“Os indígenas me evangelizaram e me fizeram entender o valor das pessoas”. Entrevista com Fermina López

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09 Agosto 2016

No último dia 05 de agosto, a missionária salesiana Fermina López (foto) completou 50 anos de vida religiosa. Ao longo deste tempo, se há um elemento que marcou sua vida é a missão, pois não em vão chegou à Amazônia brasileira em outubro de 1969, onde, ao longo deste tempo, converteu-se em uma referência na vida da diocese de São Gabriel da Cachoeira, lugar onde passou a maior parte dos anos.

 
Fonte: http://bit.ly/2b8Nvyf  

Atualmente, realiza seu trabalho missionário na Paróquia de Taracuá, uma pequena comunidade indígena na beira do Rio Uaupés.

Trata-se de um lugar com uma beleza singular, mas ao mesmo tempo de difícil acesso devido às grandes distâncias e com poucas comodidades, para os padrões ocidentais, energia elétrica durante poucas horas por dia, falta de internet, telefones que funcionam um dia sim e muitos não...

A religiosa, natural de León, conta-nos nesta entrevista o que a levou a ser missionária e como foi cultivando sua vocação a partir do contato com os povos indígenas, dos quais confessa ter aprendido muitas coisas.

A entrevista é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 06-08-2016. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que foi que a levou a ser missionária?

Desde menina, é algo que aprendi no grupo missionário da paróquia, o que era a missão, o Reino, trabalhar pelos pobres e pelas crianças. Eu era do grupo missionário, e, depois, no aspirantado e no noviciado também. E aí foi se alimentando cada vez mais esse desejo... Já no primeiro ano de profissão fiz o pedido e me enviaram para a América, que era o que eu queria.

Sempre trabalhou no Brasil, sempre na Amazônia?

Sempre na Amazônia, desde o dia 12 de outubro de 1969, festa de Nossa Senhora Aparecida, até hoje.

O que alimenta esse desejo de continuar na missão?

A força da própria vocação, a paixão pelo Reino, o amor pelos pobres, o desejo de ser fiel à consagração até o fim.

Destes quase 47 anos na Amazônia, a maior parte do tempo esteve no Rio Negro, na diocese de São Gabriel da Cachoeira, com os povos indígenas. O que destacaria da sua relação com os povos indígenas, o que foi que aprendeu com eles?

Aprendi tudo. Eles me evangelizaram, eles me fizeram entender o valor das pessoas, deixar de lado todos os preconceitos que trazia, todo o etnocentrismo próprio de outra época. Eles me ensinaram a ler a Bíblia na chave dos pobres, do Reino, a compartilhar. Fui aprendendo com eles, desde São Gabriel até Yauareté, em Taracuá, Barcelos, Santa Isabel... Em todos os lugares, foram muitos os ensinamentos que pude adquirir de seu testemunho, de sua vida real, mais importante que nos livros.

Em seu trabalho missionário, evangelizador, arrepende-se de alguma coisa que fez ao longo destes anos?

Não ter aprendido as línguas indígenas. O maior arrependimento e a maior vergonha é essa. Tive oportunidades, tenho os cadernos, gravações, cantos, mas não domino a língua.

Quais são as consequências dessa falta de aprendizagem da língua?

Estão sendo muitas. Perde-se muitas coisas nos cursos por não entender as palavras chaves. Entendo o mais geral, por onde vai a conversa. Mas, é um prejuízo muito grande para a comunicação com as pessoas, com os jovens. Você não consegue entender o que eles pensam, pois eles não se abrem para falar as coisas importantes se não é em sua língua materna.

Ultimamente, na diocese de São Gabriel da Cachoeira, sendo você uma das coordenadoras desse trabalho, está se trabalhando a catequese inculturada. O que esse trabalho representa para os povos indígenas?

A primeira assembleia na qual começamos a nos preocupar com a inculturação aconteceu na década de 1980. Vinte anos depois, começou a se concretizar essa teoria, esse sonho, esse desejo de inculturação. Isso vai trazer um bem muito grande para eles se sentirem valorizados, respeitados, para acabar com a caminhada histórica de que os missionários acabaram com as culturas indígenas.

Agora, estamos em outros tempos, são outras pessoas, outro contexto. Está se dando muito valor às línguas indígenas, aos costumes, à mitologia, a tudo o que é sua vida. A riqueza de vida que eles têm e que não manifestavam, mas que agora estão manifestando. É uma grande vantagem, um benefício muito grande, que vai acabar com a timidez, com o medo, com tudo o que eles sofriam por causa de nós, missionários, da Igreja, com tantas normas, tantas leis.

Tudo isso está se diluindo e eles estão sendo mais valorizados, pois se sentem mais donos da sua cultura, da sua terra, da sua história, das pastorais, da animação... Eles agora estão em tudo e nós nos bastidores, ou deveríamos estar.

Em que medida a chegada do Papa Francisco, um Papa latino-americano, ajudou no trabalho pastoral com os indígenas?

Ajuda porque tudo o que ele diz é lido e depois aproveitado para falar para os outros e meditá-lo. Por outro lado, nós missionários da fronteira estamos fazendo tudo o que ele diz, ou melhor, já fazíamos. Está sendo motivo de grande alegria o que ele diz sobre a natureza, sobre a Terra, sobre os pobres... Nós estamos fazendo a opção pelos excluídos. É o que nós queríamos, pois estamos vivendo isso e vamos continuar a vivê-lo.

Tudo isso está sendo repassado para os povos indígenas a partir da opção que fizemos, como congregação e também pessoalmente, aceitando vir a este lugar onde não se tem nada, ou se tem tudo, pois temos Jesus, os jovens.

É difícil viver em um lugar onde não se têm coisas que muita gente considera indispensáveis, com energia elétrica em algumas horas do dia...?

Para mim não está sendo difícil. Eu sabia que era assim, pois estou aqui pela segunda vez. A primeira vez era com velas, com pilhas, com candelabros; agora é melhor, pois temos placas solares e baterias, o que permite ter televisão em algumas horas. Foi um momento para dar um descanso a um mundo com tanto e-mail, tantas coisas, tendo tempo para arejar a cabeça.

 
Fonte: http://bit.ly/2b8Nvyf  

Em um lugar assim, se descobre mais facilmente a presença de Deus?

A presença de Deus é muito mais perceptível, de uma forma contínua. Nada pode perturbar a união com Deus, nem o trabalho, nem o calor, nem as pessoas. Tudo é mais tranquilo. Deus está entre nós, segue na frente, ao nosso lado, nos acompanha a cada momento, nos dá saúde, ânimo, disposição. Ele é o único que pode fazer isso. Ele é nossa única recompensa em um ambiente sim ninguém para poder conversar com maior profundidade.

Você saiu da Espanha há quase 50 anos, em uma realidade social totalmente diferente. Quando hoje vai para a Espanha, o que pensa da realidade espanhola, da Igreja espanhola, da família? A Espanha é hoje uma realidade estranha?

A Espanha é algo que já foi doado e não me pertence mais. Entreguei a Deus. Meu mundo, minha vida agora é aqui. Tudo isso foi uma oferta que não se pode retomar.

Não sente saudades?

Sim. Muita vontade de ver os meus sobrinhos, a minha irmã, meu cunhado, minhas tias, minhas amigas. Mas não sinto falta. Quando vou lá, penso que tudo é muito bonito, com conversas agradáveis, as músicas, as comidas deliciosas... Mas é algo que já passou, que já foi entregue a Deus e que não vale a pena olhar para trás, pois Ele é minha recompensa e quem completa a minha vida. A saudade é grande, mas é oferecida a Deus cada dia.

Sinto muito próximos os meus pais já falecidos, a família, as minhas companheiras de congregação da Espanha. Todos eles estão comigo aqui.

Há alguma coisa que gostaria de acrescentar?

Simplesmente, beijos e abraços para todos, especialmente para as equipes missionárias de León, que conheci e onde pude dar minha colaboração no tempo em que estive cuidando do meu pai, quando as frequentava e delas participava.

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