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Por: Jonas | 07 Abril 2016

“Choro de indignação porque durante muitíssimo tempo o suposto bem da instituição primou sobre as pessoas, vítimas inocentes. A Igreja protegia os vitimários e culpava as vítimas [de abusos sexuais], aquelas que fazia se sentir duplamente vítimas, caso se atreviam a levantar a voz, ou as silenciava com um punhado de dólares. As moedas de Judas”, reflete José Manuel Vidal, doutor em Ciências da Informação e licenciado em Sociologia e Teologia, em artigo publicada em seu blog Rumores de Angeles, 03-04-2016. A tradução é do Cepat.

 
Fonte: http://goo.gl/HN5GtL  

Eis o artigo.

Estou chorando a bordo de um avião que me leva a Lima. Acabo de ver Spotlight, o filme sobre os padres pedófilos de Boston. Tento disfarçar, mas estou em pranto. Como jornalista, o filme é um deleite e te reconcilia com uma profissão que, bem exercida, torna-se um extraordinário serviço público. Como crente, sofro pelas vítimas e minha alma se parte pelo dano causado, pela perversidade do sistema e pela dúvida de que realmente tenhamos virado a página e estejamos de verdade na era da tolerância zero diante da mácula da pedofilia clerical.

Choro de dor pelas vítimas. Por tantas vítimas inocentes das quais estes depredadores clericais roubaram a inocência. Seguindo quase sempre o mesmo padrão de ‘caça’: crianças pobres, de famílias pobres e desestruturadas, de bairros pobres de uma cidade rica, católica e senhorial como Boston. Mas, o esquema se repete em todo o mundo. Crianças pobres e frágeis, tremendamente frágeis. Escolhiam sempre os mais vulneráveis e os que estavam certos de que jamais contariam algo. Toda declaração eclesiástica que não comece se compadecendo com as vítimas e tomando partido por elas, não deveria ser acolhida na Igreja.

Choro de dor pelo silêncio dos bons, das pessoas que sabem ou intuem, mas não denunciam, nem movem um dedo. E quando alguém age, olham para este com receio e o tacham como inimigo da Igreja.

Choro de raiva e indignação pelo sistema de acobertamento defendido com unhas e dentes pela instituição eclesiástica. Sem fissuras. Sem exceções. Desde quando? O filme fala de casos desde os anos 1960. E antes? Desde quando? Desde que ano, desde que século a Igreja sabia da existência destes degenerados em seu seio? Só de pensar nisto me dá calafrios. Crimes abomináveis impunes, cometidos sob o guarda-chuva protetor da instituição que simplesmente mudava de lugar os caçadores desalmados e olhava para outro lado.

Choro de indignação porque durante muitíssimo tempo o suposto bem da instituição primou sobre as pessoas, vítimas inocentes. A Igreja protegia os vitimários e culpava as vítimas, aquelas que fazia se sentir duplamente vítimas, caso se atreviam a levantar a voz, ou as silenciava com um punhado de dólares. As moedas de Judas.

Choro de indignação porque não se trata de algumas quantas maçãs podres. Entre os padres, 6% são pedófilos, segundo estudos mais confiáveis. Seis em cada cem. São 1020 entre os 17.000 padres espanhóis. E sem contar os 45.000 freis e freiras que há na Espanha. E se levantarmos a porcentagem em relação ao número total do clero católico mundial?

Choro de indignação porque o cardeal Law sabia de tudo, há tempo, e se dedicou a esconder, a acobertar, a negar o que conhecia com certeza. E quando estourou o caso, tentou desviar a atenção dizendo que era uma campanha travada pelo judaísmo anticatólico americano para desprestigiar a Igreja.

E quando todas as artimanhas de negação caíram, fugiu como um coelho da justiça e se refugiou no Vaticano. E o Vaticano não só o acolheu, como também o nomeou nada menos que arcipreste de Santa Maria Maior, uma das basílicas mais histórica, importante e rica de Roma.

Aposentado de seu cargo na basílica, segue em Roma ao abrigo da lei. Dizem que a primeira vez que Francisco foi à Basílica de Santa Maria e o encontrou ali, disse que não queria voltar a vê-lo. No entanto, alguns dias depois, as fontes de comunicação vaticanas desmentiram a informação. E Law continua na Cúria Vaticana. Há pouco, o vi participando de uma celebração papal em São Pedro. Quem o protege? Por quê? Se está demonstrado que foi, nada menos, que um acobertador, por que Roma não o julga canonicamente e não o entrega à justiça civil? Quantos Law há entre a hierarquia católica?

Choro de indignação porque a Igreja mudou o discurso e o argumento. Fala, agora, de tolerância zero reforçada. Mas, as pessoas e os fiéis aguardam medidas concretas. A comissão antiabusos funciona? O tribunal especial que Francisco colocou em andamento na Doutrina da Fé funciona?

Choro de indignação porque não estou certo de que se tenha acabado para sempre e em todas as partes com a dinâmica perversa de que “os panos sujos são lavados em casa”.

Neste exato momento, Religión Digital tem provas documentais irrefutáveis de vários casos de abusos de padres, diante dos quais os respectivos bispos se mostram reticentes em cortar pela raiz, afastar preventivamente os supostos abusadores, abrir julgamento canônico e, muito menos, em entregá-los à justiça civil. Por isso, a atitude de dom Algora com o suposto padre abusador de sua diocese está sendo exemplar: abrir expediente canônico, afastá-lo de suas funções e denunciá-lo à justiça civil.

Choro de raiva por todos esses hierarcas podres, cúmplices, coniventes e acobertadores, que ainda hoje dizem que não é para tanto ou afirmam, em uma tentativa vão e ruim de se justificar, que também há pedófilos em outros âmbitos. E é verdade, mas esse argumento na boca de um bispo soa desejar desviar a atenção e tentar que o foco midiático não aponte só para eles. Ao fazer isto, esquecem que pertencem a uma instituição que quer ser exemplar e que, com base em sua ética, pretende dizer aos demais como devem se comportar.

Choro pelo silêncio cúmplice de tantos padres que sabem, conhecem ou suspeitam dos crimes de seus companheiros de presbitério (Os padres sabem tudo entre eles e conhecem até os pecados e sobretudo os pecados dos demais). Porém, por covardia ou porque também possuem outras coisas a ser ocultadas, silenciam e não denunciam. E quando alguns se atrevem a denunciar, o próprio bispo os persegue. Veja o caso de Oaxaca.

E após chorar e me indignar, atrevo-me a suplicar ao Papa que tome medidas rápidas, contundentes e drásticas sobre o tema. Caia quem cair, ainda que se chamem Law ou Barbarin e sejam cardeais. E que explique ele próprio ou mande outros explicar (muitas vezes, é necessário) essas medidas concretas contra a pedofilia. Os fiéis não as conhecem. Se existem, não lhes chegam e merecem explicações completas e exaustivas. Para que possam voltar a confiar na instituição, nos padres e colocar em suas mãos seus filhos e filhas, desde sua mais tenra infância. Mão dura e chicote como o de Jesus no templo. Resta muito para ser limpo.

Também me atrevo a pedir aos bispos espanhóis que assistam o filme. Melhor ainda, que convoquem seus padres e o projetem e, ao terminar, chorem, rezem, peçam perdão publicamente e mudem o chip de acobertadores-cúmplices pelo de advogados das vítimas e acusadores dos vitimários. E tomem medidas rápidas e eficazes. E cortem o joio que há no meio do trigo. No caso da pedofilia, não se pode esperar que cresça o trigo e o joio, porque os lobos matam os inocentes e o pecado contra o Espírito Santo não admite exceções. “Ai daquele que escandalizar um desses pequeninos. Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar”.

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