Cientista e psicólogo buscam caminhos para uma maior compaixão pela Terra

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05 Maio 2016

Um comercial recente de TV que anunciava móveis destacava uma dona de casa frustrada que tinha muitas coisas, porém sem lugar para colocá-las. De início, ela pensa em se desfazer de alguns apetrechos, mas logo deixa a ideia de lado quando encontra uma cama novinha em folha, completa, com gavetas de armazenamento sem fundos. A ideia final é, evidentemente, que a cama espaçosa que ela encontra permite-a comprar ainda mais coisas.

O comentário é de Sharon Abercrombie, publicado por National Catholic Reporter, 03-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A minha reação inicial: um calafrio nauseante.

Mas uma conversa também recente com o cientista climático e psicólogo Jeff Kiehl alterou a minha percepção, na medida em que percebo o comercial agora como um reflexo do mito arquetípico contemporâneo de que o crescimento econômico e a prosperidade é tudo o que importa para a nossa felicidade.

No livro “Facing Climate Change: An Integral Path to the Future”, Kiehl explora os mundos da ciência, a psicologia junguiana e a filosofia budista numa tentativa de apresentar maneiras esperançosas de nos libertar dos velhos padrões para criar uma história nova repleta de compaixão pela Terra.

A certa altura, o autor discute o mito do Destruidor da Terra, escrito há mais de 2 mil anos pelo poeta romano Ovídio em “Metamorfose”.

O mito fala de um homem que quer construir a maior casa da cidade. Para completar este projeto ambicioso, ele põe abaixo a maior árvore da floresta sagrada – ação que encetou apesar da advertência de Deméter, a deusa das florestas, de que acabaria sofrendo com este ato. Prenunciando o que está por vir, a árvore goteja sangue em seu machado. A pedido de Deméter, a sua irmã Famine aconselha uma punição duradoura pelo sacrilégio impondo a ele uma fome sem fim. Em busca de satisfazer a sua barriga faminta, o homem, não encontrando alimentos suficientes, vende os seus bens – incluindo a sua casa e a sua única filha – antes de consumir finalmente o seu próprio corpo.

Kiehl diz que este mito surgiu por volta da época em que os gregos estavam construindo uma série de navios para expandir o controle que tinham do Mar Mediterrâneo. Eles cortaram a maior parte das árvores da Península Grega, levando a um desflorestamento e à perda de um solo agrícola valioso.

A alegoria do “Destruidor da Terra”, explica Kiehl, mostra “o que acontece quando nos separamos da natureza e a destruímos”.

“Metaforicamente, ela retrata a forma como alimentamos a nossa fome infinita atual, como abatemos o futuro dos nossos filhos”, escreve ele. “Além disso, a desconexão deste homem com o feminino, representada pela venda de sua filha, significa que ele não consegue se relacionar de uma maneira saudável com os demais”.

O comercial inicialmente citado, embora livre do pavor existente em Ovídio, lida com a ideia básica de que quanto mais faminto e necessitado estiver o comprador, melhor será para a indústria e para a economia.

Para criar verdadeiramente um ambiente mais sadio, Kiehl diz que precisam entrar na equação o coração e a compaixão.

“O que ciência pode fazer é dar explicações”, escreve.

Experiente cientista e coordenador da seção de pesquisas climáticas do National Center for Atmospheric Research, em Boulder, Colorado, Kiehl disse dedicar pouco tempo a falar de fatos nas palestras que dá sobre as mudanças climáticas. Em vez disso, prefere perguntar como os ouvintes se sentem em relação ao problema: raiva, tristeza, desemparo, medo (em particular, o medo da mudança, um rebaixamento na renda ou no nível estilo de vida)? Todas estas são reações compreensíveis, observa ele, especialmente a partir do ponto de vista da hierarquia das necessidades proposta por Maslow, que sugere que uma atenção a necessidades de nível superior, tais como ter um planeta saudável, normalmente recebe menos dedicação até que necessidades mais importantes (alimentação, abrigo, segurança) estejam satisfeitas. Em nossa conversa, Kiehl também abordou alguns arquétipos: aquelas lentes, imagens e metáforas compartilhadas através das quais vemos o mundo. Alguns são pais, mães e heróis; outros incluem os idosos, os guerreiros, os velhos ou senex (este último oferece insights particulares para o debate climático nos EUA).

O senex gosta de coisas fixas, rígidas e seguras, é desejoso de certeza absoluta nas coisas; mesmo que venham a existir provas de que uma mudança seria melhor, ele continua a hesitar. O lado positivo aqui inclui uma avaliação cuidadosa, juntamente com uma comparação e reflexão profunda da situação.

Exemplos do lado negativo do arquétipo senex na história incluem os que lutaram contra a legislação dos direitos civis ou contra a regulamentação para limitar a poluição do ar, diz Kiehl. Na questão climática, ele aponta o presidenciável republicano John Kasich, atual governador de Ohio.

Embora Kasich reconheça um grau humano nas alterações climáticas, insiste que a proteção ambiental não deve vir à custa da economia. Porém, acrescenta Kiehl, a falta de ação pode em si afetar a economia, enquanto uma mudança para o uso de energias renováveis pode levar ao aumento do emprego e ao crescimento econômico.

“A ideia de que seria um desastre econômico vem da indústria de combustíveis fósseis ou daqueles que resistem a mudar porque temem a mudança. Eis o arquétipo senex em movimento”, diz o autor.

Foi uma curiosidade brotada 25 anos atrás sobre a resistência generalizada à noção de que as mudanças climáticas mundiais eram causadas pelo homem o que levou Kiehl, detentor do título de doutor em ciência atmosférica, a estudar psicologia clínica a partir da perspectiva de Carl Jung na Regis University, instituição jesuíta em Denver. Em “Facing Climate Change”, Kiehl aborda este fundo psicológico junguiano, fundindo a sua escrita clara e poética com uma discussão de ciência e espiritualidade budista.

Cada capítulo começa com uma meditação sobre as belezas da natureza que Kiehl, que mora em Santa Cruz, na Califórnia, encontra em suas caminhadas diárias. Num relato particularmente memorável, ele e um policial se postam em admiração diante de uma bela árvore de pau-brasil “tão alta que preciso me inclinar para trás para ver o seu topo”. Permanecendo em silêncio e em referência, Kiehl corre a sua mão ao longo do tronco da árvore, “uma casca macia e fibrosa”.

“Os contornos da superfície vermelha e enrugada encaixam-se em minha mão”, escreve o autor no livro. “A árvore e eu estão presentes um ao outro num estado de ‘ser com’”.

Caso desejemos sobreviver, diz ele, devemos voltar às nossas raízes espirituais autênticas, quer elas estejam dentro dos nossos caminhos religiosos individuais, quer na própria natureza. Devemos aprender a sentir, a nos colocar nos lugares das pessoas sofredoras ao redor do planeta. Kiehl oferece duas metáforas para imaginarmos uma mudança: a cruz, do cristianismo, e outra de sua própria tradição budista, a rede de Indra.

Jung percebia a imagem da cruz como um modo vertical-horizontal de viver; o horizontal simboliza viver no mundo, e o vertical como estando conectado à dimensão numinosa, ou espiritual. Uma pessoa sadia, acreditava Jung, irá viver no ápex, onde os dois convergem. Kiehl observa que, no livro “Aion”, de Jung, Cristo é um símbolo do arquétipo da totalidade.

No budismo, a rede de Indra difunde-se ao longo do universo, com joias altamente reflexas postas em cada interseção. Qualquer coisa que estiver refletida em um dado ponto da rede é vista através de toda ela.

“Eu acho que é desse modo que uma transformação pode se dar neste momento; cada pessoa é uma joia na rede social mundial, refletindo ideias, sentimentos, crenças e ações”, diz Kiehl, explicando que a rede de Indra é uma história que se foca na criação apaixonada ao invés de se concentrar na destruição.

Como o padre passionista Thomas Berry, Kiehl crê que as artes são veículos excelentes para ajudar na criação de imagens arquetípicas novas, positivas, imagens que tocarão nas consciências das pessoas. Para isso, ele está trabalhando com artistas e cineastas visando descobrir imagens que podem atingir os corações das pessoas com base na beleza frágil do planeta, para conduzi-las a ação.

A mensagem final de Kiehl diz tudo: “Olhe para dentro e siga o caminho do seu coração. Veja a bondade básica dentro de si e dos outros. Essa bondade é o fundamento último a partir do qual todos nós começamos... Perceba-a e permaneça verdadeiro ao caminho da compaixão e você criará aquele mundo de maravilhas”.

Penso que isso não reside no fundo da gaveta, entupida de coisas, daquela cama nova.

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