Independentemente de como se pense sobre isso hoje, esse era o contexto histórico em que Lutero proferia as suas invectivas contra os judeus.

Leia mais:

A sombra antissemita e protorracista de Lutero: é preciso historicizá-lo. Artigo de Thomas Kaufmann

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