A Ascensão de Jesus não é um “período sabático” até a segunda vinda

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06 Maio 2016

"Uma das grandes realizações do movimento litúrgico do século XX foi a redescoberta da centralidade do Mistério Pascal de Jesus Cristo para a vida, o pensamento e a prática cristãs", escreve Robert P. Imbelli, padre da Arquidiocese de Nova York e autor do livro “Rekindling the Christic Imagination”, em artigo publicado por Crux, 05-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Certamente, a restauração do Tríduo Pascal na década de 1950 desempenhou um papel-chave na percepção renovada do cumprimento da salvação na morte e ressureição do Senhor. Este tema do Mistério Pascal permeia os documentos do Concílio Vaticano II. Ele serve como o cantus firmus para a própria autocompreensão e missão do Concílio no mundo.

Nesse sentido, a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia professa: “Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que ‘morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida’”.

Mas observe: este texto ensina algo que frequentemente tendemos a ignorar, a saber: que a Ascensão do Senhor é um momento integrante de seu Mistério Pascal.

Por vezes, nós limitamos o “Mistério Pascal” à morte e ressureição de Jesus Cristo. Mas a Ascensão gloriosa não é algo secundário, um adendo; ela é a culminância do Mistério Pascal. Se Jesus “vive e reina para todo o sempre”, como confessa toda conclusão das orações litúrgicas, então ele “vive” por causa de sua ressureição, mas “reina” por causa de sua Ascensão.

Ao trazer a sua humanidade para dentro do próprio coração da divindade, a Ascensão de Jesus torna possível a sua presença salvífica universal.

O apóstolo Pedro proclama essa notícia maravilhosa, esse kerygma, em seu famoso discurso de Pentecostes à multidão reunida em Jerusalém. Com estas palavras ele conclui: “Deus ressuscitou a este Jesus. E nós todos somos testemunhas disso. Ele foi exaltado à direta de Deus, recebeu do Pai o Espírito prometido e o derramou: é o que vocês estão vendo e ouvindo”.

Quando perguntado por alguns que o ouviam: “Irmãos, o que devemos fazer?”, Pedro responde: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos pecados; depois vocês receberão do Pai o dom do Espírito Santo”.

Por sua Ascensão à direita do Pai, Jesus torna-se o chefe do seu Corpo, a Igreja. Para o Espírito Santo, que anima a Igreja, está o dom de Cristo ascendido. Essa Ascensão torna possível o Pentecostes.

Mais do que isso, o dom do Espírito não é algo que ocorre uma única vez, seja no Pentecostes, seja no Batismo ou na Confirmação de alguém. O Senhor ascendido é a fonte permanente dos dons espirituais que animam e edificam o seu Corpo.

O capítulo quarto da Carta aos Efésios ensina: “subiu às alturas (…) distribuiu dons aos homens”. A Ascensão anuncia a atuação contínua de Jesus, que “está sempre vivo para interceder em favor [de nós]”.

Portanto, é um equívoco considerar a Ascensão como a ausência de Jesus, como se ele estivesse agora longe em “período sabático” até a segunda vinda. Em vez disso, por sua Ascensão, Jesus está presente de um jeito novo, libertando homens e mulheres através dos sacramentos para a vida nova no Espírito.

A presença do Cristo ascendido é uma presença transformadora. Ela permite que aqueles que o recebem tornem-se, eles mesmos, humanos mais plenos, ao tornarem-se mais verdadeiramente presentes.

Apesar de todas as maravilhas que a tecnologia contemporânea possibilita, apesar de todos os avanços nos modos de comunicação que inventa, paradoxalmente ela traz também o perigo de um novo isolamento e uma nova separação. A expressão mais surpreendente deste perigo é a de duas pessoas num restaurante, cada uma absorta em seu iPhone, ignorando a presença da pessoa que se senta à frente.

A real presença de Jesus, que a Ascensão estabelece, exige de nós atenção concentrada e paciência respeitosa. Estas são qualidades não cultivadas facilmente em um mundo de mensagens instantâneas e de sobrecarga induzida de estresse.

Para contrariar os nossos sentidos físicos perigosamente atrofiados, a crença na Ascensão de Cristo promove um ascetismo que fortalece aquilo que a tradição espiritual chama de “os sentidos espirituais”. Estes são olhos que veem e línguas que cantam a bondade absoluta e a glória de Deus no rosto de Jesus Cristo.

Na exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco insiste na importância do “olhar contemplativo” na vida familiar, olhar pelo qual consideramos e respeitamos a unicidade e a dignidade do outro: esposo, esposa, filhos, avós.

Um tal olhar contemplativo e amoroso forma-se e foca-se na escola da celebração e contemplação eucarística. Aí, discerne-se a presença de Cristo pelos olhos da fé nas realidades terrenas de pão e vinho. Aí, aprendemos a partir da presença total de Cristo a estarmos plenamente presentes com ele e com o outro.

A magnífica Carta aos Colossenses exorta os primeiros cristãos: “procurem as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus”. Ela assim postula uma visão e uma prática de Ascensão.

Conforme deixa claro o restante do capítulo três desta carta, as “coisas do alto” acolhem as virtudes do amor, da compaixão, do perdão e da ação de graças ao modo de Jesus Cristo. Uma tal visão não se retira deste mundo, mas promove a transformação contínua das pessoas em Cristo.

A Ascensão de Cristo não distancia o Senhor do mundo que ele criou e das pessoas que redimiu. Pelo contrário, ela garante a sua promessa: “Eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo”.

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