Uma palavra de liberdade da qual não temos os direitos autorais: as Igrejas e a língua de Pentecostes

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11 Mai 2016

O Pentecostes coloca novamente no centro a Palavra que, sem o Espírito, é morta, e o Espírito que, sem a Palavra, é afônico. A Escritura oferece a partitura; o Espírito inspira a execução da sinfonia. E a Igreja é a orquestra chamada a executar o concerto de Deus, para este nosso tempo.

A reflexão é da pastora batista italiana Lidia Maggi, em artigo publicado na revista Riforma, semanário das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdense italianas, 13-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando Israel foi arrancado da terra do Egito, ele se perguntou: como farei para caminhar para longe das armadilhas da escravidão? Como farei para falar a língua desconhecida da liberdade? Deus, então, fez um dom ao seu povo: a Torá, uma gramática de liberdade.

Quando os discípulos receberam o anúncio de que as correntes da morte tinham sido definitivamente despedaçadas, eles se perguntaram: como faremos para proclamar ao mundo essa mensagem de libertação? Deus, então, fez um dom: línguas de fogo, voz divina descida do céu.

Porém, o Pentecostes, que celebra o nascimento da Igreja, é uma festa menos ouvida do que o Natal e a Páscoa. Por que motivo? Talvez, a Igreja seja tão humilde a ponto de escolher festejar discretamente o evento fontal; ou aquele fogo original, que a constituiu, foi logo colocado novamente debaixo do balde. Celebrar hoje esse evento, para a Igreja, significa, portanto, redescobrir a própria vocação missionária, mas principalmente se interrogar sobre o modo de vivê-la.

O episódio de Pentecostes, narrado no livro dos Atos, reescreve páginas antigas da Escritura Sagrada. Lembramos facilmente o mito de Babel, onde as línguas são multiplicadas por Deus para salvar os povos do ídolo do pensamento único. Mas Pentecostes nos remete sobretudo ao Sinai, ao dom da Torá que, para os judeus, é muito mais do que os Mandamentos: aquelas palavras são a voz de Deus, a sua própria presença.

O Deus de Moisés e de Jesus não é oculto; Ele comunica falando uma língua divina que não é exatamente a nossa: é a língua de Pentecostes. Uma língua que não precisa de traduções para que todos a possam compreender. A Igreja é chamada a falar essa língua apaixonada, de fogo, justamente, capaz de narrar as maravilhas de Deus aos distantes, aos diferentes, em sintonia com as suas expectativas e preocupações.

Se custamos a fazer missão, apesar dos meios midiáticos à nossa disposição, talvez seja porque as Igrejas hoje falam uma língua que poucos compreendem. Pretendem anunciar a salvação com uma linguagem interna, um dialeto desconhecido para a maioria. Discursos autorreferenciais que pouco têm de divino...

E, acima de tudo, parecem distantes das problemáticas da vida concreta dos interlocutores. A Igreja tende a anunciar a si mesma ao mundo, antes do Ressuscitado. Talvez porque não saiba escutar. Está mais preocupada em se fazer escutar do que em escutar as demandas de sentido que se movem nos corações em busca. E quem a escuta intui isso à flor da pele!

O milagre da comunicação de Pentecostes é jogado justamente na arte de comunicar em uma língua que não pertence a quem anuncia. Redescobrir o Pentecostes, então, significa reencontrar essa linguagem outra, presença de Deus entre nós, que é fogo, palavra apaixonada que muda as nossas vidas, antes ainda de pretender mudar as vidas dos outros.

Precisamos aprender a língua do Pentecostes, a única que não precisa ser traduzida; aquela língua que nos faz sentir acolhidos e reconhecidos na própria singularidade.

A língua de Pentecostes também é palavra de liberdade: não nos pertence; como o vento, sopra aonde quer, e você não pode reclamar sobre ela o direito autoral. É voz ecumênica, que deveria ecoar na Igreja universal. Não gera inveja, quando a outra confissão a redescobre ou aprende o seu vocabulário; em vez disso, produz frutos de estupor, alegria e gratidão.

O Espírito, que a Igreja recebe como dom em Pentecostes, é vento de liberdade, enraizado, porém, na Palavra antiga. É por isso que o Pentecostes é uma reescritura de diversos episódios bíblicos e, particularmente, do Sinai.

Quem contrapõe a "Igreja da Palavra" à "Igreja do Espírito" (Igrejas reformadas históricas e Igrejas pentecostais!) esquece que a Igreja nasce, justamente, com aquela festa que celebra o dom da Torá, da Palavra. O crente, em Pentecostes, aprende que é essencial conhecer a Palavra atestada nas Escrituras; e, ao mesmo tempo, que isso não basta para que a Palavra se torne voz que nos fala...

O Pentecostes coloca novamente no centro a Palavra que, sem o Espírito, é morta, e o Espírito que, sem a Palavra, é afônico. A Escritura oferece a partitura; o Espírito inspira a execução da sinfonia. E a Igreja é a orquestra chamada a executar o concerto de Deus, para este nosso tempo.

Como em Jericó, as nossas cidades estão sob ataque, os muros que voltam a se erguer para dividir e separar não são derrubados pela força, mas com o som de uma música capaz de chegar ao coração de toda criatura. Provavelmente, as Igrejas ainda não são capazes de executar essa sinfonia divina.

Dificuldade em ler a partitura, inexperiência com os instrumentos, ao mesmo tempo a preguiça e a inconstância, talvez até um pouco de artrose... A disciplina da escuta da Palavra, a aplicação constante nas provas, o risco da execução pública podem, no entanto, transformar uma melodia aproximativa em um concerto capaz de surpreender o mundo, como o Pentecostes.

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