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01 Junho 2016

Morta aos 22 anos por um ex-namorado ciumento. Um roteiro que se repete de forma idêntica, exceto por ter gerado, desta vez, ainda mais espanto e horror: porque Sara Di Pietrantonio não foi estrangulada ou esfaqueada, mas queimada viva.

A reportagem é de Elisabetta Ambrosi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 31-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, a crônica dos fatos nunca vai nos explicar por que Sara e todas as outras foram mortas. E nem mesmo as motivações psicológicas – a rejeição de uma separação que está quase sempre na base dos feminicídios – bastam para dar razão de um assassinato (de fato, permanece sem resposta a pergunta: como a angústia de uma separação pode levar a um homicídio, e tão hediondo?).

Em vez disso, é muito mais útil indagar as razões culturais do radical desprezo pela mulher, que não só ainda está profundamente vivo, mas também representa um ponto de convergência de toda a nossa tradição filosófica e intelectual em geral. Essa é a tese de um ensaio escrito pelo filósofo Paolo Ercolani, Contro le donne. Storia del più antico pregiudizio [Contra as mulheres. História do mais antigo preconceito] (Ed. Marsilio).

Histéricas, instáveis, irracionais, não confiáveis, emotivas, arautas dos males e das piores desgraças, antissociais, ferozes, prostitutas: o que Ercolani descobriu é que esses julgamentos são compartilhados praticamente por todos os teóricos ocidentais, de Pitágoras a Proudhon (e além).

Ou, melhor, pode-se dizer que nada une mais os mais famosos pensadores – divididos em relação a todo o resto – do que o julgamento malévolo sobre a mulher. Até mesmo aqueles aparentemente mais progressistas. Até mesmo aqueles que apoiaram a necessidade de desconstruir todos os preconceitos. Até mesmo os ateus.

Relendo-a a partir desse ponto de vista, a história do nosso pensamento parece ser de uma uniformidade e de um conformismo inquietantes. Parte-se de longe: Platão e Aristóteles se expressaram de forma violenta sobre o gênero feminino, um pondo em dúvida a sua inteligência, o outro defendendo que o gênero feminino era inferior do ponto de vista natural, isto é, físico e mental.

Parece incrível, mas, antes do aparecimento de Cristo, já tinha sido dito todo o mal possível sobre as mulheres. Tanto que Santo Agostinho retoma literalmente o que Platão dizia, enquanto São Tomás – que definia a mulher como um homem falho – remete a Aristóteles.

Os Padres da Igreja, todos, concordam em considerar Eva, como definida por Tertuliano, como a "porta do diabo". Mas, em relação ao julgamento sobre as mulheres, a Idade Média é imbatível: Montaigne, o primeiro filósofo que defendeu os animais, além dos direitos dos índios, quando fala da mulher, defende que ela é tão inferior que não se deve sequer entreter relações de amizade com ela.

Não há nenhuma esperança nem mesmo nos filósofos da Revolução Francesa. No seu livro mais célebre, o Emílio, Rousseau fala da educação das mulheres através da figura de Sofia e explica que a sua tarefa é cuidar da casa e se calar quando um homem fala.

Mas as contradições não terminam com o Iluminismo. Com Nietzsche, a violência das expressões também chega ao ápice: "Vai ao encontro das mulheres? Não se esqueça do chicote".

As coisas também não mudam muito com a entrada do século XX, já que Sigmund Freud descreve a mulher substancialmente como um "homem castrado", invejosa do pênis e, por isso, neuroticamente em busca do amor do homem.

E ainda: o homem que se lançou contra a propriedade privada, Proudhon, defendia que a mulher era uma propriedade privada do homem. Por outro lado, a Rússia bolchevique e, depois, staliniana também era revolucionária em tudo, exceto na família. Posições que convergem, e este é o paradoxo, com o pensamento liberal, já que Hayek cantava hinos à Suíça, aonde o voto feminino chegou com grande atraso, enquanto Mises teorizava uma divisão clássica em que o homem trabalhava, e a mulher cuidava da casa.

E, hoje, mudou alguma coisa? De acordo com o autor, não. Os homens continuam pensando certas coisas. Muitos, escreve Ercolani, compartilham a posição de Ovídio, que, no seu tratado sobre o amor, defende que a mulher gosta de ser tomada com violência. Se pensarmos que um dos últimos relatórios da ONU assinala que uma em cada três mulheres do mundo sofreu violência sexual ou física, entendemos que a teoria incide, e como, na prática. E que esta última tem raízes culturais talvez desconhecidas para os que matam, mas que animam os seus gestos violentos. É a partir daí, então, que é necessário recomeçar.

  • Paolo Ercolani. Contro le donne. Editora Marsilio, 318 páginas.

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