"Carta a Voltaire." Texto inédito do biblibista jesuíta Silvano Fausti

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19 Abril 2016

"Se a sua opinião é a de desprezar ou matar alguém, vou lutar para fazer com que você mude de parecer. Mesmo às custas de que você me despreze ou me guilhotine".

O sítio Vino Nuovo, 14-04-2016, tem o privilégio de oferecer, em primeira mão, um breve trecho de um livro muito precioso. Chega hoje às livrarias italianas, pela editora Ancora, Lettera a Voltaire. Contrappunti sulla libertà [Carta a Voltaire. Contrapontos sobre a liberdade], o último livro em que o padre Silvano Fausti – jesuíta e biblista falecido em Milão em junho passado – trabalhou até poucas semanas antes de morrer.

Ele o escreveu de uma vez só, nos dias dramáticos que se seguiram ao massacre realizado em Paris, na redação do Charlie Hebdo, naquelas semanas em que se discutia muito sobre razão e liberdade de expressão. Nasceu, assim, esta carta ao pai do Iluminismo, onde o padre Fausti propõe um artifício retórico intrigante: quem o escreve, de fato, não é diretamente ele, mas um anônimo coirmão jesuíta, que teria sido professor do jovem Voltaire antes de partir como missionário entre os Hurons da "Nova França", na fronteira entre o atual Canadá e os Estados Unidos.

O artifício é verossímil, a partir do momento em que, realmente, o filósofo estudou com os jesuítas. Um pouco menos verossímil é o fato de o jesuíta anônimo escrever por e-mail ao endereço Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. e coloque o padre Fausti em cópia, confundindo-o com o seu tio Giovanni Fausti, missionário na Albânia, que, em torno de 1930, escreveu um ensaio sobre "Islã e cristianismo".

Mas esse jogo entre espaço e tempo – evidentemente – é funcional a uma reflexão que olha para a questão da liberdade hoje. Entrelaçando a filosofia à atualidade, a história tem o olhar até mesmo mordaz sobre as contradições do presente. O resultado é uma reflexão sobre a liberdade e sobre os fanatismos (incluindo os do anticlericalismo); mas – como sempre nos livros do padre Fausti – é uma reflexão que encontra o seu cumprimento no mistério de Deus, revelado no estilo de Jesus. Nesse sentido, o livro também pode ser lido como um verdadeiro testamento.

O que propomos abaixo é um breve trecho do capítulo IV, em que Fausti se confronta com a mais célebre frase de Voltaire. Apenas uma pequena amostra de um livro que merece absolutamente ser lido na íntegra.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Achtung minen, mein liebes kind! Tudo naufragou no mar da ideologia e dos ismos acima? Ou acabou apenas no papel da Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Não. Eu sou otimista. A história é como o camaleão. Junto aos Macua, ele é símbolo de discernimento e de sabedoria. Avança com prudência, virando a cabeça aqui e ali para se conformar às novidades. Toda cor lhe cai bem, contanto que seja a da situação.

Terminada a Segunda Guerra Mundial na Europa (re)nascem os ideais de paz e de solidariedade. E também o desejo de integração entre diferentes, sem discriminação. A história está aberta e vai em frente lentamente. Mas o bem não é automático.

Hoje se entende melhor que a liberdade está vinculada à responsabilidade de construir fraternidade e igualdade. Liberdade não é "morder-se e devorar-se uns aos outros", mas para estar "a serviço uns dos outros através do amor" (Gl 5, 14.13).

Os meios que temos hoje nos forçam a não brincar com a liberdade. Não se pode reduzi-la a ideia desconectada da realidade em que se nasce e se cresce. Livres são os filhos que vivem como irmãos. A vida é um tecido igual para todos, mais ou menos. O que faz a diferença é o estilo, o modo ou a moda de viver aqui e agora.

Mesmo que, etsi Deus non daretur, se possa construir ética e direito (essa distinção salvou B. da prisão!), si pater non datur, não existem filhos nem irmãos. Fundamento da liberdade é ser filhos e irmãos, portanto, de igual dignidade. Entende-se alguma coisa disso ao ler este testemunho do prior dos monges de Tibhirine: "[O chefe dos terroristas] apresentou três pedidos, e, por três vezes, eu pude dizer 'não' ou 'assim não'. Ele nos disse: 'Vocês não têm escolha'. Eu disse: 'Sim, eu tenho uma escolha'. Não só porque eu era o guardião dos meus irmãos, mas também porque eu era o guardião daquele irmão que estava lá na minha frente e que devia poder descobrir em si algo mais do que aquilo em que tinha se tornado" (irmão Christian de Chergé, degolado em 1996, com outros seis coirmãos).

Entende-se a comum paternidade das inúmeras pessoas que viveram e vivem não a ideologia cristã, mas o estilo de vida de Jesus, oposto ao do "diabo", que divide teoria da prática de vida cotidiana.

O estilo de Jesus, no fundo, é o de toda pessoa simples. Seu pão é tentar amar. Examinando-se frequentemente ou, melhor, constantemente, ele conseguiu, e conseguiu com discernimento, ou seja, prudência e responsabilidade. Eu acho que boa parte dos cristãos e não cristãos honestos estão nessa linha. Mesmo sem saber. São pessoas sem títulos. Não geram notícia e consideram como normal agir em consciência, fazendo ao outro o que desejam que o outro lhes faça.

Hoje em dia, há muitas décadas, há pessoas mortas, mártires da liberdade entendida como fraternidade. Não se trata de um punhado de cartunistas simpáticos ou iluministas. São cerca de 100 mil por ano os coitados que são degolados pelo simples motivo de amar a deus e ao próximo. Também aqueles que os matam. Espero que continuem anônimos e não gerem notícia. São pilares que sustentam o mundo, para que não imploda no ódio da sátira a lápis ou a lâmina de faca.

Caro François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire, você disse ou fizeram com que dissesse: "Eu não concordo com o que você diz, mas vou lutar até a minha morte (obviamente, na cama e na velhice tardia) para que você tenha o direito de dizê-lo".

"Muito obrigado", eu lhe digo. A sua tolerância certamente é divina. Você faz como deus faz com você. Esse deus é o único que não crê em Deus e nas nossas crenças ou descrenças sobre ele. Mas ele crê obstinadamente, mesmo contra toda a evidência, no ser humano e na sua liberdade. E nunca a tira, mesmo que vá contra ele e – o que é pior para ele! – quando vai contra nós mesmos.

Porém, eu confio mais nele que eu conheço pouco e mal, e menos em mim e em você, igual a mim, que eu conheço bastante bem.

Mas eu, como pobre jesuíta, perdido na Nova França, quero dar valor adjunto à sua tolerância. Por isso eu lhe digo: "Se a sua opinião é a de desprezar ou de matar alguém, vou lutar para fazer com que você mude de parecer. Mesmo às custas de que você me despreze ou me guilhotine".

Lembre, porém, que a língua mata mais do que a espada. E não esqueça que liberdade sem discernimento e responsabilidade não levanta voo. É pássaro sem asas. Ou, melhor, réptil rastejante que mata fraternidade e igualdade.

E boa noite para você e para todos, também aos clericais, laicistas iluministas ou não.

E não se esqueça de apagar as luzes à Deusa Razão. O coirmão a quem encaminhei a sua carta tem uma irmã de 90 anos que correu o risco de se queimar com velas acesas ao Sagrado Coração.

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