O grito que vem da pobreza evangélica de Santa Clara de Assis

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Por: Jonas | 07 Junho 2016

O que tem a nos dizer, neste século XXI, no contexto de uma sociedade que prima pelo bem-estar acima de tudo, até mesmo acima da dignidade dos pobres e famintos da terra, a pobreza evangélica de Clara de Assis? Este, possivelmente, foi um dos grandes questionamentos que penetrou o coração de cada um dos participantes que se reuniram no último sábado, 04 de junho, na Casa do Trabalhador, em mais uma etapa do Rezar com os Místicos, promovido pelo CJCIAS/CEPAT, com o apoio do IHU. Frei Marcos Roberto Rocha de Carvalho, OFMCap., do Centro Franciscano de Espiritualidade, de Piracicaba-SP, apresentou os principais momentos da vida de Santa Clara de Assis, enfatizando a sua determinação em ser fiel ao seguimento radical do Cristo Pobre.

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT.

 
Foto: Ana Paula Abranoski  

Em toda a sua vida, Santa Clara (1193- 1253) jamais esmoreceu, demonstrando uma coerência implacável no seguimento de Jesus, ao qual se entregou plenamente. Sem titubear, fez valer a sua generosa decisão em abandonar os prestígios e seguranças da vida nobre, para viver de forma humilde e pobre a radicalidade evangélica.

Clara nasceu em Assis, na região da Úmbria (Itália), em uma família nobre, que residia próxima à Catedral de São Rufino. Neste núcleo familiar recebeu uma ótima formação, importantíssima e singular em tempos tão duros para as mulheres. Da mãe, Hortolana, obteve condições para dar os primeiros passos na vida espiritual. Desde aí, Clara já demonstrava ser uma mulher de grande coração, aberto e solidário aos mais pobres.

Contudo, é a partir da escuta das pregações de São Francisco e do início de uma amizade espiritual profunda e frutífera com o mesmo, que Santa Clara toma a decisão definitiva de jamais trair os anseios de seu coração, fortemente tocado pelo Espírito de Deus, que a impeliu a viver para sempre ao lado de Seu Amado, o Cristo Pobre. O Domingo de Ramos, do dia 18 de março de 1212, é considerado fundamental na vida de Clara, quando foge de casa, ultrapassando os muros de Assis e é acolhida por Francisco e seus frades na Porciúncula, onde se consagra a Deus.

Segundo Frei Marcos Roberto, com esta decisão, Santa Clara inova ao se tornar a primeira mulher “frade” junto aos irmãos de Francisco, apresentando uma situação inédita, o ponta pé inicial para a criação das condições necessárias para que as mulheres também pudessem abraçar este carisma: a vida de fraternidade, sem hierarquias, nutrida pelo desejo de viver na radicalidade o Evangelho de Jesus Cristo, ao lado dos pobres.

Frei Marcos Roberto também ressaltou que é errônea qualquer leitura histórica que coloque Clara à sombra de Francisco, pois ambos tiveram papéis fundamentais para que o carisma fundante de sua fraternidade não se perdesse. Aliás, pelo fato de viver 27 anos a mais que Francisco, Clara foi fundamental para a manutenção das origens da chama evangélica que sustentou todo o vigor apostólico do Santo de Assis.

 
Foto: Ana Paula Abranoski  

Um olhar atento à Clara de Assis faz perceber que a sua insistência na vivência da pobreza evangélica é, até os dias atuais, um incômodo para aqueles que negam a necessidade de “uma Igreja pobre e para os pobres”, tão desejada, hoje, não por acaso, pelo Papa que se chama Francisco. Neste sentido, Frei Marcos Roberto ressaltou que Clara jamais aceitou deixar de ser pobre, mesmo diante das advertências de membros da hierarquia católica, quando, em determinados momentos, procurou impedir esta vivência. É o caso, por exemplo, do Papa Gregório IX que, em 1228, propõe lhe dar propriedades e dispensá-la do voto de pobreza, em dissonância com o “Privilégio da Pobreza” que sua comunidade havia obtido do Papa Inocência III, em 1216. Diante de tal proposta, Clara simplesmente expressou que não aceitava ser dispensada de seguir Jesus Cristo.

A relação de Clara de Assis com a hierarquia católica sempre foi permeada por essas disputas de interpretação acerca de qual seria o caminho oportuno para a sua comunidade de mulheres. Felizmente, a história demonstra que prevaleceu a firmeza de decisão, a humildade e o testemunho de vida de Santa Clara de Assis. Não por acaso, apesar de todos os revides, a Pobre de Assis se tornou pioneira ao ser a primeira mulher da história da Igreja a estabelecer uma ‘Forma de Vida’ escrita e aprovada pela Hierarquia. Como mulher, marcou sua época, demonstrando grande habilidade política no trato com os homens da Igreja e fazendo valer sua inspiração inicial no seguimento de Jesus Cristo.

 
Fonte: https://goo.gl/vC7ztz  

Frei Marcos Roberto destacou que a pobreza evangélica vivida por Clara de Assis deve ser compreendida para além das categorias sociológicas. Trata-se de um esvaziar-se, tendo como modelo o próprio Filho de Deus que se encarnou e se fez um de nós. Cristo é o seu espelho, daí o desenvolvimento de uma espiritualidade dos esponsais, que compreende a Igreja como esposa de Cristo, aquele a quem Santa Clara amou com espírito de piedade e penitência, a partir de uma vida religiosa marcada pela autenticidade.  

Clara enxerga o mundo com os olhos da fé, por isso sua pobreza é fecunda. É muito mais do que ausência de bens materiais, é vazio acolhedor, condição necessária para que se possa receber a graça de Deus. A dimensão contemplativa em Clara de Assis é fogo que não se apaga, que torna visível a presença de Deus em todos e em tudo. Clara torna sua própria vida um louvor agradável a Deus.   

Neste século XXI, o ideal de vida de Santa Clara de Assis parece loucura frente aos ditames do capitalismo. Seu despojamento, seu pauperismo, sua bondade gratuita..., enfim, tudo nela é denúncia gritante. Em um mundo povoado por ideias, coisas e sucatas, Clara segue atual ao nos lembrar que o seguimento de Cristo passa pelo desprendimento, pelo desapego e pelo esvaziamento capaz de nos aproximar do Reino pregado por um tal Nazareno, nosso verdadeiro irmão.

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